Automático Tinto 2014 lançado na Feira do Vinho simboliza o regresso às origens

“É um vinho muito natural, com pouca intervenção do enólogo – só controlo da colheita, para evitar uvas com doenças, deixando-o fermentar naturalmente com o engaço e apenas com as leveduras indígenas, sem controlo de temperatura, o que lhe transmite alguma rusticidade, taninos mais marcados e algum herbáceo”, revela-nos Carlos Lucas, na antecipação de mais uma Feira do Vinho do Dão, onde vai apresentar este novo néctar como grande novidade, depois do grande sucesso do Automático Branco de 2015.

“Este tinto foi vinificado como antigamente, denotando grande envolvência vegetal, fruta exuberante e sem qualquer estágio em madeira”, explica. O vinho tem um teor alcoólico de 13 graus e serão engarrafadas 7 mil garrafas. A ideia é procurar “vinhos que exprimam a essência do Dão, como se faziam há 20 anos”, seguindo um caminho diferenciador face a uma certa “homogeneidade” a que vamos assistindo. “A minha ideia é, respeitando todos e reconhecendo que cada vez há mais e melhores vinhos, procurar fazer diferente – é o que também esperam de mim”, isto não pretendendo “deixar de ser comercial, quer a nível interno, quer externo, também nas quantidades”.

E depois do “ET” e “Automático”, o líder da Magnum Vinhos/Ribeiro Santo, já tem em mente mais uma “pedrada no charco”. Um manancial vínico, que se vai espalhando pelo mundo, com uma aposta firme na exportação: nos últimos meses o seu diversificado portfólio (que inclui Alentejo e Douro), chegou ao Uruguai, Lituânia, Estónia, por exemplo, operando à escala global, desde EUA, Brasil, Canadá, Finlândia (para onde vende neste momento cerca de 50% do Encruzado), Noruega, Suécia, Bélgica, Holanda, China, Tailândia, Japão, França, Espanha, Itália e Roménia, entre outros, ou seja, marcando também presença em países com muita tradição no setor.

A exportação representa 60% do volume de vendas e “isto sem estar na grande distribuição”. O crescimento sustentado faz com que “em valor, já estejamos seguramente nos cinco primeiros do Dão”. O produtor e enólogo, acredita que a colheita de 2016 vai ser” muito boa em qualidade, mas não irá igualar a excecional qualidade de 2015”. Em termos de quantidade, a quebra de 2016, pode até “beneficiar o preço, se for geral, a nível do país”.

Crítico em relação aos produtores que se deixam “ridicularizar” pelas grandes superfícies, devido aos baixos preços que praticam, está convicto que o setor, mais do que nunca, tem que apostar na qualidade e numa elevação dos preços, que lhe seja compatível, e garanta um rendimento justo para todos.

Foi estreante na primeira Feira do Vinho do Dão há 25 anos, e marcou presença em todas as edições. “Importante, mas não determinante para os produtores”, considera, enaltecendo as iniciativas “das Câmaras de Nelas e Viseu, que se afirmam como municípios vinhateiros, mas deveriam ter um espírito mais reprodutor para o setor, em que nós acabamos por ser marionetas para a sua estratégia e se não aparecermos até podemos sofrer consequências”.

Defende que “o valor investido poderia ser gasto de outra maneira”, mas “só na prática e testando poderíamos saber os resultados”. Carlos Lucas aponta alguns caminhos: “trazer figuras públicas e mais mediatismo à Feira, que deveria ter menos política, cativando compradores das grandes superfícies e outros grandes operadores do mercado, que tragam valor acrescentado ao evento, assim como dar mais relevância aos maiores produtores da região”. “Não podemos ser todos iguais e tem que haver alguma distinção, até para uns puxarem os outros, dando aos maiores a visibilidade e envolvência que merecem”, sustenta.

Na sua opinião a data do certame deveria situar-se próximo das vindimas, para atrair mais clientes, inclusive estrangeiros. “Não estamos a tirar o devido partido da Feira”, remata.

Instado a comentar o retorno que tem sentido com a Rota dos Vinhos do Dão, implementada há um ano, lamenta “não ter tido um único contacto”, não vislumbrando assim “qualquer ação dinamizadora” para o efeito.

Por último, está convicto que o vinho terá que procurar cada vez mais “nichos de mercado”, como a recente experiência que teve com as lojas Ergovisão. Degustação de vinhos em lojas, clínicas, salões de cabeleireiro e beleza, têm vindo a crescer de forma assinalável e há que aproveitar a oportunidade.