O Touriga Nacional para memória futura da CM WINES

A primeira vinha da CM WINES foi adquirida em 2002 e em 2011, este ainda jovem produtor engarrafou o seu primeiro vinho: Allgo Tinto. Foi o início de uma história feliz para José António Marques, que vai vencendo etapas, elevando a qualidade e a quantidade dos néctares produzidos, coroada agora com o prémio do Grande Vinho do Dão no produtor, com um Touriga Nacional de 2015

Parruivas é o nome da vinha abençoada, a verdadeira joia da coroa deste produtor/engarrafador de Silgueiros. É um hectare de cepas nobres, adquirido quando tinha um ano de plantação. “Estava com alguma disponibilidade financeira e depois de alguma resistência do vendedor, em boa hora a comprei”, confidencia-nos o empreendedor José António Marques, que nos carateriza este “terroir”: “tem produção regular nos 5 a 6 mil Kg, e uma qualidade suprema, muito protegida de intempéries, com uvas muito saudáveis, nunca afetadas por desavinho, dado estar rodeada de pinheiros e cedros, muito bem “aconchegada” pela sombra e sempre uma ligeira brisa, com noites frescas. “A uva sente-se bem nesta atmosfera”, diz-nos. Uma das grandes explicações para a especificidade do Dão é precisamente esta: verão com dias quentes e noites frescas.

Na colheita de 2015, destas uvas de eleição, vindimadas exatamente antes das chuvas de Setembro, saiu o primeiro monocasta de Touriga Nacional, premiado pela CVR Dão como o Grande Vinho do Dão no produtor. “É um vinho com taninos de seda, muita filigrana, mas com o músculo e caráter do Dão, ou seja, muito completo e equilibrado, sem excessos que alia na perfeição a elegância ao caráter que pautam a região, e num patamar de excelência”. Com 14 graus, vai envelhecer em pipas de carvalho francês durante cerca de 12 meses, vão ser engarrafadas 2 mil garrafas, com um preço de venda indicativo de 22 euros.

Outras boas novas da CM Wines, estão relacionadas com o novo rótulo AllgoDão. Recentemente foi lançado no mercado o Branco Allgodão 2015, um blend de Encruzado, Cerceal e Bical, com grande frescura, particularmente apetecível no Verão. O Allgodão Tinto 2015, também um blend com 60% Jaen 20% Tinta Roriz 20% de Touriga Nacional, vai ser engarrafado em setembro, e colocado no mercado ainda em outubro deste ano, com um preço de 6€.

Bélgica, Suiça, sul de Portugal são grandes apostas em termos de mercados, com a Alemanha a continuar a ser o mercado forte, onde está radicado José António Marques. Importante na estratégia internacional é um bom portfólio. O mercado interno no entanto tem aumentado o seu peso, dada a grande aceitação, já absorvendo cerca de 40% das vendas.

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Colheita de 2016 com redução na quantidade, mas “seleção natural” pode resultar em mais um ano de grande qualidade

“Sem chuvas até cerca de meados de outubro, quando prevemos a vindima, esperamos uma excelente colheita, com vindima mais tardia do que é habitual, em cerca de 15 dias”, refere em relação à colheita de 2016. “Nesta vindima há um controlo natural de produção pela natureza, o que normalmente dá bons resultados, devido a algumas doenças e ao desavinho, com chuvas fortes na fase da floração, que afetou principalmente a Touriga Nacional, que deve registar uma redução de produção na ordem de 30%”, sublinha. Este produtor é um grande defensor da elevação em “um ou dois euros do preço médio dos vinhos, pois temos que ter um preço justo para todos ganharmos, desde o viticultor, ao produtor/engarrafador e ao distribuidor”. Para que toda a cadeia ganhe, esse valor acrescentado é fundamental, pois “o aumento da qualidade não tem sido acompanhado por um aumento do preço”. “O Dão abaixo de cinco euros não é rentável”, defende, apontando como “preço justo” para o Dão de qualidade, o patamar mínimo de “seis euros”.

A nova Adega pretende ser um projeto sólido, cujo financiamento é assente principalmente em capitais próprios, com uma arquitetura minimalista, sem luxos, mas muita funcionalidade. “O

s clientes estrangeiros não entendem muitas vezes como se constroem Adegas megalómanas, muitas vezes com dificuldades em obter retorno”. Projeto a dois anos, sem pressa, mas com qualidade, com componente de enoturismo, num espaço muito aprazível para provas, que certamente vai seduzir clientes e enófilos, tal a prodigiosa localização.

Firmeza e paciência são fundamentais para o sucesso nesta área de negócio, considera José António Marques, que tem atualmente 12 hectares de vinha, dos quais 60% com a casta rainha Touriga Nacional. A visibilidade e expressão do Encruzado, em notório crescimento, faz com que a aposta nesta uva seja cada vez maior. “É uma casta muito completa, com tudo o que é necessário para fazer grandes vinhos, com muito equilíbrio, o que está a apaixonar apreciadores além fronteiras, pois tem tudo menos monotonia”, explica este otimista por natureza, que já engarrafa 35 mil garrafas, e tem por objetivo crescer até às 100 mil, vinificando sempre a partir de uvas do “terroir” em

que se insere, que evidencia vinhos “ligeiramente mais estruturados e gordos, com mais volume” do que as outras sub-regiões.

“Há quem diga que deveríamos construir uma fortaleza à volta de Silgueiros”, diz-nos em tom descontraído a sorrir.

NOTA: esta entrevista foi realizada na vinha Parruivas e junto à construção da nova Adega.