“A Fundação Lapa do Lobo em cinco anos já concedeu mais de 100 bolsas de estudo”

“Se quiseres liderar, primeiro deves servir” (Jesus Cristo in “O Monge e o Executivo” de James Hunter). A conversa que mantivemos com o empresário e líder da Fundação Lapa do Lobo, Carlos Cunha Torres, que transformou por completo a bela aldeia do concelho de Nelas, teve como um dos pratos principais o processo de liderança e a autoridade, o que nos levou ao fascinante livro de James Hunter.
Outros pratos foram magnificamente degustados no «SENTA AÍ» em Nelas, com dois verdadeiros néctares dos deuses das Terras do Dão: um Branco Munda Encruzado, com toda a sua pureza e mineralidade e aquela que foi, na minha opinião, a grande novidade da Feira do Vinho do Dão 2015: o renascido Quinta da Alameda, num Tinto Reserva Especial em Blend, com as castas tradicionais do Dão (provenientes de vinhas velhas), do empresário Luís Abrantes e do também empresário e enólogo Carlos Lucas. Carlos Cunha Torres considerou-os, quer a um, quer a outro, “verdadeiros vinhos do Dão, com toda a sua elegância, autenticidade e caráter”, reconhecendo que “hoje em dia é difícil encontrar vinhos maus – este foi um setor em Portugal que deu um grande salto qualitativo”. O Branco foi harmonizado com uma açorda de bacalhau, servida dentro do pão, que antigamente era confecionada na época da produção do azeite. A vitela assada no forno com vinho tinto foi o prato que se seguiu, que casámos com o Quinta da Alameda. Esta é mais uma receita ancestral recuperada pelo «Senta Aí», em que as partes mais nobres da vitela eram entregues ao senhorio, por ocasião das vindimas, assando-as com vinho novo. Fechámos com chave de ouro, com os formigos, um doce de grandes manjares.
20 anos depois do falecimento da sua avó Maria José Cunha, Carlos Cunha Torres, assumiu mais uma vez, que foi ela “que me envolveu com a Lapa do Lobo, foi o seu desejo de que ficasse com a sua casa que me fez voltar a esta terra, com ela aprendi a gostar da Lapa, desta região e das suas gentes”.  “Garanto-vos que há cinco anos atrás não nos passava pela cabeça a dimensão que o projeto alcançaria e ainda a adesão por parte da população da Lapa e da região”, realçou no seu discurso por ocasião do 5º aniversário do Edifício Sede, para adiantar alguns números: “em 2014 tivemos 1564 utilizadores do espaço cibernético e 502 visitantes; utilizadores do serviço gratuito de boleias, foram 3795; participantes nos eventos e atividades: 7929; 188 alunos formandos dos cursos que promovemos e 9 formadores; bolseiros ou beneficiários do apoio estudantil, foram mais de 100. Cerca de 14 mil pessoas usufruíram de alguma forma das nossas propostas, aos mais diversos níveis. Pensamos que em 2015 este número será bem mais elevado”, referiu ainda.
Cinco anos depois da inauguração do Edifício Sede, Cunha Torres foi desafiado por nós a escolher cinco momentos marcantes para a FLL.Começou por destacar essa mesma inauguração, pois “foi a partir daí que começámos a ter visibilidade e a dispor de um espaço físico para desenvolvermos as nossas atividades e projetos”. “O segundo momento e indo diretamente para o fim foi a inauguração da ampliação do mesmo edifício, que foi essencial porque a FLL avançou muito para além do projeto inicial, por via da adesão das pessoas, do entusiasmo que fomos colocando em tudo o que ia acontecendo, o que fez com que o edifício inicial fosse pequeno”, enumerou. “O terceiro momento foi a conclusão das obras do espaço multifuncional, também para nós essencial”, enquanto o quarto foi “o ciclo Tradicionalidades, em que conseguimos promover a música tradicional portuguesa, fazendo renascer um leque variado de música que as pessoas desconhecem, e onde Portugal tem uma grande riqueza, mas que se vai perdendo no tempo”. “Como quinto momento tenho que escolher a nossa aposta no apoio à educação, que embora não tenha grande visibilidade pública é um grande orgulho para nós. Cinco anos depois de termos concedido a primeira bolsa, houve já mais de 100 jovens que tiveram a possibilidade de prosseguir os seus estudos com o nosso apoio, onde tivemos só três ou quatro casos de desistência”. 
