O relato emocionado da “Criatura” do musical Frankenstein Júnior

Falar sobre mais uma magistral e mágica peça musical encenada por António Leal é uma tarefa hercúlea, tantas são as sensações que, em duas horas de espetáculo, nos entram, de forma arrebatadora, pela alma e coração. Nada melhor que exprimir por palavras, vindas da alma e do coração, de quem por dentro viveu o Frankenstein Júnior.

Augusto Borges da Silva, que superiormente interpretou a “Criatura”, publicou hoje na sua página no Facebook, um emocionante e emocionado relato da experiência que tem vivido na ContraCanto :

13392183_1236909519653094_3011972680371346871_o“Falar sobre tristezas, é algo muito difícil. Mas mais difícil ainda é falar sobre alegrias profundas e vividas que, marcantes, causam a dor de quem não as pode reviver.

Enormes lágrimas correm o meu rosto nesta terça-feira, dia 14 de Junho de 2016, passados 49 minutos da meia-noite, quando tento transpor para algo tão banal como o papel, a inexplicável experiência que vivi e que marca os dois melhores anos da minha (sempre) curta vida.

Sou uma orgulhosa semente de um dente de leão. Um dente de leão gigante, mas ao mesmo tempo muito unido, onde cada membro seu está irremediavelmente ligado a todos os outros, até crescer e voar, com aterragem incerta, para propagar a linhagem que ali adquiriu. Chegou a minha altura, vou voar. Percorro com o meu pensamento todos os momentos que aqui passei, tudo aquilo que vi, tudo aquilo que amei. Bem no começo, era fútil. Existia.

Uma tarde a jogar computador era tudo aquilo que queria, enquanto vivia amarrado a tudo aquilo que tinha por certo serem os “critérios de aceitação”. Disse ao meu pai que ia, no entanto fui para casa, não me apetecia ir ao casting, não queria saber quem era, e o que tinha feito, aquele que se propunha a realizar o musical “As Músicas que os Vinhos Dão”. Obviamente, o meu pai acabou por me ligar e lembrar-me da oportunidade que estava a perder, até porque aquele casting era já o último. Não acreditei, mas fui. Subi a rua e fui até ao multiusos, numa caminhada que, agora, reconheço como um momento absolutamente decisivo no curso que a minha vida iria tomar a partir daí. Fui recebido com um enorme sorriso, e uma pergunta que me deixou surpreendido “Diz-me, fazes isto porque gostas ou porque o teu pai é Presidente da Câmara?”, olhei de novo, estava habituado a esse tipos de perguntas, mas com uma observação mais aprofundada, vi naquele sorriso uma bondade e uma paixão que nunca tinha visto, não havia uma ponta de ironia naquela pergunta. “Sabes cantar, dançar ou representar?” “Cantar não, dançar e representar safo-me”. Peço desculpa porque estas citações são imprecisas, pela distância temporal que se faz sentir, mas que, no entanto, garanto serem inteiramente verdadeiras. “Vai até à varanda como se estivesse lá fora um amigo que não vês há muito tempo. Fi-lo. Imaginei o Pedro Coelho, que se tinha separado de mim ao 9º ano, e corri para lhe atirar com um sorriso de saudades. Mal sabia à altura, que aquele casting iria abrir portas a que muitas pessoas se juntassem ao Pedro, na lista de amigos que tenho um desejo incontrolável de reencontrar.

Menos de uma semana depois estava no primeiro ensaio do musical, foi diferente de tudo o que já tinha feito. E foi aí que aconteceu um dos momentos mais mágicos, e que guardo comigo até hoje. Num intervalo, apresentou-se a mim um rapaz alto, um tal de Diogo Loureiro, com quem comecei a falar e que rapidamente se tornou meu amigo. Por acréscimo vieram um louro, na altura “barman” da tasca, um tal de Pedro Duarte e um rapaz (ainda) sem barba, um tal de Zé Melo. Houve outro que eu tentei também conhecer, uma vez que tinha a responsabilidade de ser o padre, cheguei-me à mesa dos nobre e cumprimentei o senhor conde, que me repeliu com um “Não sou conde, sou um escudeiro”. Um tal de João Morgado. Não esquecendo, é claro, todas as pessoas com quem socializei no musical e que fizeram dele algo que eu adorei e que não esquecerei.

Facilmente decidi fazer também o musical que se seguiu, embarcando no incrível Jesus Cristo Superstar, onde, pela primeira vez, tive a oportunidade única de conviver e aprender com grandes atores!

Com isto chegou o grande projecto, a Contracanto. E com ela o histórico musical “Fame”. Desmotivei. Faltei a ensaios, cheguei a pensar que não era para mim, mesmo tendo a responsabilidade de interpretar o Prof. Sheinkopf. Felizmente não o fiz, e agarrei também o musical, do qual, e olhando para trás, orgulhosamente fiz parte. Mal sabia, à altura, que seria este o musical que me prendeu irremediavelmente ao género e às pessoas da Contracanto. Foi nesse musical que, e digo agora algo que nunca confessei a ninguém, dei o melhor e mais sentido abraço de toda a minha existência. Faz tempo que não a vejo, mas com aquele abraço no dia da estreia, e perante as dificuldades que se estavam a sentir, criou-se em mim um enorme sentimento de ligação a alguém que a partir daí passou a ser muito especial para mim, e de quem sinto tremendas saudades, uma tal de Sara Lisa. Não sei se sentiu o mesmo, mas sinalizo que para mim foi um momento decisivo no estabelecimento de relações com o resto dos Contracantos.

