Crónica de Ana Lúcia Figueiredo : “Os horizontes verticais”

Há umas semanas, assisti ao ensaio de um espetáculo (ainda em criação) para público jovem, cujo texto, da autoria do ator/criador Rui Mendonça, diz: “Criatividade… criativo sem idade. Sem idade para ter juízo, sem os pés bem assentes no piso, sem nascer o dente do ciso. (…) Sê rebelde. Sê radical. Rejeita o banal. Não vejas o mundo só na horizontal. Cria. Cria um horizonte vertical. (…) Dança. Dança com o horizonte. Dança à distância. Dança. Que quando o mundo dança, há mudança.”

Esta ideia remeteu-me para Manoel de Barros, que, num dos seus poemas, fala de um esticador de horizontes. O poeta brasileiro, que dizia que só tinha tido infância, e, portanto, tudo o que escrevia era apenas sobre ela, também escreveu que “O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê./É preciso transver o mundo”.

Então, como criar horizontes verticais, como esticar horizontes, como fazer dançar o mundo, como transver o mundo? Eu diria: estimulando o pensamento divergente, através da criatividade. E criatividade não se limita à expressão artística, ela é essencial também para a ciência, para a inteligência emocional, para a interação social… Vários autores, desde os primeiros versículos do Livro do Genesis (!), repetiram já o conceito de que criar é organizar o caos, criar é criar sentido.

Pessoas criativas são pessoas mais flexíveis, no pensamento e na ação, com maior capacidade de adaptação a mudanças e com mais facilidade na resolução de problemas. Isto é válido para adultos e crianças. Por essa razão, é tão importante que os contextos de aprendizagem formais e informais (escola, família, comunidade…) privilegiem coisas aparentemente simples, como o tempo para brincadeiras destruturadas, sem orientação de adultos; o espaço como recurso de liberdade para explorar, fantasiar e construir; o erro como exercício natural e saudável; a autonomia para expressar ideias e assumir decisões; o respeito pelas opiniões críticas das crianças; o reconhecimento do valor dos processos, mais do que dos resultados finais.

Para que a criança do século XXI seja protagonista do seu próprio processo de conhecimento – criando, invertendo ou esticando os seus próprios horizontes -, é urgente que as competências se sobreponham aos conteúdos, que os valores se sobreponham aos programas, que o pensamento crítico se sobreponha à teorização, que a participação se sobreponha ao doutrinamento, que a cooperação se sobreponha à competição, que a humanização da aprendizagem se sobreponha à burocratização da educação.

Quando isso acontecer, estaremos em condições de parafrasear Wallace Stevens: “Não é todos os dias que o mundo se organiza num poema”.

Ana Lúcia Figueiredo

Programadora Cultural e Educativa