“Os estudos não servem só para se ganhar mais, mas principalmente para a valorização pessoal de cada um”
Carlos Cunha Torres tem total convicção de que a educação é a base do desenvolvimento de um país, mas em Portugal ainda é vista como um meio para “uma melhor situação económica, ou seja, os jovens querem ter uma licenciatura para ganhar mais”. “A verdade é que os estudos não servem só para isto, mas principalmente para a valorização pessoal de cada um, dotando os jovens de mais cultura e informação, estando assim aptos para fazer qualquer trabalho ou tarefa, o que muitas vezes em Portugal não é aceite”, defende. “A Islândia é um país em que praticamente toda a população é licenciada e 90% dos homens são pescadores. Ou seja, ninguém deixa de estudar por saber que o único emprego que podem ter no país é na pesca”, exemplifica. “Outro exemplo que tive oportunidade de conhecer, foi numas jornadas de empreendedorismo onde participei em Silicon Valley, nos Estados Unidos, em que um professor universitário, depois de perder o seu emprego, decidiu resolver a sua vida profissional abrindo um quiosque especializado em revistas e jornais da área científica junto a um pólo universitário, ou seja passou de professor de grande prestígio para vendedor de jornais e revistas, e com grande felicidade”, refere, sustentando que “nos países latinos não existe esta mentalidade”. “Espero que esta crise sirva para abrir algumas janelas de oportunidades em Portugal, nomeadamente uma, que é a nossa eterna subsídio dependência, porque vivemos muito na política da mão estendida”. “Um exemplo cabal disto é a maior parte dos milhares de associações que há pelo país, em que quem está à frente delas não cuida da sua sustentabilidade financeira, desde logo começando por não conseguir cobrar as quotas aos seus sócios”, crítica, defendendo que “tem que se mudar esta atitude”. “Depois parece que toda a gente quer formar clubes e associações sem necessidade”, afirma, para exemplificar novamente “há algum tempo alguém veio ter comigo, porque queria formar uma clube de raiz para a prática de BTT – eu apenas lhe disse que já existem no concelho três clubes que poderiam acolher a sua idade e criar num deles uma secção de BTT, mas a pessoa não aceitou, porque provavelmente seria só o diretor do departamento e não do clube – é esta mentalidade que temos de mudar”.
Abordámos também o tema da formação profissional e nesta área o nosso interlocutor é da opinião que o “abandono que o ensino profissional teve, com o encerramento das escolas industriais e comerciais, foi dos principais erros históricos depois do 25 de Abril”. “Agora estamos a apostar mais no ensino profissionalizante, o que tem sido uma boa decisão”, sublinha, lamentando que “em Portugal temos andado a formar jovens altamente especializados para depois grande parte deles emigrarem, acabando por constituir família nesses países, não voltando a Portugal, o que para mim é trágico”.
Sobre a crise e a saída dela, considera “positivo” que em Portugal “tenha havido muita tranquilidade, sem grandes convulsões sociais, o que transmitiu uma boa imagem no exterior”. Admitindo que a situação económica do país está a melhorar, acredita que foi “devido à crise, e ao abanão que provocou nos empresários portugueses, que os levou a procurar outros mercados, como uma forma de sobreviver, fazendo com que as exportações disparassem, o que aliado à explosão do turismo, graças às nossas potencialidades, bons preços e também beneficiando dos riscos de segurança nalguns destinos, como a Tunísia agora, são dois fatores que têm mexido muito com a economia”. “No nosso caso, posso adiantar-lhe que nas Casas do Lupo estivemos cheios em grande parte do verão, o que nos surpreendeu positivamente, com muitos estrangeiros, que ficam satisfeitos principalmente com a nossa gastronomia e a sua diversidade”. O Parque Ecológico Vale do Lobo tem sido também determinante para o sucesso das Casas do Lupo, pois “os nossos hóspedes ficam maravilhados e fazem muita publicidade do parque”, conta-nos.

“Temos todas as condições para ser a aldeia cultural de Portugal”
Lapa do Lobo – a aldeia cultural de Portugal: “Esta foi uma excelente ideia da Câmara Municipal, desde logo porque indicia uma descentralização concelhia, o que é de assinalar”, enaltece, acrescentando que “é inteligente da parte da autarquia esta postura, até porque existe aqui hoje uma grande dinâmica, pela nossa parte e da Associação ContraCanto, sendo que as nossas atividades e as deles não se esgotam na Lapa do Lobo”. Essencial é a “resolução do problema ambiental da Lapa, com esgotos a correrem a céu aberto, mas a população tem a garantia do sr. Presidente da Câmara que este problema será resolvido com um mini ETAR. Entendemos contudo que estes processos são morosos”. 