Com o fim do “Fame” e mais um musical da feira do vinho completo, surge o convite para realizarmos uma apresentação comemorativa do aniversario da contracanto, e aí começa a mais bela e presente das histórias que terei para contar aos meus filhos. O nascimento dos Lobos. Com o elemento ainda não apresentado, um tal de Miguel Roque, e a chegada de um outro, um tal de Rafael Pina, começou algo fantástico. Algo indescritível.

Como esse tal de Rafael Pina vinha de Mangualde, comecei a apanhar boleia. E, caro leitor, não posso menosprezar a importância desta informação, uma vez que criou entre mim e este uma relação de enorme amizade e companheirismo, algo diferente de tudo o que até ali tinha experienciado! Depressa começamos a andar todos no carro, e com a chegada do “Conto de Natal”, a relação dos Lobos ficou mais forte do que nunca! Histórias merecedoras de uma muito melhor descrição, que esta redacção sumária nunca poderia satisfazer na totalidade.

Terminada essa etapa, chegamos ao desafio do “Frankenstein Júnior”, uma comédia incrível e, por sinal muito difícil. Eu informei-me rapidamente sobre o musical e, pelo elo que comecei a sentir pela “Criatura”, decidi fazer o casting para o papel. Ninguém mais se apresentou para o fazer, sendo que, facilmente, o consegui. Mal sabia que o verdadeiro Casting ainda estaria por vir! Sem que eu tivesse reparado, os valores da instituição que orgulhosamente represento, tinham tomado conta de mim. Dei tudo de mim a este personagem, deixou de existir um Augusto em palco, apenas a “Criatura”. Foi algo que, à parte de qualquer tipo de pretensiosismo, senti no decorrer destes 6 meses de “Frankenstein Junior”, e que me marcou. Me marcou tanto que agora, no palco que é a vida, é a “Criatura” que vive e sempre viverá dentro de mim.

Hoje, dias 14 de Junho de 2016, já uma hora e cinquenta minutos passados da meia-noite, recordo, com muita emoção, o momento em que, na presença de cerca de trezentas pessoas, me começo a soltar, e em que o vento me começa a levar a outras paragens. A transformação completou-se. Depois de dois anos, aquele rapaz tímido, inibido e de mãos nos bolsos que se apresentou no primeiro ensaio do musical, perdeu o medo, perdeu o preconceito, perdeu a vontade de desistir, perdeu a falta de confiança, perdeu, até, o cabelo, e perdeu, no último domingo, a coisa que fazia anos que, ingenuamente, dizia nunca vir a perder, o controlo das emoções.

Enquanto abraçava fortemente todos aqueles que estavam ao pé de mim eu vi, por entre cada uma das minha lágrimas, a simpática e divertida Sara Lisa, cujo abraço já enalteci, a talentosa Márcia Borges, minha eterna companheira de palco e grande amiga, a expressiva Magda Dias, que partilhou comigo, durante muito tempo, as mais incríveis engenhocas para conseguirmos bilhetes para os Artic Monkeys, a afinada Teresa Melo, alguém com quem poderei sempre contar, a engraçada Raquel Queirós, o par para o baile com que todos sonhamos, a indescritível Mariana Lopes, meu porto de abrigo, o inesquecível Miguel Roque, que apesar de ter seguido o seu caminho, continua a ser muito especial, o responsável Zé Melo, modelo do trabalho e da dedicação, o dócil Diogo Loureiro, cuja bondade é directamente proporcional à altura, o criativo Pedro Costa, minha inspiração e por quem sinto uma ligação tão forte como a de um irmão, o incrível João Morgado, cumulo da humildade, simpatia, disponibilidade, talento e amizade, o enorme Rafael Pina, meu companheiro de viagem e por quem eu sinto um amor que vai muito além de uma mera amizade, a carinhosa Sandra Leal, a quem nunca conseguirei tecer elogios suficientes, para fazer jus à pessoa fantástica que é, o mestre Antonio Leal, que no trabalho e no rigor da sua personalidade, consegue ser das pessoas mais inspiradoras que tive a honra de conhecer, alguém a que, certamente, sempre darei o devido valor, e cujos ensinamentos levo em lugar de fácil acesso, e muitos, muitos mais! Todos! Quero que saibam que cada um dos que fez parte da minha vida nos últimos dois anos, teve direito à sua própria lágrima, e que estas resultaram da gravação na minha alma do nome de cada um deles!

Comecei a levantar, o ar começou a arrastar as minhas frágeis membranas e colocou-me em caminho incerto, mas há pelo menos uma coisa que é certa. Onde quer que me vá semear, nunca vou esquecer que aqui na beira, um homem e a sua companheira, abriram as portas de par em par, para me abraçar. Nunca vou esquecer o que me ensinaram, as oportunidades que aqui me deram, e a maior lição que partilharam: Na vida, a verdade é que a melhor direcção, é a do coração!

Amo-vos!

Vivam os Lobos!

Viva à Contracanto!

Viva ao Teatro!

Viva a Amizade!

Viva o Amor!

Viva a Vida!

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