O nosso triste “Conto de Natal” …

Scrooge: Estás agrilhoado… Diz-me, porquê?
Fantasma: Trago as correntes que forjei durante a vida; elo por elo, metro por metro…’
Charles Dickens (1812-1870) em “Um Conto de Natal” (1843, “A Christmas Carol” no original; trad.livre)
“Um Conto de Natal” é a história de um avaro – Scrooge – que é visitado pelos fantasmas do Natal passado, presente e futuro, à procura do sentido da mais universal festa do mundo ocidental. 
Dickens, um inglês Vitoriano, transformou-se muito rapidamente numa voz da consciência social de uma Inglaterra que atravessava, via êxodo rural e Revolução Industrial, fenómenos de migração e fractura social sem precedentes. Londres faz-se metrópole com 1,5 milhões de habitantes; o trabalho infantil está por todo o lado; a classe operária é esmagada pela industrialização, a agricultura é só mesmo para subsistência. O crime motiva o surgimento de heróis negros como Sherlock Holmes, pela pena de Arthur Conan Doyle. O sol nunca se põe no território circum-planetário do Império Britânico, mas não nasce para todos.
Depois de uma sempre tumultousa

relação com a Inglaterra (sobretudo no séc XVII), a (hoje) Republicana da Irlanda é ultrapassada pela fenomenologia da Revolução Industrial. O país vê-se vitimado pela sua índole rural, pela ausência de recursos naturais ao nível do carvão e do ferro – matérias primas para a “nova” indústria – e por causa do impacto súbito da união inevitável com uma economia estruturalmente muito mais poderosa (a Inglesa).

A Grande Fome de 1843 (três anos depois da primeira edição de “Um Conto de Natal”), ceifará a vida a um milhão de pessoas, e a emigração forçada de outros tantos irlandeses. No final do séc. XIX, os irlandeses constituíam metade de toda a emigração para a América, num declínio de população que só seria travado já em pleno séc. XX, durante o pós-II Grande Guerra.
Ainda hoje a República da Irlanda não voltou a igualar os 8,2 milhões de habitantes que tinha antes desta razia, que criou uma diáspora emigrante inigualável e sem precendentes. Ou talvez não.
Portugal cruza-se de várias formas com a Irlanda. É claro que Joyce não é Pessoa e que só o facto de os irlandeses pertencerem à anglofonia, justifica por si um cuidado extremo nas comparações. Sucede que há – nomeadamente a partir do séc. XIX em diante – traços que, pela sua influência transversal em ambas as culturas, justificam alguns paralelos: a pobreza rural secular, a insularidade e condição periféricas, a inserção num espaço geográfico dominado por um país de maior dimensão (Espanha, no nosso caso, como é evidente), a distância física e cultural em relação ao Continente, ou ainda um laicismo que chega tarde, fazendo coincidir entre Portugal e a Irlanda alguns aspectos de auto-repressão, superstição e misticismo, que se notam sobretudo na cultura popular. As sucessivas vagas de emigração são o sintoma partilhado mais evidente.
E depois há a união pelo passado recente – partilhámos a infeliz sigla “PIIGS”, somos novatos nas andanças da Europa, autênticos desconhecidos desta espécie de União – acompanhado das divergências na forma de fazer política. E se o nosso sistema deriva da importação do exílio das primeiras estruturas embrionárias dos partidos, já o sistema da República da Irlanda tem génese no parlamentarismo inglês, que é o esteio da mais antiga democracia do mundo. Talvez isto explique porque é que por cá continuamos a discutir esmola ou falta dela – as medidas recentemente anunciadas constituem um obsceno aumento de despesa, para um irrisório aumento de rendimento das famílias – enquanto por lá, a taxa de IRC a 12,5% garantiu um investimento estrangeiro que custa zero ao Tesouro e é responsável por cerca de metade dos 7% de crescimento com que aquela ilha se prepara para chegar a mais um Natal.
Nicolau de Vale Pais 

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