“Não se sabe até onde pode ir o sobreaquecimento do planeta”

Vasco Azinhaga  (nascido em Canas de Senhorim) e Patrícia Azinhaga (natural de Benedita), em entrevista ao nosso jornal, falam-nos dos grandes desafios e projetos em que estiveram e estão envolvidos, na sua área profissional – Geologia, contribuindo para um mundo melhor e mais sustentável. Projetos esses que lhes têm trazido mediatismo a nível nacional. 
Recuando no tempo, podem contar-nos quando e como surgiu o vosso interesse por uma área tão fascinante como é a Geologia?
Vasco – Desde pequeno que tinha bem presente que queria estudar algo relacionado com as ciências do ambiente apesar de não ter uma ideia precisa do que seria estudar Geologia. Garantidamente não ia dar aulas ou trabalhar num escritório convencional em horários fixos. A dimensão e paixão pela geologia começa com o trabalho duro. 
Patrícia – Foi um pouco por acaso. O meu concurso à Universidade foi bastante distinto a nível das áreas escolhidas entre as quais Desporto e as Ciências do Ambiente. O meu gosto pela geologia só se desenvolveu no 2º ano da licenciatura quando tive a possibilidade de passar da teoria à prática. Aquela semana de campo acabou por me levar a decidir que queria seguir geologia.
Os projetos em que estão (ou estiveram) inseridos na Colômbia e Antártida, em que consistem e quais os seus principais objetivos? 

Vasco – Apesar de sermos os dois geólogos, estamos em áreas opostas, a Patrícia ligada a projetos relacionados com a proteção do ambiente e divulgação científica e eu na exploração e mineração de minerais. A convivência é totalmente pacífica porque entendemos a abrangência da profissão e os diferentes objetivos. Na realidade é tão essencial a preservação do ambiente como a mineração dos recursos com regras para a sustentabilidade da indústria internacional. 
O projeto na Colômbia é avaliação de projetos de exploração e mineração de esmeraldas. Até ao momento foi o trabalho mais extremo pela insegurança, pelas temperaturas de 45ºC, humidade acima dos 90% e níveis de oxigénio muito baixos. No entanto poder mapear a maior mina de esmeraldas do mundo com mais de 25 km de túneis foi um desafio com uma exigência técnica fabulosa e muita dose de loucura.
Patrícia – A minha ligação à Ciência Polar começou em 2007 com a comemoração do Ano Polar Internacional. Desde então tenho colaborado com o Programa Polar Português, especialmente a nível da divulgação científica. Este ano surgiu a possibilidade de realizar uma campanha científica na Península Antártica, mais precisamente na Ilha de Rei Jorge, a convite do Pedro Ferreira do LNEG (laboratório nacional de Engenharia e Geologia). O projeto onde estou envolvida – GEOPERM, é um projeto geológico que pretende observar e cartografar o tipo de rochas da Meseta Norte da ilha. Este projeto tem 3 objetivos principais: 1) aumentar o conhecimento sobre a geologia da área; 2) recolher amostras para estudos geoquímicos que irão ajudar a compreender a origem destas rochas e como se formou o arco vulcânico onde estão inseridas; 3) contribuir para a investigação em curso sobre o permafrost (solo gelado) e o seu impacto nas alterações climáticas.
Que outros projetos tiveram para vós particular relevância? 

Vasco – A primeira experiência internacional na China em ambiente de alta montanha a 4 000 metros na cordilheira dos Himalaias foi marcante, depois África (Malawi e Zimbabwe) em zonas totalmente remotas e sem acesso onde a vide se move com padrões e velocidades bem diferentes mas definitivamente acompanhada pela alegria das crianças e Brasil nos duros garimpos de ouro na Amazónia onde o valor da vida tem outra dimensão e onde a moeda é a grama de ouro. Todos eles tecnicamente muito difíceis mas desafios fantásticos que permitem uma coleção de histórias interminável.
Patrícia – O meu percurso profissional tem sido um pouco diferente do habitual. Comecei por trabalhar em prospeção mineral, depois estive cerca de uma década no ensino e há 2 anos voltei à investigação. A Ciência Polar e a divulgação e educação científica são as duas áreas que mais me fascinam e como tal os projetos que tenho desenvolvido nestas áreas têm particular relevância. O projeto Educação Propolar e a Profissão Cientista Polar permitiram desenvolver atividades educativas e eventos que aproximam o público destas regiões e da ciência que por lá se faz. A Polar Educators International (PEI) – uma associação internacional para a educação e divulgação científica sobre as regiões polares que depende do voluntariado dos seus membros, é um outro projeto muito importante para mim pois fiz parte do seu nascimento em 2012 e com a qual continuo a contribuir. A par do PEI, a Associação de jovens investigadores polares (APECS) é também um projeto de particular relevância e para o qual contribuo desde 2011. Finalmente o IRRESISTIBLE, um projeto Europeu sobre Investigação e Inovação Responsáveis aplicado em sala de aula e que é extremamente pertinente por envolver a sociedade em decisões sobre questões científicas e tecnológicas, e no qual também está presente a ciência polar.
Até onde pode ir o sobreaquecimento do planeta e quais as suas consequências mais nefastas? Alguns especialistas dizem que, se nada for feito, podemos chegar a 2100 com mais 5 graus na temperatura média…

