Viagem pela terra queimada de Senhorim

Maior incêndio desde 2011 no concelho de Nelas, consumiu 1 500 hectares de mato e floresta e ameaçou casas e populações. Comandante Filipe Guilherme mostra-se “safisfeito” com a estratégia de combate seguida e lamenta a falta de apoio da população, que em muitos casos “não dá o devido valor aos bombeiros”.

Percorremos hoje com o Comandante dos Bombeiros Voluntários de Nelas, corporação que tem atualmente cerca de 70 elementos, o perímetro do grande incêndio que deflagrou em Senhorim,no passado dia 9 de Agosto, faz hoje  precisamente uma semana. Quando nalguns pontos ainda fumega, Filipe Guilherme e os operacionais que lidera, ainda estão vigilantes, principalmente nos povoados de Carvalhas, São João do Monte e Póvoa de Luzianes, os mais afetados. Não é para menos – o cenário desolador que encontrámos, com cerca de 1 500 hectares de mata e floresta devastadas pelas chamas, faz temer novamente o pior, se as condições para a “tempestade perfeita” voltarem : humidade muito baixa, ventos fortes e imprevisíveis na sua direção e altas temperaturas. Para já, com a descida do calor e alguma humidade noturna, soldados da paz e população podem respirar um pouco de alívio. Iniciámos a viagem, num dia de acalmia, precisamente no ponto em que foi ateado. O Comandante não tem dúvidas : a origem é criminosa,e por “quem conhece bem o local, até para a fuga, e a hora exata, com as condições de temperatura e vento ideais, para se propagar de forma violenta e súbita”. “Quando cheguei às Carvalhas, minutos depois de se ter dado a ignição,cerca das 13h, foi rápida a formação de uma frente muito extensa – cerca de 10-15 minutos”. “A vasta área combustível, com vegetação muito densa, seca e fina, que deveria estar limpa, e a presença de muitos eucaliptos, aceleraram de tal forma o fogo que pedi logo duas equipas de combate, ou seja, cerca de 60 operacionais e 10 veículos, sem que tívessemos tido resposta, dada a escassez de meios para as diversas ocorrências na região”. “Acabámos por ter quase 200 bombeiros no ataque às chamas, com a preciosa colaboração dos Bombeiros de Canas de Senhorim, que tiveram também empenho total neste combate musculado”, relata.  Prevenção e Combate. Duas faces da mesma moeda, em que a firme aposta na primeira, reduz a necessidade da segunda. “Incêndios criminosos vão existir sempre, mas as limpezas, a organização da floresta, os caminhos, entre outros fatores,podem prevenir e proteger”, sustenta Filipe GuIMG_2995ilherme. E no terreno, no cenário negro que encontrámos, comprovámos precisamente isto. Nas duas imagens que aqui apresentamos, podemos visualizar duas “ilhas”, dois pedaços de terra cultivada, e limpa, rodeados por cinzas, mas impenetráveis pelo fogo.IMG_2984

 

“Tivemos uma estratégia bem conseguida, apesar de algumas rotações bruscas, devido ao vento,conseguindo proteger prioritariamente habitações e populações”, revela, lamentando que “regra geral as pessoas ajudam menos os bombeiros do que faziam no passado e ainda nos culpam por não colocarmos um carro em cada casa, para a proteger”. “Ainda há cerca de dois meses nos deparámos com uma situação caricata – um cidadão não deixou as máquinas usar um pedaço do seu terreno para abrir um caminho e veio agora queixar-se dos bombeiros no combate ao fogo”, exemplifica, queixando-se de alguma “falta de respeito para com o nosso trabalho : não queremos ser tratados nem como coitadinhos, nem como heróis, apenas queremos ser respeitados,e isso desmotiva-nos, em que o próprio voluntariado pode estar ameaçado”, isto numa altura em que as Equipas de Intervenção Permanente, tardam em sair do papel : “no caso de Nelas temos tido total apoio da autarquia, inclusive financeiro, para a criação da EIP,mas o governo não desbloqueia a situação. A nível nacional há apenas quatro ou cinco casos em que foram criadas”.

Sobre a controvérsia em torno da escassez de meios, designadamente os aéreos, reconhece que mais poderia ser feito, estando prevista até a aquisição de dois Cannadair´s, no âmbito do programa comunitário Portugal 2020, mas admite que os “recursos, perante o cocktail explosivo que se deu neste Verão, são e serão sempre limitados”.

As razões para os fogos postos, de acordo com a sua opinião, mais do que a fatores económicos, estarão ligadas principalmente a “álcool, transtornos mentais, piromanos, frustrações diversas, e outros de origem psicológica, que acabam muitas vezes por ser despoletados pelas imagens televisivas, desencadeando a ideia da grande eficácia e efeito que se pode conseguir”, ainda que considere “legítimo e de interesse público a divulgação na comunicação social dos incêndios”, mesmo que por vezes “não da melhor forma”.

Nelas tem sido um concelho relativamente poupado, apenas com “situações pontuais, na maioria das vezes nos mesmos locais e horas”, mas de cinco em cinco anos, sensivelmente, em média, “sabemos que teremos um grande incêndio”, diz-nos. E assim aconteceu, em 2005 e 2011, com Senhorim a ser, de forma recorrente, a freguesia mais afetada.

Satisfeito com a sua equipa, confessa-nos que “temos tido muita prontidão nas respostas, e não necessitamos de andar a tocar a sirene todos os dias, existindo pessoas que até estranham esta situação, mas temos conseguido neutralizar muitas ocorrências na fase inicial, sem necessidade das sirenes”.

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