“Os apoios a conceder pela Fundação Lapa do Lobo às associações vão ser mais disciplinados e rigorosos”

Carlos Cunha Torres é um homem feliz e realizado. Vive com grande prazer e intensidade, quer a sua vida empresarial, quer as atividades que se vão desenvolvendo na Fundação Lapa do Lobo, da qual é o responsável máximo.

Por ocasião do 6º aniversário da inauguração do Edifício Sede, em grande entrevista que nos concedeu, mostra-se um pouco dececionado por alguns apoios concedidos no passado, citando como exemplos “associações cujas quotas dos associados não têm expressão, ou são até zero, e outras com relevantes contas a prazo no bancos e nos pedem apoio”. Daí reafirmar que “a Fundação Lapa do Lobo não pode ser o sustentáculo da sustentabilidade das associações. Poderá sim apoiar projetos de desenvolvimento ou inovadores, mas nunca ser uma fonte de receita do seu regular funcionamento”.

Iniciamos por um tema nuclear nas ações e atividades desenvolvidas pela Fundação que dirige, ao qual atribui a maior importância: a Educação. Em termos de bolsas de estudo concedidas o que nos pode adiantar sobre esta área, nomeadamente quantidade, sucesso escolar das mesmas e procura, isto relativamente ao último ano escolar.

O nível de sucesso escolar dos nossos bolseiros é muito grande. Creio que na história da Fundação haverá apenas a assinalar dois ou três casos de insucesso ou de desistência. Afinal quem nos procura a pedir apoio é porque…tem mesmo um forte desejo de prosseguir os seus estudos! Curiosamente este ano houve uma menor procura de apoios, o que me apraz registar. Penso que tal se deve a um certo desanuviamento da crise do país e talvez ao forte crescimento do emprego no concelho de Nelas e consequentemente na região.

Considera positiva a reabertura da escola do 1º ciclo da Lapa e um fator de atração de famílias?

Naturalmente que sim. Não posso deixar de saudar e cumprimentar a Câmara Municipal de Nelas por ter conseguido, contra ventos e marés, trazer de volta a escola primária à Lapa do Lobo.

Os “Encontros da Educação”, um dos momentos altos deste último ano de atividades, digamos que foi uma autêntica “pedrada no charco”, com as ideias revolucionárias de José Pacheco. Mostrou-se na altura algo crítico da postura tão “pessimista” sobre o atual modelo de ensino. Considera estar a melhorar em vários aspetos, até pelo contacto que tem tido com jovens que saem das universidades? Por outro lado, considera, contudo, que muitos programas são de facto anacrónicos e desajustados das necessidades dos dias de hoje, nomeadamente das empresas?

Não tenho uma visão tão pessimista como a do Prof. José Pacheco sobre o atual ensino em Portugal. Respeito imenso o Prof. José Pacheco e não posso deixar de admirar o seu trabalho, mas penso que há algum lirismo nas propostas (válidas) que apresenta. É óbvio que nem tudo está bem, é óbvio que muito há a fazer, mas temos de reconhecer que nesta área muito,  mas mesmo muito, se evoluiu em Portugal desde o 25 de Abril. Nos últimos anos, quer ao nível da Fundação, quer ao nível de várias ações de empreendedorismo em que tenho participado, tenho encontrado jovens portugueses em elevadíssimo número muito bem preparados e cheios de potencial. Mas reconheço também que há um excesso de oferta de cursos superiores em Portugal, alguns sem qualquer interesse científico ou totalmente desajustados do mercado de trabalho, que apenas funcionam para justificação meramente existencial de algumas estruturas de ensino (privadas ou públicas).

Outra escola abriu na Lapa –  A ContraCanto – Escola de Artes. Está satisfeito com o apoio que tem concedido e considera que António Leal está a revolucionar a cultura na Lapa e na região, com uma forte aposta na juventude?

O apoio da Fundação Lapa do Lobo à Associação Contracanto é meramente pontual e não de forma instituída. Naturalmente que desde a primeira hora achámos excelente a ideia de esta tão improvável escola se instalar na Lapa do Lobo. Improvável, atenção, face ao vanguardismo dos seus objetivos e à zona onde se instalou. Porque quer queiramos quer não, temos uma escola de artes performativas na região, de grande nível, o que é de facto extraordinário. Não tenho dúvida alguma que este é mais um elemento que muito contribuirá para o desenvolvimento intelectual e cultural de uma certa geração na nossa região.

A juventude é aliás a base para o futuro de qualquer país. Em Portugal em particular e Europa em geral, lutamos com baixos índices de natalidade. Como se poderá reverter este quadro? Os municípios têm um papel fundamental neste campo (ainda agora Nelas lançou incentivos)?

A baixa natalidade portuguesa é uma situação que a mim, enquanto português, muito me angustia e me preocupa. Penso competir ao Governo Central a implementação de políticas sérias de incentivos à natalidade (o que existe é ainda muito incipiente) e naturalmente que as autarquias também podem (e devem) ajudar. Mas temos de reconhecer que até agora o que se fez não é muito encorajador.

