O Senhor Dão, Carlos Lucas, na primeira pessoa …

A Magnum Carlos Lucas Vinhos foi criada por três profissionais, desde há muito ligadas ao mundo do vinho. Embora com percursos iniciais diferentes, desde 1996 que Carlos Lucas e Carlos Rodrigues fazem vinhos em conjunto, juntando-se ao grupo, em 2005, Lúcia Freitas. O arranque da aventura de Carlos Lucas no mundo vínico está intimamente ligado a Nelas. Foi na Adega Cooperativa que iniciou a sua carreira de enólogo. 
A história desta equipa de enólogos remonta ao nascimento da Dão Sul, um dos grandes “player´s” do setor em Portugal. Foram 20 anos de muito suor e dedicação de Carlos Lucas e Carlos Rodrigues e 11 anos de Lúcia Freitas. Em 2011 decidiram empreender e lançaram-se para um novo e aliciante projeto: a exploração da Quinta do Ribeiro Santo, propriedade de Carlos Lucas, situada em Oliveira do Conde (a origem do nome está no facto de ter pertencido ao padre da terra e ser limitada, num dos extremos, por um ribeiro que corre tudo o ano) e a aposta nos vinhos Baton, na região do Douro (Casal de Loivos). Foi este o impulso inicial para a Magnum Vinhos, que teve mais uma etapa de expansão com a parceria da Herdade da Família Nunes Barata situada em Mora (Alentejo) e onde são produzidos os vinhos Maria Mora, que aliam a tradição com a modernidade, com um toque de irreverência.
Com a construção da nova adega no Dão, ainda por inaugurar oficialmente, e uma excelente penetração dos vinhos no mercado nacional e internacional, bem como a projeção na imprensa, conquistaram em 2014 a distinção máxima da agricultura: o prémio de agricultor do ano, atribuído pelo Ministério da Agricultura.
“Este é um projeto que combina a experiência, conhecimentos e irreverência destes três enólogos, com a intenção de mostrar o melhor de cada uma das regiões onde trabalham, através de vinhos que respeitam o terroir, a tradição e as castas portuguesas. Cada garrafa produzida conta uma história. Cada vinho reflete a paixão, o trabalho, as emoções e dedicação nele colocadas, explicando assim a assinatura da empresa “Vinho & Pessoas”, pode ler-se no sítio da empresa na internet. A busca incessante de caminhos inovadores, levou, por exemplo, Carlos Lucas a fazer recentemente o lançamento do E.T. (Encruzado/Touriga Nacional) – um vinho que parece do outro mundo, mas nasce num dos mais ricos terroir´s da região. Em breve a Quinta do Ribeiro terá uma oferta complementar, com uma proposta de enoturismo. 
Carlos Lucas, o senhor DÃO, multifacetado e na primeira pessoa, em entrevista ao nosso jornal.

