Namorada de Marcelo Rebelo de Sousa na primeira pessoa.A forte ligação de Rita Amaral Cabral a Oliveira do Hospital

Seis anos mais nova do que Marcelo, Rita Maria Lagos do Amaral Cabral nasceu a 21 de Março de 1954. É a mais velha dos quatro filhos de Maria Elisabeth da Silva Lagos e de Joaquim Emílio do Amaral Cabral. Não admira que a família não apreciasse a originalidade da relação com Marcelo. Os dois filhos homens, João Paulo e Manuel Gonçalo, casaram com duas filhas do empresário José Manuel de Mello (Rita pertence ao conselho de ética do Grupo Mello Saúde). Maria da Luz, a filha mais nova, casaria com um primo afastado: o empresário Miguel Pais do Amaral (conde de Anadia), de quem viria a separar-se recentemente.
Uma herdeira milionária
Lagos de um lado e Amaral Cabral do outro, Rita é riquíssima da parte Lagos e fidalga – mas apenas rica – da parte Amaral Cabral. As duas famílias são de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, onde se mantêm as propriedades e a casa agrícola familiar de que Rita é uma das sócias e gerentes. Ainda há quem se lembre de a ver por lá a montar a cavalo nas férias de Verão. É um daqueles casos em que a nobreza se junta ao dinheiro novo. Entre os Cabrais há toda uma linhagem de advogados e juristas. Joaquim Emílio, o pai, formou-se em Direito em Coimbra, assim como o avô Aníbal, que chegou a ser assistente na mesma universidade. 
Um tio-avô chamado Armando Amaral Cabral ascendeu a juiz do Supremo Tribunal de Justiça durante a ditadura. Teve outras figuras curiosas na família: Alberto Madureira, tio paterno, foi um ferrenho nazi. Ofereceu-se para médico de Hitler, foi condecorado pela Alemanha nazi, e voluntariou-se para a frente russa.
A parte maior da fortuna – de que foi herdeira parcial – foi acumulada pelo avô João Rodrigues Lagos e pelo seu irmão Manuel. Eram de Lagos da Beira, no concelho de Oliveira do Hospital, e ficaram ricos com o volfrâmio que Salazar vendia aos dois lados do conflito durante a II Guerra Mundial. A seguir, investiram na Companhia dos Algodões de Moçambique. Era um monopólio protegido. Todo o algodão produzido no território devia ser vendido à firma de que o grupo Espírito Santo também era sócio. As relações com a família Espírito Santo são antigas e prolongam-se até ao presente. Rita Amaral Cabral é uma das melhores amigas de Maria João Salgado, mulher de Ricardo Salgado. “A minha mãe já era amiga dos pais da Rita”, diz à SÁBADO Mary Salgado, irmã do ex-presidente do BES.
Rita era uma jovem “séria, sisuda”, recorda um amigo de infância, “sempre muito bem arranjadinha e bastante reservada”. Continuou discreta pela vida fora. Na faculdade, recorda o colega de turma Ricardo Sá Fernandes, mantinha o perfil: “Muito boa aluna, muito inteligente, muito educada, acessível e discreta.” E sem actividade política. Paulo Portas, parente afastado (via família Sacadura Cabral) e antigo aluno de Rita Amaral Cabral a Direito das Obrigações na Universidade Católica, recorda: “Excelente professora, inteligente, segura e didáctica.” Sofia Galvão, advogada e ex-dirigente do PSD: “Foi minha professora em 1985/86 e era irrepreensível. Os alunos gostavam dela e respeitavam-na. Quando dei aulas era a pessoa que tinha como modelo. Até há quem diga que nunca entregou o doutoramento por excesso de perfeccionismo.” Nuno Morais Sarmento, ex-ministro e dirigente do PSD, foi outro antigo aluno na Católica: “Era uma pessoa aberta, que interagia bem connosco, de sorriso fácil, mas ao mesmo tempo com um lado fechado e duro.”