Este é também um dos fatores que explicam a desertificação no interior. A campanha que lançou de atração da Lapa como um território bom para viver, tem tido impacto positivo e vê possibilidades da aldeia ir aumentando a sua população com tudo o que é oferecido aos residentes?

Penso que sim, por isso mesmo lancei a ideia de promoção da Lapa do Lobo enquanto que bom sítio para se viver, numa ação concertada com a Junta de Freguesia da Lapa do Lobo.

O Espaço Museológico ligado ao neolítico, pelos dados que tem neste momento, poderá vir a ser uma realidade?

Espero bem que sim. O vasto património pré-histórico da região poderá ser mais um extraordinário polo de atracão turística dos concelhos de Nelas e de Carregal do Sal.

Para além das ações e atividades que a Fundação desenvolve por meios próprios, não menos importante é o vasto conjunto de apoios financeiros que concede a clubes a instituições, fundamentais para a prossecução das suas atividades. Sente-se confortável com todos os apoios concedidos, e considera regra geral visível o seu retorno para as comunidades? Em relação a 2017 estima a sua continuação e ainda uma eventual margem para novos projetos que possam surgir?

Aqui está uma questão muito sensível… Os apoios a conceder pela Fundação Lapa do Lobo às associações da região vão ser mais disciplinados e mais criteriosos. Reconheço que um certo entusiasmo inicial nos levou a exagerar um pouco a atribuição discricionária e pouco seletiva dos apoios às associações. Não faz sentido apoiar associações em que as quotas dos associados não têm expressão (em algumas são zero). Se os próprios associados não contribuem para a prossecução dos objetivos das associações a que pertencem, por que motivo hão de outros fazê-lo?

Por outro lado, vim a ter conhecimento que algumas das associações que nos procuram a pedir apoios têm afinal…relevantes contas a prazo depositadas nos bancos. Não faz sentido. A Fundação Lapa do Lobo não pode ser o sustentáculo da sustentabilidade das associações. Poderá quanto muito apoiar projetos de desenvolvimento ou inovadores, mas nunca ser uma fonte de receita do seu regular funcionamento. Em 2017 a Fundação Lapa do Lobo passará a exigir às Associações que apoia a apresentação dos respetivos Relatórios e Contas do ano anterior (esta é aliás um recomendação vinculativa do nosso TOC).

É sabido que no ano em curso a Fundação Lapa do Lobo retirou o apoio que vinha prestando aos clubes de futebol dos dois concelhos, uma decisão muito criticada, esquecendo-se a maioria dos críticos que os apoios da Fundação Lapa do Lobo não são nem obrigatórios, nem têm de ser recorrentes. E provavelmente a maioria destes críticos nem quotas pagam aos clubes de que dizem tanto gostar. A concessão destes apoios teve como ideia inicial uma afetação dos mesmos à formação desportiva, mas é um facto que na prática passaram a constituir uma fonte de receita afeta ao funcionamento dos próprios clubes, sem que tivessem sido especificamente alocados em conformidade. Ora em boa verdade os objetivos da Fundação Lapa do Lobo são essencialmente pedagógicos e culturais, não fazendo sentido que estivesse a patrocinar clubes de futebol, pese embora todo o respeito que os mesmos me merecem (eu até gosto muito de futebol!). Apesar de tudo, reconheço que esses apoios foram importantes num período de maior contenção por parte das Câmaras Municipais no que diz respeito aos apoios desportivos, situação que felizmente se tende a inverter.

Tema : Resul

A empresa que lidera tem seguido uma trajetória sustentada de crescimento, designadamente com a penetração em novos mercados. Esta linha estratégica tem continuado? A queda no preço de diversas matérias primas está já absorvida ou continuam a sentir os seus efeitos?

Sim, a empresa que lidero tem seguido, felizmente, uma trajetória de crescimento. Curiosamente este é um ano em que a empresa não vai crescer relativamente ao ano transato devido à crise em Angola, um dos nossos principais mercados de exportação. Angola diminuiu o seu volume de aquisições ao estrangeiro devido à asfixia económica provocada pelo abaixamento do preço do petróleo. Mas enfim, estas são contingências e constrangimentos que uma empresa moderna tem de estar preparada para enfrentar. Continuamos na procura de mercados alternativos, o que de certo modo tem sido conseguido. Por exemplo, este ano o nosso volume de negócios em Marrocos cresceu exponencialmente. É aliás um mercado onde vamos investir fortemente.

Diria, no entanto, que este ano foi para nós um ano de “intervalo” no que toca a crescimento.

Qual o atual quadro de pessoal, volume de negócios previsto para 2016, áreas de negócios e principais mercados?

O atual quadro de pessoal, incluindo a fábrica de Braga, a do Canadá e as subsidiárias em Angola, Moçambique e Cabo Verde ascende a cerca de 150 colaboradores. O nosso volume de negócios ronda os € 30.000.000/ano.

