Marisa Matias : A falta de resolução do problema ambiental em Nelas é um grande cartão vermelho aos governantes

– Eurodeputada do Bloco de Esquerda considera que há soluções tecnológicas para a resolução total do grave problema ambiental do concelho, mas falta “vontade política”
Socióloga, tem uma relação umbilical com Canas de Senhorim e a Urgeiriça. Marisa Matias (Bloco de Esquerda), uma das mais dinâmicas deputadas no Parlamento Europeu, deslocou-se ontem a Canas de Senhorim e à Ribeira da Pantanha, para, mais uma vez, chamar a atenção para a relação entre o ambiente a saúde pública no concelho de Nelas –  tema que escolheu para fazer uma grande parte da sua tese de doutoramento. À conversa connosco em Canas de Senhorim, considera que o concelho é dos mais afetados no país por problemas ambientais, com consequências nefastas para a saúde pública. Do trabalho no terreno que efetuou, partindo do estudo Minurar (minas urânio) de 1999, constatou que dos 30 concelhos compilados, Nelas “é o que tem a maior correlação direta entre problemas ambientais e saúde dos habitantes”.  
“Já mostrava uma prevalência exagerada de cancro do pulmão, tiróide, brônquios e diversas doenças do foro respiratório”, explica, assim como “foram encontradas alterações nas análises do sangue e indícios de concentração de metais pesados, encontrados no cabelo. Quando concluiu o seu estudo epidemiológico, em 1998, “dos 550 mineiros no final da atividade da ENU, tinham já morrido com cancro 115”.  Este levantamento nunca tinha sido feito, abrangendo entrevistas e dados das autoridades sanitárias. “Se houvesse vontade política poderia ter-se mitigado o impacto ambiental sobre a saúde, pois existiam e existem soluções tecnológicas para o efeito”. As medições do radão na altura,  variavam entre 5 e 8 ((0,5 por hora é o limite máximo indicado pela Oganização Mundial da Saúde). Em 2004, aquando do encerramento da ENU, registavam-se “23 micro-siverts por hora na Urgeiriça”, o que traduz a dimensão do problema. “Nelas tem todas as condições para ser um concelho exemplar em matéria ambiental, mas não há vontade política”, diz-nos Marisa Matias. 
Sobre a contaminação da Ribeira da Pantanha, revela-nos que já fez “várias perguntas e queixas à Comissão Europeia, desde 2009”. “Qualquer entidade pública não tem que ter medo ou vergonha de fazer um estudo sério e integral sobre o impacto deste problema sobre a saúde – esse é o primeiros passos para proteger as populações. O Minurar foi um estudo feito para não ter conclusões definitivas. A prioridade deveria ser a qualidade de vida dos residentes,defendendo-se assim o país e as localidades”.”Este é um grande Cartão vermelho ao município e ao país – porque há todas as condições para se fazer bem – havendo financiamentos para o efeito”, acusa nas Caldas da Felgueira, junto à Ribeira, mais uma vez poluída. “É uma questão de prioridades e o governo Português nunca viu isto como prioridade”, denuncia, afirmando que “estamos cansados da promiscuidade entre grupos privados e entidades públicas – a Borgstena é uma empresa que na Suécia respeita as regras ambientais e aqui deveria fazer o mesmo – os lucros deveriam também servir para isto”, concluindo que “não podem ser os contribuintes a suportar esse custo e saliento que tudo o que de bom se fez nesta área, no concelho de Nelas, resultou das lutas populares e não da vontade pública”.

Lembramos que o presidente da Câmara Municipal de Nelas já anunciou a resolução do problema das descargas poluentes da Borgstena, numa solução pública e privada, com a construção da grande ETAR de Nelas, num investimento que irá ultrapassar os 4 milhões de euros, com uma comparticipação de 85%, que vai envolver também o investimento privado da empresa Sueca, para o pré tratamento dos seus efluentes na sua ETAR. 

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