Carlos Lucas é já uma “marca” de grande credibilidade no que respeito ao mundo vínico, à escala global. Como se constrói uma carreira desta envergadura?
Um dos fatores fundamentais é eu gostar do que faço, colocando uma grande paixão no trabalho. Por exemplo, agora estou de férias, mas estou a trabalhar. O trabalho a mim não me cansa. O agregar e partilhar conhecimentos é outro pilar. Vou dar-lhe um exemplo – estive na Argentina e ainda hoje estou a ajudar a fazer lá um vinho de sobremesa. Conheço gente de todo o mundo, pessoas com quem partilhei conhecimentos. Devem contar-se pelos dedos das mãos enólogos em Portugal que tenham as ligações que eu tenho e isso foi também determinante. As viagens que fiz, aproveitei-as ao máximo – andei sempre a trabalhar e a adquirir conhecimentos. O trabalho em equipa é também fundamental e eu coloco a minha equipa sempre muito envolvida com os meus projetos, para servir bem os clientes. A complementaridade e especialização nas equipas é outro aspeto que destaco. Por exemplo eu e o Carlos Rodrigues complementamo-nos na perfeição – ele nos lotes, eu na vinificação, na criação.
Ao nível de recursos humanos, quantos colaboradores tem neste momento? 
Colaboram connosco neste momento, a tempo inteiro, 15 pessoas. Mas o núcleo duro são seis. 
O que explica que o vinho em geral e o vosso em particular, seja a bebida mais espiritual e apaixonante? 
Eu com 23 anos de experiência no setor, digo-lhe que ainda não consigo responder a essa pergunta. O que sei é que para fazer vinho de qualidade e que permita ao consumidor experienciar todo um conjunto de sensações, é essencial a dedicação e uma boa equipa, com muito charme também, principalmente na área comercial. Necessita também de espiritualidade. No meu caso, posso afirmar que vindo de fora do setor, me apaixonei por ele.
Têm rótulos de três regiões do país. Considera essencial para a penetração nos mercados externos ter um portfólio diversificado, também em termos de regiões? 
Considero essencial que os clientes possam ter uma gama diversificada. Há casos em que, por exemplo, já têm Dão e podem comprar Douro ou Alentejo. Isso ajuda-nos a diluir custos. Mas não está ao alcance de todos, pois exige muito trabalho, uma logística intensa e um conhecimento alargado dos mercados. 
As uvas da Quinta de Ribeiro Santo têm proporcionado à vossa vasta legião de apreciadores grandes experiências. Em que se distinguem os vossos vinhos da generalidade da concorrência?
A diferenciação é fundamental e temos apostado nisso. Iremos em breve avançar com um novo espumante, totalmente diferente do que existe no mercado. Outro vinho que se distingue é o E.T. – que está a colocar o Dão a ser falado em todo o mundo, inclusive em França, pois quem provou adorou este vinho feito a partir da mistura de uvas tintas e brancas (15% de Encruzado e 85% de Touriga Nacional). Um néctar premium, com muita elegância, cor de grande intensidade, um perfume fantástico e uma longevidade que pode ir até aos 20 anos. O preço de venda ao público, situa-se em torno dos 50 euros. É um verdadeiro “outsider” na região. Produzimos o E.T. em 2012 e iremos produzir o de 2014.Espero que os outros produtores também façam coisas diferentes e de grande qualidade, pois é bom para todos. 
Quais as suas castas preferidas?
Eu prefiro as castas que me permitem fazer vinhos bons todos os anos, ou seja, que são homogéneas. Sou mais adepto da regularidade. Desta forma, gosto muito do Alfrocheiro, do Encruzado – não me lembro de nenhum ano em que os clientes não tenham gostado do vinho, sempre num patamar alto de qualidade. Tinto Cão e Tinta Amarela no Douro e Syrah no Alentejo, são também excelentes castas. 
Feira do Vinho do Dão em Nelas. Qual a sua opinião do modelo que agora está a ser seguido? 
Eu participo na Feira do Vinho desde o seu início, há 23 anos, quando estava a trabalhar na Adega de Nelas e nunca falhando nenhum ano. Considero-a importante para os produtores e para a região, mas num formato adequado. Tenho que aplaudir o trabalho que está a ser feito, mas acho que temos que virar a feira ainda mais para fora, envolvendo todos os agentes de alguma forma com ela relacionados, como a hotelaria e a restauração. É fundamental que a gastronomia seja a adequada aos vinhos presentes na feira. Defendo até uma assessoria nesse aspeto. Lembro-me que a pior feira de sempre foi a que teve a presença da TVI, em 2013, por motivos óbvios – o grande ruído, num conceito que nada tem a ver com um certame da especialidade. 
“Temos que colocar muito charme e muito positivismo na postura perante o mercado. E esta nova geração de produtores e enólogos está a conseguir isso”

A rota dos vinhos do Dão foi implementada recentemente. Que avaliação lhe merece até ao momento? 
Lembro que há 10 anos foi feita uma rota dos vinhos do Dão, ou seja, esta é a segunda rota a ser concebida e implementada. Acredito nesta rota, quando tivermos horários alargados nos Postos de Turismo e quando tivermos pessoas que nesses postos saibam explicar o que é a rota. Posso adiantar-lhe que ainda não veio ninguém do Turismo de Viseu, por exemplo, visitar a minha Adega, ou seja, não sabem que eu existo. Eu pergunto: como vão recomendar a minha Quinta e Adega se a desconhecem? Falta muita formação às pessoas. Um exemplo de uma rota bem sucedida é a de Napa Valley, nos Estados Unidos, em que é utilizado um comboio para visitar toda a região. No caso do Dão, poderia existir um autocarro para serem efetuadas as visitas. O problema que vejo neste momento é a inexistência de uma liderança para a rota. Se existisse um líder faria uma seleção de produtores, para cada tipo de visitante – não faz sentido levar pessoas que falam inglês, a produtores que não tenham ninguém que fale inglês para os receber. Considero que esta rota funciona com um pouco de timidez, com receio de fazer as coisas. Começou bem, com o próprio presidente da CVR Dão, Arlindo Cunha, a dar sinais positivos, descomplexando o conceito do que é uma rota de vinhos, mas não conseguiu ainda mexer com as pessoas. Sinal disso é que passado quase dois meses de estar implementada, já ninguém fala nela. Temos que questionar quem é o líder da rota, quem está a dinamizar a rota, quem está no turismo para fazer a interligação. No nosso caso criámos todas as condições para receber os visitantes – cozinha, sala de jantar, temos um jeep para visitar a quinta, bicicletas, pessoas preparadas para orientar uma prova, horários alargados – e não tenho recebido quaisquer contactos para visitas. 