Entrando na sua vida empresarial, Carlos Torres conta-nos que é nos mercados sub desenvolvidos que a Resul continua a apostar mais, dado que “é neles que ainda há muito para fazer em matéria de redes elétricas, que é a nossa principal área: dou-lhe como exemplo Angola, onde a cobertura ainda é somente de 7% e em Moçambique 17%” – estes são assim os nossos mercados alvo”. Entre os 46 países para onde a Resul exporta, destacam-se os mercados africanos, que são “os meus preferidos”, confessa-nos. A queda do preço do petróleo tem afetado muito o setor energético, principalmente “as energias renováveis”, que admite “começam a deixar de ser rentáveis economicamente, mas temos a questão ambiental que vai continuar a prevalecer”.
Sobre as maiores ameaças para a economia mundial em geral e europeia em particular, refere-nos o exemplo dos migrantes, que “vai ter consequências económicas muito importantes – não digo que não deve ser feito, mas vêm pessoas de culturas muito diferentes e acredito que venham muitos infiltrados, o que é um grande perigo”. “Isto é um dilema – se a Europa deve acolher, não pode acolhê-los a todos”, defende. O empresário acredita também que nos negócios a “união faz a força”, admitindo que muitas vezes as empresas portuguesas perdem negócios por não se aliarem e dá um exemplo: “nos vinhos por exemplo, se um produtor não tem capacidade de produção para servir um cliente, pode indicar outro produtor e todos ficam a ganhar, mas isso muitas vezes não acontece”. “Eu acredito muito no nosso país e às vezes pergunto-me: o que nos falta para estarmos melhor? Julgo que passa muito por termos uma atitude coletiva e mais formação”, sustenta. Outro problema é a falta de se saber ser líder em Portugal: “Ser líder é um dom”, reconhece, convicto de que o problema da baixa produtividade dos trabalhadores em Portugal, está precisamente “nas lideranças”, pois “os nossos trabalhadores no estrangeiro são dos mais produtivos”. “Uma boa liderança é aquela que é aceite naturalmente”, por isso “considero-me um líder”, mas nunca fui “prepotente, nem nada que se pareça”. “Um bom líder é aquele que faz as pessoas acreditarem nas suas ideias e nos seus projetos”, sublinha.
Encantado com os espetáculos da ContraCanto, faz um balanço “muito positivo” do mandato do atual executivo
Carlos Torres, o grande impulsionador para a ContraCanto se ter instalado na Lapa do Lobo, confessa-se um “profundo admirador” da criatividade de António Leal, ao ponto de dizer “às vezes penso onde consegue ter tanta imaginação, nomeadamente no espetáculo “As Músicas que os Vinhos Dão”.
Sobre o atual executivo considera o seu trabalho “muito positivo”, nas suas diferentes áreas. Relativamente à questão das acessibilidades, que considera “fundamental para o desenvolvimento de uma região”, assume-se um forte defensor da conclusão do IC12 (embora sem portagens) – como está não faz sentido e aproveita ainda para criticar fortemente o estado atual da IP3: “entendo que possa não haver dinheiro para uma nova estrada, mas não cuidar da manutenção desta via, altamente perigosa, é desleixo”. 
Continuando a agradabilíssima conversa à mesa com Carlos Cunha Torres, num registo intimista confidencia-nos que gosta muito do que faz e que os seus hobbies preferidos são “a leitura e o cinema”. Internet odeia – “sou um clássico, que ainda tem o prazer dos livros e de virar as suas páginas, sentir o papel”. Desafiado a escolher qual o livro da sua vida, confessa ser um fã incondicional de Eça de Queiroz: “já li todos os livros dele e mais do que uma vez”. Um livro que o marcou profundamente foi “A história da servidão humana”, que retrata a dimensão de alguns dramas humanos. Relativamente à 7ª arte, indica como o filme da sua vida “Casablanca”, mas não perde um bom filme de aventuras, como do James Bond 007, por exemplo.

Tem na família o seu porto seguro, e agora que em breve vai ser avô do João Maria, considera-a “um valor muito importante”. “Faço na vida o que me dá prazer, o que é um raríssimo privilégio”, admite, assumindo que “tenho vaidade pelo reconhecimento do que tenho feito”.

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