É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir

Na segunda página do livro “Aventuras de João sem Medo”, que o autor – o poeta e ficcionista José Gomes Ferreira – apresentou como Panfleto Mágico em forma de Romance, aparece o aviso: “É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”. O aviso está escrito no “Muro construído em redor da Floresta Branca onde os homens, perdidos dos enigmas da infância, haviam estalado uma espécie de Parque de Reserva de Entes Fantásticos”.

Há alguns anos, pintei esta frase na parede de entrada da minha casa. Há quem nunca passe do tapete exterior, há quem insista em entrar pela porta das traseiras, há quem avance com pezinhos de lã e há quem simplesmente acene de longe… Eu própria esquivo-me, não raras vezes, pelo portão da garagem. Só as crianças irrompem sem hesitação.

Afinal, que lugar de espanto é esse o da infância?

Muitas vezes remetida para uma zona de fragilidade e de dependência, a infância é sobretudo um tempo de surpreendentes possibilidades. Um tempo que, como exercício de pensamento, é (ou deveria ser) o tempo de todos nós, que não cessamos de desvendar o mundo. Assim como o adulto, também a criança é um ser único em construção. No entanto, como escreve Reinaldo Luiz Damazio, na obra “O que é criança”, “toda a nossa prática vai no sentido de transformar a criança no adulto e, pior, no adulto que já somos, que idealizamos e que desejamos; ajustando-a aos nossos planos e anseios, sob a nossa ótica e aspirações. (…) Toda a criança, o que significa todo o novo indivíduo (e toda uma nova geração de indivíduos), traz em potencial uma rica gama de possibilidades renovadoras, ainda que a sociedade opere dominantemente com padrões de repetição. Ou seja, a novidade sempre aparece. É por essas e por outras que não permanecemos nas cavernas”. Essa sociedade somos nós: pais, educadores, professores e outros agentes educativos, que negligenciam o respeito pela autonomia, pela liberdade e pela identidade de cada criança, desautorizando o seu direito a intervir sobre o mundo.

Do ‘mito da criança feliz’, de Rousseau, à ‘criança perversa polimorfa’, de Freud, muitas teorias psicopedagógicas se construíram, destruíram e reconstruíram, ao longo dos tempos, para conhecer, mas também para categorizar e normalizar a criança.

Que criatura estranha, complexa e misteriosa é a criança! A criança que faz barulho, que bate o pé, que faz rir e sorrir, que diz porquê? A criança que argumenta, que desconfia, que inventa, que fantasia. A criança que pensa, que sente, que faz, que é! Apesar de a palavra infância vir do Latim infantia, formado por in- , negativo, mais fari, “falar” (ou seja, refere-se àquele que ainda não fala), a criança tem uma voz! Haja quem a ouça.

E quando perguntam à criança o que quer ser quando for grande?! Se fosse eu, responderia: “O que a Ana mais quer ser/quando for grande e crescer/é ser outra vez pequena:/não ter nada que fazer/senão ser pequena e crescer/e de vez em quando nascer/e voltar a desnascer” (in “O Pássaro na Cabeça”, de Manuel António Pina).

Ana Lúcia Figueiredo

Coordenadora do PROJETO ALCATEIA   Serviço Educativo da FLL

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