“Por isso, a vossa liberdade, quando perde as cadeias, torna-se ela própria uma cadeia de maior liberdade.” Kalil Gibran

Crónica do Encenador António Leal 

     “Preconceito é um juízo pré-concebido, que se manifesta numa atitude discriminatória, perante pessoas, crenças, sentimentos e tendências de comportamento. É uma ideia formada antecipadamente e que não tem fundamento sério.” Temos medo do que não controlamos. Inveja do que não conseguimos abraçar, desconfiança de quem faz o que não conseguimos fazer, seja por falta de coragem, de visão, de capacidade de trabalho ou de sacrifício ou, simplesmente, por falta de força de vontade ou de competência. Enfim, somos preconceituosos. Todos. Muito ou só um pouco. Todos os dias ou só de vez em quando. Mas somos.

       Há dias, o mundo tremeu quando, “surpreendentemente” Donald Trump venceu as eleições nos EUA. Dias antes do veredicto final, muitos de nós simplesmente não acreditavam ser possível que alguém com um discurso básico, racista, segregador, misógino e preconceituoso pudesse, agora, estar ao comando dos desígnios de um país que, em grande escala, controla, por sua vez, os desígnios do próprio mundo. Donald Trump defendeu as causas mais absurdas que se pensou ser possível ouvir em pleno século XXI. Os mexicanos e o muro que eles próprios haveriam de pagar para ficarem de fora do “Sonho Americano” foi uma das mais polémicas. E, alguns de nós, abriram a boca de pasmo para, a seguir, rir do absurdo, como se assistíssemos a um número de circo grotesco desconfortável. Mas Donald Trump venceu. O preconceito venceu. E agora? Vamos todos gritar “Ai Jesus! Ai Jesus!”? Ou tentar perceber que ele venceu um pouco com a ajuda de uma mentalidade ainda transversal no mundo e fazer por realmente evoluir? O preconceito gera insegurança que, por sua vez, gera medo. E o medo paralisa. Torna-nos incapazes de entender e usufruir da liberdade. Desengavetá-la do abstracto e experimentá-la gera um processo irreversível e, de certa forma, revolucionário que coloca em perspectiva todas as opções consequentes.

        De uma forma geral, o preconceito por quem é diferente de nós afasta-nos do essencial. Dos afectos, da solidariedade. E sem solidariedade, que missão nos resta enquanto homens? Com uma experiência de sete anos de vida e trabalho nas Beiras, identifico o preconceito como o maior inimigo do que defendo como ideal para o desenvolvimento cultural regional. Vivencio diariamente os seus defeitos na minha actividade profissional e observo penosamente a sua exuberância. Identifico os seus sintomas em gente bem-falante e que se quer de bem, mas que por força do estigma do preconceito acaba por se perder numa retórica estéril. Incapazes de acreditar que alguém faça por amor aquilo que eles fazem por dinheiro, vaidade ou egocentrismo, tendem a sentir-se confortáveis num jogo de intriga e segregação e obviamente menosprezam os seus pares que, na verdade, gostam de rotular de “menores” ou de difamar como “fraudes”. Só que, tal como Trump na ignorante América, o preconceito vence por aqui também. Um bocadinho todos os dias. De certa forma, Trump vence um bocadinho todos os dias na Beira onde trabalho. Aqui, na Beira que eu estimo e onde todos os dias dou muito de mim, ao fim de sete anos, eu continuo a ser o mexicano do Trump. Aqui, chamam-me outra coisa: “achadiço”. E tal como o mexicano do Trump, sou eu que tenho pago todos os dias o muro que alguns constroem à minha volta. Acontece que só é preconceituoso quem teme a Liberdade e sendo Ela o meu farol, Dela não pretendo abdicar. Com mais ou menos tijolos, hei-de continuar a tentar romper o muro.