“Ser é mais importante que ter” – Buda

Crónica de António Leal (Encenador)

O pensamento artístico não é, nem pode ser, marginal ao desenvolvimento intelectual das crianças e dos jovens de hoje. A estrutura filosófica assente numa perspectiva capitalista faz tábua rasa da essência fundamental da arte. O acesso facilitado ao ensino artístico parecia ter tudo para ser uma iniciativa maravilhosa e transformadora, facilitadora do crescimento cognitivo, emocional e artístico das crianças. Mas não foi. Depressa, bem mais do que depressa, o importante passou a ser o que vemos hoje.

O importante é que os meninos e meninas (quantos mais melhor) façam parte de uma estatística global em que cada um representa um determinado número de euros para um determinado número de “euro-visionários do ensino artístico” que pouco ou nada têm a ver com o Amor à Arte ou com o Amor pela Arte. Para que isso aconteça, nomeadamente através das ditas atividades de enriquecimento curricular, compra-se um determinado número de pandeiretas e de flautinhas (que estão longe de ser flautas mágicas) para dar aos tais meninos e meninas condenados a ser números de um balancete financeiro e alugam-se maestros de ocasião que abanem os braços de costas voltadas para o público e para o essencial.

As obras apresentadas, mais por obrigação de calendário do que por vocação ou motivação artísticas, são inconsequentes e reveladoras de um caminho mal delineado e pouco ambicioso de quem as dirige. É assim pelo país fora. Mas, enquanto os próprios paizinhos se limitarem a contentar-se em tirar fotografias aos seus filhinhos, iguais aos filhinhos dos outros paizinhos que se limitam a tirar a mesma fotografia, com a mesma pandeireta ou a mesma flauta que nunca será mágica, estará para sempre delegado para segundo, terceiro ou nenhum plano a estrutura fundamental do verdadeiro ensino, crescimento e “enriquecimento” artístico. E assim a coisa vai passando e passará.

A realidade é esta: os números subvertem SEMPRE a essência artística. A arte é encarada pelos homens de negócios como isso mesmo – um negócio – e são eles – na sua maioria “merceeiros” de segunda – que tudo fazem para que tudo se mantenha igual. Para que o seu balancete não mude. O ensino artístico podia ser muito mais, muito maior, muito mais “além”. A Arte permite muito mais do que ser artista. A Arte permite tocar e ouvir quem toca, permite pintar e aprender a ver, permite dançar e aplaudir quem dança, permite representar ou simplesmente crescer. A Arte é muito mais capaz do que o que as fotografias vaidosas dos meninos das flautas e pandeiretas conseguem imortalizar. E muito mais generosa do que os euros egoístas que os tais “merceeiros” insistem em fazer dela.

António Leal

Encenador