BLC3 em Oliveira do Hospital é caso de sucesso num interior deprimido

Um artigo no jornal Público, põe a nu, mais uma vez, a interioridade do nosso país, e a grande dificuldade do interior em se desenvolver, a começar pelo problema demográfico :

“O problema começa logo nas nossas cabeças”, diz o geógrafo João Ferrão, no primeiro de uma série de trabalhos sobre desenvolvimento do interior, numa altura em que o tema está em discussão pública

O êxodo representou o abandono de uma agricultura que atava a população à pobreza. O movimento de saídas do território persiste. E a natalidade está a cair desde meados da década de 70. Os piores cenários podem ser vistos no Pinhal interior sul, na serra da Estrela, na Beira interior sul, na Beira interior norte. Já não vão lá com incentivos à natalidade. Têm um problema de estrutura etária, tem avisado Eduardo Castro. A percentagem de mulheres em idade fértil é demasiado baixa.

“Durante anos, houve a ideia de que a infra-estruturação e a melhoria da qualidade de vida seriam condições necessárias e suficientes para imprimir uma dinâmica de desenvolvimento”, lembra Luís Leite Ramos. “Embora as condições de vida e a qualidade de vida em muitos municípios do interior sejam muito melhores do que em muitos concelhos das áreas metropolitanas, o facto-chave na fixação de população é o emprego e isso não existe ou existe pouco. A única maneira de romper este ciclo é com emprego produtivo associado às competências locais, que podem ser recursos naturais, mas também podem ser outras competências ou capacidades instaladas, nomeadamente instituições do ensino superior”, acredita.

“Se as pessoas não quiserem, o Estado não vai obrigar a ir viver para o interior”, enfatiza a coordenadora da Unidade de Missão de Valorização do Interior, criada na dependência da presidência do Conselho de Ministros. “O Estado vai criar incentivos que podem ser facilitadores. E a primeira condição é garantir que não há perda de serviços públicos”, diz a também professora da Universidade de Coimbra, eleita deputada pelo Círculo de Coimbra na lista do PS. Em nome da racionalização dos custos e da eficácia, nos últimos anos têm fechado escolas, postos de correios, tribunais, extensões de saúde.

Convergência de factores

Não há um pacote específico de incentivo à atracção e fixação de jovens. Há, defende, várias medidas que podem ter esse efeito, relacionadas, por exemplo, com adequação da oferta de ensino e formação, incentivos à criação de emprego, desenvolvimento de estruturas de base tecnológica, apoio à mobilidade geográfica de desempregados, criação de bolsas de habitação para arrendamento jovem. “Tem de haver convergência de factores para que as coisas resultem.”

“Habituámo-nos a olhar para o interior em função de uma actividade agrícola. Já não temos o predomínio dessa actividade, mas também não temos o de outra. Estamos num momento de transição”, constata aquela responsável. “Despontam projectos com inovação.”

O que é, afinal, o interior? O interior é Cabaça, um conjunto de casas em ruínas encavalitadas num esporão com vista de estarrecer sobre a serra algarvia, uma aldeia morta entre sobreiros, medronheiros, estevas, urzes e rosmaninho. Mas também a multiplicação de olival intensivo no Alvito – milhões de oliveiras plantadas em compassos apertados, exploradas em regadio. E a produção de enchidos em Vinhais, da chouriça à alheira, do salpicão ao butelo. E a BLC3 – Plataforma para o Desenvolvimento da Região Interior Centro, com sede em Oliveira do Hospital, que venceu o prémio europeu de crescimento sustentável com um projecto de produção de biocombustíveis.

João Ferrão ainda se lembra de ouvir Valente de Oliveira, ministro do Planeamento e da Administração do Território entre 1985 e 1995, discursar sobre a necessidade de “desencravar o interior”. “Desencravar era criar condições de acessibilidade.” Agora, que o país é atravessado por três mil quilómetros de auto-estradas e o digital impera, todas as distâncias se encurtaram.

O geógrafo resume o cenário nestes termos: “Quando se olha para aquilo a que se chama ‘interior’, tem de se discutir duas coisas: regressão e dinamismo. Há dinamismo interessante e dinamismo que levanta as maiores dúvidas. Uma estratégia para o futuro devia lidar com o abandono: ‘Bom, vamos ter de ser selectivos. Vamos apostar em quê? Como vamos gerir as áreas abandonadas?’ Mas também deveria pôr o dedo na outra dimensão: ‘Como é que evitamos ocupações altamente predadoras, quer do ponto de vista social quer do ponto de vista ecológico?’ O drama – não vai acontecer – seria que o dito interior, no futuro, só tivesse abandono e ocupação predadora.”