“Um conto de Natal” vai reviver a fantástica atmosfera de Londres em 1840 no complexo mundo de Dicken´s

Na preparação de mais um
grande espetáculo musical (Um conto de Natal), convidámos para
conversar connosco no Senta Aí, o encenador António Leal,
espalhando a magia das palavras, no acolhedor espaço Nelense que nos
tem brindado com gastronomia com muita arte e saber. Desta vez
fizemos acompanhar um Tinto Ribeiro Santo com arroz

de míscaros e
costela. Para fechar com chave de ouro, um bolo de uva tinta jaen com
doce de nata com a mesma uva.

“Desde que pisei o palco
pela primeira vez no longínquo ano de 1975 que o Teatro vive em mim,
mas a minha génese é essencialmente musical”, revelou-nos o
encenador no início da conversa, enquanto degustávamos enchidos da
Beira e o já famoso redanho. “Viviam-se tempos de esperança, de
acreditar, e eu tive a sorte de alguns dos meus principais amigos
serem músicos. Desde cedo também descobri essa vocação musical, e
acabei por integrar o projeto “Beatnicks”. Foi uma banda que
conseguiu vingar, gravar discos (o que era uma raridade), integrando
músicos como a Lena D’água, Fernando Emiliano, Fernando António
dos Santos, por exemplo, que ainda hoje estão no ativo. “O nosso
género era o rock sinfónico e eu era o vocalista. Percorremos o
país todo na época e a banda esteve oito anos em atividade”. “A
minha presença em palco sempre teve uma grande componente cénica,
que mais tarde vim a desenvolver, depois te ter estado na Suécia a
estudar. Fui então convidado pelo Filipe La Feria para fazer o meu
primeiro trabalho num musical, em meados dos anos 90: “O Pierrot e
o Arlequim” de Almada Negreiros”. “Seguiram-se 12 anos de
intensa atividade com o Filipe, tendo percorrido todas as funções,
desde assistente de encenação, a diretor musical. Estive sempre
presente nos grandes musicais: “My Fair Lady”; “Edith Piaf” e
“Amália”, que foi provavelmente o grande êxito das nossas
produções”. Um dos momentos marcantes deste longo caminho,
confessa-nos, foi a presença dos assistentes de Andrew Lloyd Webber
e Tim Rice no Rivoli – Teatro Municipal do Porto, na estreia da
versão portuguesa da ópera “Jesus Cristo Superstar”, que
criaram em 1970. “Fui eu, em boa hora, que influenciei
positivamente o Filipe La Féria, para o produzir”, confessa.
“Não deixo que o passado
me prenda como uma âncora, opto por olhar para a linha do horizonte
e navegar … navegar para a frente, porque é na frente que estão
os Cabos da Boa Esperança que é preciso passar”, afirma. “Assim
que termino de encenar, começo logo a pensar no próximo
espetáculo”, diz-nos, convicto de que “quando ele estreia deixa
de ser do encenador, passar a ser dos atores, dos técnicos”. “Eu
tenho saudades do futuro”, confidência, assumindo ser um amante da
liberdade: “Quando me querem prender, eu fujo”. Otimista por
natureza, acredita que a criação do Ministério da Cultura neste
governo é muito positiva. “Tem sido pouco inteligente por parte
dos nossos governantes não apostarem a sério na cultura, na arte”,
critica.

A ContraCanto só existe
enquanto existir liberdade

“A minha forma de estar na
vida está intimamente ligada à liberdade e foi essa liberdade,
nomeadamente na criação, que estabeleci como filosofia para a
ContraCanto”, assume. “É como uma magia invisível que está ali
sempre presente”, considera, admitindo no entanto que “esta
liberdade tem-me trazido muitos dissabores ao longo da vida”.
Natural de Lisboa, reside atualmente em Coimbra e foi o grande
fascínio pela Beira e graves problemas de saúde da esposa, Sandra
Leal, que trouxeram o casal até ao Conservatório do Dão, em Santa
Comba, para desenvolver um novo projeto, no qual esteve empenhado
durante cinco anos, com resultados “muito satisfatórios”, pois
ali “não existia nada em termos cénicos”. A dada altura e
porque “senti que a minha liberdade estava em causa”, decidiu
criar a Associação ContraCanto, com sede na antiga escola primária
da Lapa do Lobo. O nome da Associação é totalmente inspirado no
nome e espírito do espetáculo de 2013 “Contracanto” totalmente
apoiado pela Fundação Lapa do Lobo, através do seu presidente,
Carlos Cunha Torres, forte entusiasta de Zeca Afonso. O espetáculo
contou com jovens, adultos e músicos da região e atores
profissionais e contou a história do país entre 1967 e os dias de
hoje ao som das imortais músicas de Zeca Afonso. Foi um espetáculo
especial e, para mim, inesquecível que hoje acredito que teve a
missão profética de mudar a minha vida e de me trazer, aqui, onde
estou hoje com a ContraCanto Associação Cultural.
Frisando
que a ContraCanto é apoiada pela Fundação Lapa do Lobo, deixa
claro que não é desta uma “subsidiada”. A efervescência
cultural da Lapa encontrou assim mais uma grande alavanca na
ContraCanto, que já conta com 80 alunos nas três atividades
regulares que presentemente oferece, cerca de 40 dos quais na área
de “Teatro Musical”, para a transformar na aldeia cultural de
Portugal. 

“A ContraCanto veio para unir, pois temos interesse em
que venham todos, e desapareça a desconfiança em relação a nós,
pois não tem lógica abrirmos um casting, para uma grande produção,
e ninguém das outras associações se inscrever”. Fervoroso
adepto do trabalho em equipa e contra bairrismos exacerbados,
diz-nos, exemplificando, que “Lisboa não é dos Lisboetas, Canas
não é dos Canenses – é de todos nós”. A cultura, na sua ótica,
não pode ser um negócio. É por isso que encara a ContraCanto como
uma missão, mas tem que “sobreviver financeiramente”. Para
conseguir fazer subir ao palco estes grandes espetáculos, tem que
contar com apoios importantes, como têm sido as Câmaras Municipais
de Carregal e Nelas, Euroralex e Fundação Lapa do Lobo, entre
outros. Só assim será também possível produzir “Um conto de
Natal”, baseado na obra de Charles Dicken’s, que contará com 10
sessões, no Centro Cultural de Carregal do Sal. É uma peça
clássica que está a ser supervisionada diariamente pelos dois
autores Americanos. “Vamos recriar a fantástica atmosfera de
Londres em 1840, sem energia elétrica, e dar a conhecer o mundo tão
complexo e fantástico de Dickens”, adianta-nos. Tudo isto é um
“grande desafio”. Artur Marques, Sofia de Castro, Hugo Rendas,
André Lourenço, Joana Leal e outros atores profissionais vão fazer
parte do vasto elenco.

O preço do espetáculo é de
12€ valor que reflete a preocupação da Contracanto em ter
responsabilidade financeira perante o orçamento total da produção
que ascende a algumas dezenas de milhares de euros.

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