Apesar de avessa a olhares públicos, ocupou lugares com alguma relevância. Primeiro como membro do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, indicada pela Ordem dos Advogados (entre 2003 e 2008), quando o bastonário era José Miguel Júdice. Depois, a partir de 2012 e até ao colapso do banco em 2014, foi administradora não executiva do Banco Espírito Santo. Era íntima da família Salgado. Aliás, são vários os amigos que dizem à SÁBADO que Marcelo estreitou as relações com Ricardo Salgado exactamente através de Rita Amaral Cabral. Passaram férias várias vezes com Ricardo e Maria João no Tivoli Eco Resort que pertencia ao Grupo Espírito Santo, em Txai, na Baía. Pelo menos em 2009 e 2011 foi lá que comemoraram a passagem de ano. Alugavam barcos na Turquia, embora cada um pagasse os seus. Marcelo dirige­-se a Ricardo Salgado por tu – travaram conhecimento ainda jovens – mas trata Rita por você.
A advogada, da Amaral Cabral & Associados, tinha assento em vários órgãos do extinto BES. Pertencia ao Conselho de Administração como administradora não executiva, onde ganhava uma média anual de 42 mil euros, como em 2013, segundo o relatório e contas do banco. Fazia ainda parte da Comissão de Governo da Sociedade, onde era suposto garantir que não havia conflitos de interesses nas decisões, assim como deveria emitir opinião sobre “princípios e práticas de conduta”. Também integrava a Comissão de Operações e Partes Relacionadas, ou seja, fazia parte das suas incumbências acompanhar a relação do BES com as empresas do Grupo Espírito Santo, por exemplo. No dia 13 de Julho de 2014, quando o império se desmoronou e Ricardo Salgado participou na última reunião do conselho de administração, Rita Amaral Cabral fez questão de propor um voto de louvor, que consta da acta a que a SÁBADO teve acesso: “A senhora drª Rita Amaral Cabral tomou seguidamente a palavra para realçar a honra que constituiu integrar o conselho de administração do BES”, manifestando uma “honra acrescida em ter tido como presidente da comissão executiva o senhor dr. Ricardo Salgado”.
Na sequência da resolução do banco, Rita Amaral Cabral pôs um dos 19 processos contra o Banco de Portugal devido à decisão de separar o BES em banco bom e banco mau. “É uma pessoa hipercontrolada, inteligente, mas que nunca emitia uma opinião sem antes perceber como se desenvolvia a correlação de forças”, diz um antigo administrador. Falava pouco. Não deixava transparecer qualquer intimidade que tivesse com Salgado. Quando começaram os problemas “não mudou a atitude”. Mesmo quando toda a gente percebeu que o banco ia acabar, “ninguém fez o mínimo comentário”, garante a mesma fonte. Rita Amaral Cabral incluída.
Numa entrevista de pré-campanha ao Expresso, Marcelo Rebelo de Sousa defendeu-a: “O facto de a Rita ter exercido funções de gestão no BES não me cria qualquer embaraço. Em primeiro lugar, considero-a uma pessoa de honestidade, rigor e transparência a toda a prova. Em segundo, não há qualquer processo que a envolva. Terceiro, como é próprio de uma sociedade democrática e culta, as nossas vidas profissionais e patrimoniais são separadas.”
Também era administradora não executiva da Semapa (grupo industrial na área dos cimentos, energia e pasta de papel), da Cimigest e da Sodim, tudo empresas do grupo liderado por Pedro Queirós Pereira, que entrou em conflito com Ricardo Salgado. Do lado da cimenteira, ficou a percepção de que Rita teria tido um papel na estratégia de Maude Queirós Pereira – que era casada com João Lagos, um dos melhores amigos de Marcelo – contra o irmão Pedro Queirós Pereira, para passar o controlo do grupo para a família Espírito Santo. “Foi uma peça fundamental por ser próxima da Maudezinha”, diz uma fonte ligada a Queirós Pereira. Se ficasse maioritário na Semapa, Ricardo Salgado poderia eventualmente conseguir consolidar as contas e tapar os prejuízos da Rioforte.
Sempre dentro e sempre fora da política
Rita Amaral Cabral poderia ter iniciado uma carreira política que nunca quis ter quando Francisco Pinto Balsemão chamou Marcelo para secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, em 1981. Ele precisava de um ajudante. A primeira pessoa a ser sondada para o lugar de subsecretária de Estado foi Rita Amaral Cabral. A ex-aluna e namorada, recusou. A escolha recaiu em Luísa Antas, de 25 anos, outra jovem antiga aluna.
