“O preço do Queijo Serra da Estrela mantém-se há 20 anos o que é um grave problema”

Manuel Marques, presidente da Ancose (Associação Nacional de Criadores de Ovinos Serra da Estrela), falou ao nosso jornal do atual momento do setor, dos grandes desafios que enfrenta e da Festa do Queijo Serra da Estrela de Oliveira do Hospital, palco do maior certame do país dedicado à nobre iguaria.
Que diagnóstico nos pode fazer neste momento do número de efetivos da ovelha Serra da Estrela ? 
Esse número tem diminuído substancialmente. Há pouco mais de cinco anos a Região Demarcada da Serra da Estrela tinha um efetivo animal de 120.000 animais. Atualmente rondará os 60.000, o que para a ANCOSE é preocupante.
Mas mais se preocupante se torna, quando na Região Serra da Estrela verificamos a introdução nos rebanhos de animais exóticos,  como por exemplo as ovelhas lacone, designadamente as apelidadas ovelhas mochas, que produzem mais leite,mas com menos gordura láctea.
Sendo o aperfeiçoamento das raças autóctones de ovinos uma das vossas principais áreas de intervenção, quais os últimos desenvolvimentos neste campo ? 
A ANCOSE tem feito um trabalho enorme na purificação das Raças Bordaleira e Churra Mondegueira e os pastores optam por outras raças atendendo à sua produção leiteira.Admitimos recentemente mais um técnico (médico veterinário), licenciámos o centro de testagem e investimos na aquisição de alguns aparelhos para o contraste leiteiro, ou seja, a medição do leite que as ovelhas produzem em cada ordenha, que é registado informaticamente.
Digamos que é uma seleção de ovelhas mais produtoras, que os pastores selecionam as filhas para recria.Para que uma ovelha seja registada no livro genealógico, tem que obrigatoriamente fazer contraste leiteiro. 
Para produzir queijo Serra da Estrela é preciso que a ANCOSE certifique que o rebanho está inscrito.
E que diagnóstico faz das Queijarias que produzem esta maravilha da gastronomia Portuguesa e mundial ? 
Quanto às Queijarias a redução não é tão significativa e as condições  sanitárias tiveram uma melhoria muito relevante, com exigências que, em minha opinião, são certamente exageradas.
Já que falamos em Queijarias, não posso deixar passar em claro a instalação de uma Queijaria Artesanal para produção deste magnífico produto em Mangualde, em que um dos seus filhos desta Terra a escolheu para este elevado investimento – o Dr. Jorge Coelho.
Estou certo que os produtores de leite de ovelha Serra da Estrela, num futuro muito próximo verão os seus proveitos melhorados, assim como a ANCOSE verá o melhoramento animal alargado.
Que grandes desafios e problemas enfrenta a pastorícia ? 
Os grandes problemas dos pastores evidenciam-se  no preço do leite e do queijo, por se manterem há vinte anos, quando todos o produtos gastos nas suas explorações aumentaram desmesuradamente, basta vermos agora o aumento do preço dos combustíveis.
E a questão do uso da flor de cardo, que está na ordem do dia, equacionando-se a sua proibição ? 
Penso que o problema da coagulação/coalha do leite de ovelha para o Queijo Serra da Estrela está resolvida. Seria absurdo que a flor do cardo fosse substituída por outro produto, seria contra natura à produção do queijo. Felizmente que alguns autarcas intervieram nessa matéria, designadamente o Presidente da Câmara de Mangualde, que apresentou o problema em Bruxelas, depois de ter reunido com representantes da ANCOSE.
O que nos pode adiantar sobre o projeto de criar, em parceria com a Autarquia, o Museu do Queijo Serra da Estrela em Oliveira do Hospital ?
Quanto ao eventual museu do Queijo Serra da Estrela, já tivemos uma reunião com o Senhor Presidente da Câmara e a Senhora Presidente da CCDRC. Na minha opinião o assunto está bem encaminhado, e devo dizer-lhe que os Pastores e as Queijeiras da Serra da Estrela merecem este nosso esforço.
Por último que importância atribuiu aos certames ligados a esta notável iguaria, designadamente a Festa do QSE de Oliveira do Hospital ? 
Noutros sectores da agricultura, designadamente o vinho, sou liminarmente contra a organização desses eventos, não contra o evento em si mesmo, mas contra a forma organizatória.
Quanto às festas do QSE, salvo uma exceção, elas são de primordial importância para os produtores do QSE e o seu marketing.
Porque é da Feira do QSE de Oliveira do Hospital que estamos a falar, devo dizer que é com muito orgulho que a ANCOSE colabora com a CMOH na realização deste evento.
Quero aqui afirmar publicamente que o Presidente da Câmara Municipal de Oliveira do Hospital tudo faz para a promoção do QSE, consequentemente para a melhoria das condições de vida dos Pastores e Queijeiras do seu concelho e nutre por estas gentes um carinho excecional – veja-se o monumento ao Pastor e agora à Queijeira.