“Já passaram pelo welcome center mais de 1 500 enoturistas”

Arlindo Cunha, presidente da CVR Dão, em entrevista que nos concedeu, mostra-se orgulhoso pela certificação dos dois primeiros Dão Nobre: Fonte do Ouro Dão Nobre branco 2015 e Casa de Santar Dão Nobre tinto 2013. Carateriza-nos ainda a região, falando-nos da sua promoção e da rota dos vinhos do Dão, que dá os seus primeiros passos

A região tem crescido em notoriedade, seja sem número de produtores, seja em qualidade. Qual a caraterização que nos pode fazer da mais antiga região demarcada do mundo de vinhos não licorosos, designadamente no número de produtores (e sua evolução recente), área de vinha, quantidades, e volume de vendas?

A Região do Dão tem presentemente 16.000 hectares de vinha e produz cerca de 30 a 40 milhões de litros por ano, consoante as condições climáticas. Em 2015 a produção total manifestada foi de 34.200 milhões, mas este ano tudo indica que será, infelizmente, inferior em 20 ou 30%, devido a uma primavera bastante adversa. Porém, a quantidade de vinho certificado como DOP ou IGP tem vindo a aumentar sucessivamente nos últimos anos Aos poucos, de forma sustentada, estamos a recuperar quota de mercado. Em 2015 tivemos um aumento de 5% do vinho certificado, o que, juntamente com o crescimento de 3% em 2014, perfaz um aumento de 8% no conjunto destes dois anos. Esta tendência de crescimento é sustentada pela evolução do primeiro quadrimestre deste ano, com um aumento de 12% face ao período homólogo do ano passado. Penso que também é de realçar a inscrição de novos 15 Agentes Económicos inscritos na Comissão Vitivinícola, ou seja entidades que vão colocar vinhos do Dão no mercado, o que corresponde a um aumento de cerca de 10% do respetivo número.

Para avaliar a situação da Região Demarcada em termos de estrutura produtiva, convirá referir que, apesar de serem cerca de 50 000 as pessoas que têm videiras registadas no Cadastro Vitícola Nacional, apenas cerca de metade destas produzem vinho para o mercado – diretamente ou através das Adegas Cooperativas de que sejam membros. Estas representam cerca de 40% da produção total, o que as torna um pilar fundamental da nossa economia vitivinícola. A fragmentação da propriedade não tem sido, porém, obstáculo à evolução da qualidade, que melhora ano após ano, conforme é consensualmente reconhecido por profissionais da enologia e da imprensa especializada, não apenas nos tintos, mas cada vez mais, também, nos brancos.

O vinho apto a ser certificado como Denominação de Origem Protegida (DOP) ou Indicação Geográfica Protegida (IGP) é cerca de metade da quantidade produzida declarada. Do vinho certificado, é exportado cerca de 45%, quase em partes iguais para países da União Europeia (U.E.) e Países Terceiros.

O surgimento de recentes vinhos com denominações cada vez mais “premium“ (como recentemente os “Nobres”) é para vós um indicador eloquente da melhoria qualitativa dos vinhos produzidos no Dão?

Prova disso é que só em 2012 já arrecadámos um total de 164 medalhas nos cinco mais prestigiados certames internacionais como sejam o Concurso Mundial de Bruxelas, o Decanter Wine Awards, o International Wine Challenge, o Mundus Vini e o International Wine and Spirits Competition. A minha experiência diz-me que a qualidade é o primeiro atributo para o sucesso económico-comercial. Mantendo este patamar e uma boa relação qualidade-preço, julgo que temos preenchidos os principais requisitos para triunfar no mercado de forma expressiva e merecer um reconhecimento mais geral e mais positivo por parte dos consumidores – que são quem, em última instância, determina o sucesso ou o insucesso no mercado. Estas são, naturalmente, razões necessárias, mas não suficientes do sucesso. Entre estas últimas existem, designadamente, as que têm a ver com a estrutura empresarial e a capacidade organizacional dos produtores, empresas e cooperativas, para montarem soluções eficazes de comercialização. A legislação portuguesa para o setor vitivinícola prevê um determinado conjunto de designativos de qualidade, ou menções tradicionais, como aqueles que refere e vários outros. No nosso caso, a Comissão Vitivinícola Regional (CVR) do Dão, enquanto entidade certificadora dos vinhos nela produzidos que reúnam as condições de qualidade especificadas no respetivo Regulamento Interno atribui tais designativos em função da pontuação dos vinhos no exame sensorial, ou seja da pontuação que lhes é atribuída pela Câmara de Provadores. Numa escala de 0 a 100, para um vinho produzido na Região Demarcada do Dão ser certificado como Dão, isto é, exibir no rótulo ou contrarrótulo o respetivo selo de garantia de qualidade, tem que ter 58 pontos. Se tiver de 68 a 74 pode ser Reserva, Premium, Superior, Escolha ou Colheita Selecionada; e se tiver de 75 a 89 pode ser Grande Reserva ou Reserva Especial. Para ser “Dão Nobre” tem que atingir um mínimo de 90 pontos. Importante sublinhar que a legislação nacional prevê o designativo “Nobre” exclusivamente para o Dão, o que, consequentemente, constitui uma mais-valia e um importante fator identitário da nossa Região Demarcada.

