“Querer muito… e ao mesmo tempo… querer tão pouco!”

Por vezes, mergulhar no passado leva-nos a entender melhor as circunstâncias do presente. Se o caminho se faz caminhando, o meu caminho é já uma longa jornada de sensações e aventuras. Corriam os anos de 1977/8 e as minhas rotinas dividiam-se entre os ensaios diários e anárquicos com o meu conjunto (antigamente era assim que se dizia, banda foi mais tarde) os Beatnicks e os finais de dia, quando invariavelmente na companhia do meu amigo e fotógrafo Zé Guerra, rumava a Lisboa à cabina da Rádio Renascença, onde o António Sérgio brindava o mundo com doses memoráveis do diferente programa “Rotação”, da meia-noite, às três da manhã.

Na sua companhia, conheci muito acerca da verdadeira liberdade artística, aprendi a vivenciar o essencial de cada momento e conheci, sobretudo, a inigualável sensação de cumplicidade estética. Acredito que, para eles, talvez eu fosse uma espécie de mascote…um puto com 18 anos de peito aberto à vida…sem medos.

Na verdade, sou ainda esse miúdo, embora agora mais consciente dos perigos maiores que fazem a vida adulta. Mas é a memória da vivência com esses “mestres” de percurso que me estimula a manter o rumo, a coerência e a liberdade. O Zé e o Sérgio foram dos mais marcantes – embora não os únicos seres humanos excepcionais – que a vida me ofereceu como exemplo. Certo também é o facto de todos os seres humanos excepcionais que tive (e digo tive, porque apesar de eternos em mim, já deixaram este plano) como amigos terem em comum esta inexplicável ânsia de liberdade que nos ferve as veias de convicção.

E é essa “quase angústia” que continua a pautar a minha vida, as minhas decisões e a minha “raça”. E ainda bem.

Hoje, na Lapa do Lobo, o meu uivo continua a ser o mesmo: um peito aberto ao vento; este incessante galope pela vida e a certeza de que, no fim – nesse dia em que prestamos contas a nós próprios – vou parar, sim. Mas de peito cheio.

Se é alto o preço? Depende do que se quer levar na bagagem no fim da viagem. E eu quero ir leve! E não estou sozinho nesta maravilhosa jornada.

O segredo? Querer muito… e ao mesmo tempo… querer tão pouco!

António Leal

Encenador