Como vê o futuro nesta área de negócio, tendo em conta a evolução previsível da economia global e do setor energético?

Em todos os países do mundo, pobres ou ricos, o setor energético é sempre necessariamente um setor prioritário. Hoje ninguém vive sem energia e quem ainda não a tem reivindica-a fortemente. Por isso penso não ser este um setor condenado à estagnação. Vai evoluindo tecnicamente, é bem certo e por isso hoje nos países mais desenvolvidos já falamos em “smart grids” (redes inteligentes), longe dos tempos em que a energia elétrica se resumia à produção numa qualquer central e à sua distribuição em cabos pendurados em postes…

A tecnologia é algo que agora como nunca avança a uma velocidade que nos ultrapassa muitas vezes. A tal ponto de muitos “gurus” afirmam que os vencedores dos dias de hoje são os mais velozes. De que forma sento isso na sua vida empresarial e como a tecnologia poderá cada vez mais substituir o homem (veja-se a inteligência artificial e robótica), resultando em maiores danos para o emprego?

É bem verdade que cada vez mais a tecnologia, sobretudo a informática e a robótica, tende a substituir o homem. Claro que também sinto esse fenómeno na minha empresa, às vezes com uma certa angústia quando de repente constatamos que afinal já temos “pessoal a mais” sem que tenhamos diminuído a atividade. Este é um problema mundial sobre o qual temos de refletir. Penso que a solução passará por uma diminuição dos períodos regulares de trabalho. Ou seja, menos horas de trabalho para que mais postos de trabalho sejam criados. Não é fácil…

A Diplomacia económica levada a cabo pelo anterior governo acha que está a ter continuidade e de alguma forma sentiu ter usufruído dela? Considera determinante um Ministério dos Negócios Estrangeiros proativo nesta área?

Sim, considero muito importante um Ministério dos Negócios Estrangeiros proativo nesta área (por isso até o nome lhe assenta bem – “negócios”). Nem sempre a diplomacia tradicional sabe adaptar-se a esta realidade. Mas é um facto que os tempos da mera diplomacia de salão e de representação já não fazem sentido, numa época em que a comunicação está ao alcance de uma simples tecla de computador ou de um simples telemóvel.

O Gap Year foi uma ideia que abraçou na primeira hora, estimulado pelo então aluno em Carregal do Sal, Gonçalo Silva. A Resul em parceria com a TAP proporcionam um ano de experiências únicas a jovens estudantes. Este ano foi novamente a América Latina o território escolhido. Considera uma área do globo, como a Ásia e África, ideal para os objetivos do programa e qual o maior retorno que tem para si este apoio? Prevê fazer uma visita aos vencedores nalgum ponto do seu roteiro?

A Ásia tem sido tradicionalmente um continente bastante procurado pelos “gappers”. Penso que a principal razão deve-se a este ser ainda um continente onde se pode viajar muito com pouco dinheiro. Curiosamente este ano a América do Sul voltou a ser o continente escolhido pelo vencedor do Concurso Anual Gap Year, mas posso dizer-lhe que a maioria das cerca de 400 candidaturas que recebemos elegia a Ásia como destino predominante. Com alguma pena minha África é um continente pouco escolhido, mas penso que isso tem que ver com o facto de se tratar de um continente onde a logística de comunicações, transporte e alojamento barato é ainda muito difícil.

O maior retorno que tenho é tão somente o gozo pessoal de poder contribuir decisivamente para o crescimento intelectual e comportamental dos jovens que decidem fazer um Gap Year. Sinceramente ainda não sei se este ano poderei visitar o “gapper” vencedor. Bem que gostaria de o acompanhar na visita a Machu Pichu!

O Turismo foi uma área recente em que apostou na Lapa do Lobo. O retorno tem correspondido ou até superado as suas expectativas? O que falta ao turismo na região para afirmar no contexto nacional, onde vive um momento de ouro?

A ocupação das “Casas do Lupo” tem vindo a crescer paulatinamente. Não tanto e tão rapidamente quanto gostaria, mas está nitidamente a crescer. Os elogios ao complexo são enormes em todas as plataformas de “booking” em que estamos inseridos, pelo que as “Casas do Lupo” estão no topo das classificações. Mas é um facto que a nossa zona ainda não é muito procurada por forasteiros. Quando eles vêm, adoram. Adoram não só as “Casas do Lupo”, mas também a região. Mas há que investir mais na promoção da região, seguramente. Não posso deixar de referir que a Câmara Municipal de Nelas tem feito um bom trabalho nesta área. Tem posto Nelas no mapa através de várias ações promocionais e de eventos organizados. Mas muito mais há ainda a fazer, sobretudo por parte das instâncias nacionais e/ou regionais de turismo. Continua a haver um grande centralismo litoral, quando é certo que hoje em dia a procura turística vai muito para além das propostas balneares. Posso no entanto dizer-lhe que por exemplo em agosto as “Casas do Lupo” tiveram ocupação plena e sobretudo por parte de estrangeiros.