Em Junho de 1982, Balsemão remodelou o Governo. Marcelo tinha pedido para sair. No dia em que foi a São Bento despedir-se, pediu a Rita Amaral Cabral para o ir buscar, pois ia deixar de ter motorista. Segundo a versão de Marcelo Rebelo de Sousa, quando ele saiu da residência oficial, um funcionário chamou-o. Afinal Balsemão queria voltar a falar com ele. Nascimento Rodrigues recusara o lugar de ministro adjunto e não havia tempo para procurar outro. Tinha de ser Marcelo. Em vez de sair, ficou como ministro dos Assuntos Parlamentares. Quando entrou no carro, Rita perguntou: “Finalmente livres?” Nada disso. “Não. Agora sou ministro.” Ela empertigou-se: “Está a brincar comigo?… Então combinámos que saía…” A explicação não era, de facto, muito convincente.
Embora tenha sempre preferido a sombra às luzes da ribalta, Rita Amaral Cabral seguiu de muito perto a vida política de Marcelo Rebelo de Sousa. Em 1985, no mítico congresso da Figueira da Foz, ele estava preparado para chegar a líder. Mas acabou por ser a tendência por ele liderada, a Nova Esperança, a dar a vitória a Cavaco Silva. No fim do congresso, Marcelo partilhava as suas angústias com a namorada ao auscultador de um telefone fixo: “Rita, vamos ter este homem 10 anos como primeiro-ministro e 10 como Presidente da República.” Ela não estava a ver o filme: “Ó Marcelo, você está perturbado…” Não estava.
Em 1988 a jurista ganhou uma bolsa para fazer uma investigação na área do Direito em Munique. Passou lá três anos. Nesse período, Marcelo viajava para a Alemanha quase de 15 em 15 dias e aproveitava as bibliotecas alemãs – falam ambos alemão – para preparar as suas provas académicas de agregação. Ela estudava Direito Privado. Ele aprofundava os conhecimentos em Direito Público. Mas também procurava inspiração. Foi em Munique que teve notícia de que Walter Momper, o burgomestre social-democrata de Berlim, mergulhara com toda a sua equipa nas águas geladas de um rio em defesa do ambiente. Plagiou a ideia para a aplicar como candidato às eleições autárquicas para a câmara de Lisboa em 1989. Aqui nasceu o famoso mergulho no Tejo poluído. Ela achou que era uma ideia de doidos e a iniciativa eleitoral mais famosa da democracia portuguesa foi decidida com Rita a protestar pelo telefone: “Mas quem é que lhe vende essas ideias? Isso é uma loucura…”
O regresso a Lisboa aconteceu em 1991. Mantiveram o estilo de vida: juntos, mas separados. A queda do cavaquismo teve influência na vida de ambos. Nogueira sucedeu a Cavaco e Marcelo sucedeu a Nogueira, em 1996. Tal como não apareceu agora na campanha para Belém, Rita não acompanhou Marcelo no primeiro congresso da sua liderança, em Santa Maria da Feira. Começou a dar a cara com maior frequência em 1998, no congresso de Tavira. Quando os barrosistas desertaram do núcleo duro de Marcelo por causa da Alternativa Democrática com Paulo Portas, Rita reagiu com mais emoção do que o seu racionalismo poderia sugerir. 
Quando se trata de Marcelo, perde a racionalidade, diz um amigo. Num dos camarins ocupados pelo líder, ela dirigiu-se a Nuno Morais Sarmento: “Consigo não tenho problema nenhum, porque foi claro e disse o que tinha a dizer frontalmente, mas ao Zé Luís [Arnaut] não perdoo…”
Embora distante, esteve sempre presente. Foi ela que contou pelo telefone a Marcelo, que estava em Roma, o que Paulo Portas ia dizendo numa entrevista que acabaria por matar a aliança pré-eleitoral com o PSD. Foi ela que disse aos amigos que não valia a pena tentar demovê-lo, porque ele estava mesmo decidido a demitir-se da liderança do partido. Nesse dia fatídico, em que Marcelo caiu e Portas ficou, jantaram juntos no Visconde da Luz, em Cascais. Encontraram Daniel Proença de Carvalho com a mulher numa mesa e juntaram-se ao casal.
Fonte : Revista Sábado
NOTA : Aquando da sua receção nos Paços do Concelho de Oliveira do Hospital, Marcelo Rebelo de Sousa mostrou a sua grande paixão pela terra, salientando que em Lagos da Beira fez grande parte da sua tese de doutoramento.