O que podemos esperar para a colheita deste ano? 
Nós tivemos a primeira colheita engarrafada em 2000, com o Encruzado. Nos anos mais recentes, temos tido a tendência para produzir vinhos mais estruturantes, com maior capacidade de guarda, isto na marca Ribeiro Santo. O Jardim da Estrela será para fazer vinhos mais acessíveis. Neste momento estamos com muito calor e pouca água nos solos, o que implica que haja necessidade de deitar fora algumas uvas, principalmente no Jaen e Alfrocheiro, para regular a produção e termos uvas mais concentradas. A produção vai ser maior do que no ano passado, traduzindo-se num ano normal. Vindima mais cedo é outra realidade que vamos ter. Em termos de qualidade, o Dão tem sempre qualidade desde que não chova. Eu acredito muito no Dão, em todas as colheitas, desde que não haja chuva quando não deve haver, pois temos sempre vinhos com grande acidez e autenticidade. Por isso enólogos de outras regiões estão a ser muito atraídos pelo Dão. 

Qual a vossa área de vinha, produção atual nas três Quintas e para que mercados se destina?
Temos 30 hectares no Dão, 60 no Alentejo e 10 no Douro. Em termos de produção estamos a crescer – em 2014 engarrafámos 250 mil unidades e este ano vamos chegar às 400 mil. 
Vendemos os nosso vinhos para o mercado interno, que representa 40% das nossas vendas, e para 20 países, para os quais destinamos os restantes 60%, entre os quais, Canadá (onde temos os nossos vinhos listados e não são muitos que o conseguem), Estados Unidos, Brasil, Finlândia, Noruega, Dinamarca, Polónia, Rússia, Inglaterra, Bélgica, Alemanha, Luxemburgo, Japão, China (onde temos dois importadores), entre outros. Entretanto com a parceria que estabelecemos com a rede de supermercados alemã, Lidl, poderemos vir a alavancar muito as nossas vendas, dado o seu grande potencial, pois além de eu escolher toda a gama de vinhos a ideia é também produzir vinhos para eles. 

Jantares vínicos e de harmonização, num Dão marcadamente gastronómico e presença em feiras internacionais, têm sido alguns dos principais de promoção usados pelos produtores. No vosso caso tem dado frutos? 
 Esta nova geração de enólogos, mais virados para o exterior, que falam outros idiomas, começou a apostar nesse tipo de ações e com muito sucesso. Lembro-me de, há muitos anos, levar o Vítor Sobral para fazer um cabrito no Rio de Janeiro. Isto foi uma “pedrada no charco” na altura. Levar enchidos na mala, e proporcionar um grande jantar a cerca de 50 pessoas, com algumas das iguarias e vinhos de excelência do nosso país foi fantástico. Temos que colocar muito charme e muito positivismo, na postura perante o mercado. E esta nova geração de produtores e enólogos está a conseguir isso. A criação de uma personalidade e identidade próprias são também fulcrais: passa-se isto com grandes produtores como a Sogrape e José Maria da Fonseca, por exemplo.
Quais os principais prémios que já obtiveram e que importância lhes atribui? 
Devo confessar-lhe que sou um pouco anti concursos. Muitas vezes são os comerciais que quase nos exigem uma medalha, mas isso é como ter uma notícia da semana, que rapidamente desaparece da memória. São muitos concursos, com custos muitos altos (60€ por cada amostra e são quatro garrafas que temos que enviar, sendo os melhores vinhos que enviamos, que já têm custo alto) e na maioria das vezes não compensa. Há três concursos neste momento que eu vejo como credíveis e que eu gosto de concorrer: Concurso de Bruxelas, Berlim Trophy e Wine and Spirit´s em Hong Kong. O que eu valorizo mais são as pontuações da Revista Wine Spectator e de Robert Parker, que têm muito prestígio. Ainda na semana passada recebemos 90 pontos pelo nosso Tinto Colheita, e 91pontos pelo Batom, isto por Robert Parker. Na Wine Spectator temos tido os nossos vinhos classificados entre 87 e 90 pontos, o que é excelente, pois acima de 90 estão vinhos de preços muito elevados. Isto sim faz a diferença e indica-nos que estamos no bom caminho.
O setor em geral e a região do Dão em particular, atravessam um bom momento. Prevê a continuação desta tendência, com a cada vez maior afirmação do vinho Português além fronteiras? 

A região do Dão é uma região fabulosa. O grande problema é ser uma região fechada, em que as pessoas gostam muito de olhar apenas para o seu umbigo. Por exemplo, quando veem entrar alguém de fora ficam muito incomodadas, porque vêm fazer o seu estilo próprio de vinhos. Nós temos que comparar e inserir os vinhos do Dão no mundo global.

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