“Tenho tentado construir e preparar caminho para o contemporâneo, afastando-me um pouco da arte retratista”

Entrevista com Mariana Torres, responsável pelo departamento de exposições e curadora cultural

Que balanço faz deste último ano de atividades, relativamente ao departamento de exposições, e qual o seu impacto e adesão junto do público?

A Fundação Lapa do Lobo tem vindo a crescer em aspetos distintos. No número de amigos e utilizadores, em iniciativas realizadas e propostas, em inovação e em modernidade das duas ações. A Galeria não tem sido exceção. Com a experiência aprendi que a duração das exposições deveria ser mais longa, de forma a permitir um maior número de visitantes, o que significa um menor número de propostas por ano mas com mais consistência e planeamento. Este ano continuámos a seguir a nossa linha de dar oportunidade a artistas locais, voltámos a expor o nosso acervo que tem vindo a crescer e diversificar, e apostámos novamente na arte contemporânea arriscando num artista de renome internacional, Gonzalo Bénard. A adesão das pessoas tem sempre sido positiva, e é este elemento que me motiva sempre, a fazer mais e melhor. Tenho tentado construir e preparar caminho para o contemporâneo, afastando-me um pouco da arte retratista, mais comum nesta região do país e nas suas exposições. Enquanto promotora da cultura e sua preservação, princípios base que movem esta instituição fico feliz por a Galeria também apoiar e promover causas regionais, como foi exemplo este ano, a exposição sobre Aristides de Sousa Mendes.

Que antevisão nos pode fazer de iniciativas/atividades em preparação ou já decididas para os próximos meses e próximo ano?

Para o próximo ano temos planeadas novas e originais exposições que decerto irão de encontro às expectativas do nosso exigente público.

Lembrando a exposição mais importante deste ano –  Gonzalo Bénard

Gonzalo Bénard. Morte cerebral durante três dias simbolizada nas portas de Anamnesis

As Portas de Anamnesis foram o mote para o mais recente trabalho do reputado fotógrafo e artista multifacetado, Gonzalo Bénard, que inaugurou na Fundação Lapa do Lobo. Mariana Batalha Torres, curadora cultural da instituição, elogiou o trabalho do artista, sentindo-se “privilegiada” em poder expô-lo na Lapa.

O autor de Anamnesis apresenta uma estória de vida onde o escuro, os obstáculos, a memória e o imaginário estão presentes  de forma indelével, transportando-os para o seu trabalho. Depois de um período em coma profundo, em que teve morte cerebral durante três dias, entrou num longo processo de reconstituição da sua memória, pedaço a pedaço, como se “de um puzzle se tratasse”, revelou. As portas escuras, pretendem ser um desafio à imaginação, entradas para o mundo imaginário. Mundo que de forma poderosa retrata, cruzando o homem com o animal e mostrando todo o seu vigor e até a sua virilidade.

Usando o pincel Japonês, na pintura, é nas montagens que tem a sua principal técnica ao nível da fotografia, que deambula entre a mitologia Grega e Egípcia e o Paleolítico, num mundo de sonho e fantasia, também com inspiração no livro “Os Seres Imaginários”, do escritor Argentino Jorge Luís Borges. Uma exposição imperdível na FLL.