Vasco – O aquecimento está justificado é visível e mensurável. No entanto o planeta tem mecanismos internos e externos pare se autorregular, só que essa regulação é sempre com extrema violência. Essa regulação pode ser em milhares de anos ou não!
Patrícia – Não se sabe até onde pode ir. Temos a noção do que poderá acontecer nos próximos anos através dos modelos produzidos. Contudo está mais que provado que o aquecimento existe e que o ser humano é responsável pelo rápido aumento que é observado. Quando comparamos o gráfico referente à quantidade de CO2 libertado para a atmosfera desde a revolução industrial com o gráfico referente à temperatura global do planeta, há uma impressionante coincidência. Já se começam a observar algumas consequências, em especial nas regiões polares por serem as regiões mais sensíveis ao aumento da temperatura global, tais como o degelo das calotes polares (no Ártico abre a possibilidade de novas rotas comerciais e exploração de recursos que irão pôr em risco esta região), o degelo do permafrost (que libertará enormes quantidades de CO2 e metano e que põe em risco as estruturas por colapso do solo), a acidificação dos oceanos (da qual pouco se sabe a nível de consequências no ecossistema), as alterações na circulação atmosférica (que levam a episódios climáticos extremos como o Vortex nos EUA e que provocaram as enormes vagas na costa portuguesa) e a alterações na distribuição de espécies (com o aquecimento Portugal poderá ter que lidar com doenças como a Malária e o Dengue que resultam da picada de mosquitos portadores da doença e que se dão em climas mais quentes).
Sabemos que o protocolo de Quioto – amplamente incumprido – será substituído previsivelmente no final deste ano, por um outro, com exigências maiores para os países, em matérias de emissões poluentes. Que exigências principais deverão constar no documento? 


O problema já não se resume apenas às emissões de CO2 para a atmosfera pelas indústrias ou pelos veículos. Por exemplo a quantidade de CO2 que está inerente aos alimentos que ingerimos é abrupta (da ordem das muitas giga toneladas), sem contarmos com as embalagens onde vêm a maioria destes bens alimentares. Num futuro próximo teremos também problemas relativos à água potável. Desta forma deverão existir exigências relativas ao CO2 mas também à água como recurso. Os países têm de comprometer-se a cumpri-las mas os cidadãos também, e penso que muitas vezes é muito simples falarmos em países e esquecemo-nos do papel que cada um de nós deve ter. É impressionante como no séc. XXI, por exemplo, ainda se vêem inúmeros caixotes de lixo geral com plástico, vidro e papel. Portugal e os países que ainda não o fazem, deveriam adotar regras rígidas quanto à separação dos resíduos e taxas elevadas para quem não o faça.
A recente descida drástica dos preços do petróleo (para praticamente metade), que já está a levar a um aumento do consumo do principal causador das emissões de CO2, pode comprometer seriamente os objetivos de redução das emissões poluentes? 

Vasco – Estamos a falar de episódios pontuais que são difíceis de quantificar o seu real impacto é mais uma questão de foro político e vontade dos governantes. 
Patrícia – Depende dos vários países. Há países em que é mais barato que a água e outros em que se passa o contrário. A solução passa por mudar mentalidades, algo que leva tempo e apresentar soluções sustentáveis e acessíveis à sociedade e aqui os governantes podem e devem ter um papel importante.
Além disso ao aumentar o consumo, pode aumentar a atividade extrativa. Que consequências podem ter para o planeta, em termos de ocorrência de fenómenos como os sismos e desequilíbrios dos ecossistemas? 

Vasco – Não existe relação entre a exploração e fenómenos naturais (sismos ou vulcões)! Uma mineração intensiva e sem controlo como ocorre em muitos locais do planeta (desde a Amazónia até aos pólos) evidentemente cria muitos desequilíbrios nos ecossistemas. 
A verdade é que os países mais ricos (com exceção da Alemanha, França e Itália) são os que tem um setor mineiro/exploração mais forte. Nos anos 70/80 a mina da Urgeiriça era apelidada em Lisboa de Banco de Portugal por alguma razão e atualmente a mina de Cobre de Neves Corvo é um dos maiores contribuintes para o nosso PIB.
Patrícia – Estou de acordo com o Vasco. Os fenómenos naturais resultam do facto de vivermos num planeta dinâmico e com vida. Irão existir sempre. Não estão relacionados com a extração de recursos. No entanto uma extração descontrolada afeta os ecossistemas e nós seres humanos fazemos parte destes.
Mais uma vez cabe a cada um de nós ser consciente quanto às nossas necessidades. Já não conseguimos viver sem determinados recursos minerais que nos proporcionam proteção (habitações) qualidade de vida (eletrodomésticos, aquecimento, tecnologia…). Contudo podemos minimizar a nossa pegada ecológica. Se cada um de nós o fizer o resultado final será muito diferente.
Como casal como conseguem gerir a distância e principalmente a permanente possibilidade de deslocações para locais muito distantes e até inóspitos?

Vasco – De uma forma muito normal apesar dessas deslocações serem por razões óbvias para diferentes fins, mas são duas áreas essenciais (ambiente e a mineração) para um bom desenvolvimento sustentável e com regras.
A família mais próxima ajuda muito para que esta prática por vezes viciante de conhecer sociedades e locais de beleza realmente rara e fascinante. Poder exercer a profissão em locais tão distintos e diferentes é realmente um privilégio.
Patrícia – Encaramos de forma natural. Não fazemos da distância um problema. Ela existe e é necessário contorná-la. Felizmente a tecnologia permite minimizá-la. Por outro lado é usufruir ao máximo estes desafios e possibilidades. São outras experiências, outras culturas, outras vivências.

Como temos filhas é necessário termos um local de reunião com o qual se identifiquem e a restante família ajuda bastante. Felizmente o tipo de trabalho que faço, embora tenha que sair algumas vezes, permite-me acompanhar as meninas na maioria do tempo. A possibilidade de lhes mostrar que devemos perseguir os nossos sonhos e abraçar os desafios é um outro aspeto que considero muito importante para a sua formação pessoal.

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