Terra dos Doutores e Engenheiros

Quando em 28 de julho li o Artigo de Opinião intitulado “De José Megilde a Dr. José Borges da Silva”, trouxe-me à memoria a intervenção feita pelo nosso Eurodeputado Paulo Rangel no ultimo congresso do PSD, a qual tive o privilégio de assistir e que certamente muitos não se esquecerão. À data, por motivos de agenda de trabalho, não tive oportunidade de reler e relembrar uma intervenção que teve a capacidade de quebrar “tabus” e agitar consciências e que julgo importante partilhar com todos, por isso agora o faço.

Na sua intervenção que intitulou de “Mobilidade Social”, o Eurodeputado colocou a questão “Por que razão, ao fim de quarenta anos de democracia – e ao contrário de tantos outros países do nosso espaço –, nós continuámos a diferenciar as pessoas no tratamento entre os que são doutores, engenheiros e arquitetos e os restantes?”, lançando ainda o repto “Não terá chegado o tempo, de ao menos, nos documentos oficiais abolirmos esta diferença entre portugueses com título e portugueses sem título?”

A proposta que de certa forma parece banal na essência é também a meu entender um ponto de viragem essencial, para que a politica seja feita por todos e para todos, sem estigmas ou restrições.

Pois como o mesmo o disse, existe uma espécie de “aristocracia cultural ou nobreza de toga que empesta a sociedade portuguesa”, que a meu entender contraria a equidade no todo e a identidade de cada um, que nos mantem aprisionados num “Portugal que continua a viver nesse país maravilhoso, que é o país dos doutores”.

E também compartilho com o mesmo, a ideia de que esta rutura deve ser feita primariamente pela estrutura politica, ao nível do plano prático do estado, funcionando como um estimulo para que a construção da nossa sociedade, se liberte do estigma dos Doutores e Engenheiros. Que os pais deixem de enviar os seus filhos para as Universidades com o objetivo fundamental de conseguirem o “triunfo social”. Paulo Rangel refere mesmo, que “este condicionamento familiar, acompanhado do sobredito e fortíssimo condicionamento social, distorce, aliás, o sistema de ensino e prejudica o surgimento e o aproveitamento de vocações profissionais e técnicas, que dispensariam a frequência do ensino superior.” No tempo atual não corroboro a cem por cento com esta afirmação, no entanto não tenho duvidas que em décadas passadas, foi exatamente este estigma que quase matou o ensino profissionalizante.

Todos nós temos consciência que nas sociedades mais evoluídas, não existe este abismo de diferenciação de tratamento, pelo que caberá também a cada um de nós contrariar estas expressões de “casta social”.

Bem sei que por si só, não é fácil romper com formatos sociais e culturais instituídos, mas muito mais será quando estes nos são impostos pelas estruturas do estado.

Vai sendo tempo de sermos humildes, de construir uma sociedade mais justa, onde cada pessoa possa valorizar as suas capacidades individuais, o seu talento e destes possa retirar o mérito e contribuir para o bem comum de todos os Portugueses.

O Presidente da CP de Nelas

Daniel Marialva.

26 de agosto de 2016