Tal como refere na sua pergunta, a melhoria de qualidade dos nossos vinhos tem-se também refletido nesses designativos de qualidade dos vinhos certificados. Neste capítulo, 2016 representa, porém, um ano de viragem, pois foram certificados os dois primeiros Nobre da história na nossa já centenária Região Demarcada.

Enoturismo. Foi implementada há cerca de um ano a Rota do Vinhos do Dão. Qual o balanço que dela faz até ao momento e que importância poderá ter no futuro da região?

Em abril de 2015 lançamos o Projeto da Rota do Vinho do Dão, com financiamento do Programa Operacional do Centro e apoio da Comunidade Intermunicipal do Dão-Lafões. Com o funcionamento da Rota, que se afirmará de forma gradual, esperamos essencialmente duas coisas: i) que os turistas tenham uma nova oportunidade de redescobrir as quintas e adegas do Dão visitando-as, provando e adquirindo vinhos; ii) que seja mais um canal de comunicação dos Vinhos do Dão para o mercado e, consequentemente, um meio de promoção.

A nossa Rota está, consequentemente, a começar, pois tem pouco mais de um ano de existência. Apesar disso e de Viseu e a Região Demarcada não serem ainda um grande destino turístico, já passaram pelo Welcome Center da Rota mais de um milhar e meio de enoturistas, assim como pelas quintas e adegas dos 43 aderentes. Por outro lado, importa referir que, desde a sua inauguração, o Portal da Rota dos Vinhos recebeu mais de 75.000 visualizações de página.

Que ações mais importantes têm sido levadas cabo e previstas para promover e projetar a imagem do Dão?

Num mercado tão competitivo e com tanta concorrência como o vinho, é fundamental um investimento permanente na promoção. As empresas promovem, naturalmente, as suas marcas comerciais. À Comissão Vitivinícola compete fazer a promoção genérica da marca coletiva Dão, ou seja da Denominação de origem. Temos para isso um orçamento anual que ronda o meio milhão de euros e aproveitamos sempre que possível os financiamentos comunitários. As ações que realizamos procuram responder a diferentes segmentos do mercado, interno e externo, assumindo natureza variada: participação em feiras e certames, organização de provas e eventos, visitas de jornalistas da especialidade e importadores, publicidade em diferentes tipos de meios, etc. Desde há três anos que estabelecemos um Protocolo com a Viniportugal, que nos permite com maior facilidade proporcionar aos nossos Agentes Económicos acesso ao denso calendário de ações promocionais desta entidade em todo o mundo, em condições financeiras relativamente mais favoráveis.

Defende que a vocação da região deve ser cada mais produzir vinhos de quinta que sejam a expressão fiel do seu “terroir”?

Os “vinhos de quinta” são muito importantes para projetar a imagem da Região Demarcada, até porque correspondem em geral a padrões elevados de qualidade e preços mais altos. Porém a grande quantidade dos vinhos que vão para o mercado são os das marcas comerciais das empresas de maior dimensão e das adegas cooperativas. Ambos os segmentos do mercado são muito importantes para a região, até porque são entre si complementares.

Qual o papel que a Feira do Vinho do Dão deve ter para a região? Considera que deve ser reforçado e potenciado?

Atribuo-lhe a maior importância, pois constitui sem dúvida um instrumento promocional de referência, com impactos diretos e indiretos na atividade económica do setor. Por isso penso que quanto mais profissionalizada e especializada for, mais sucesso terá e maior será o seu contributo económico para a fileira vitivinícola.