“Uma instituição com muita história e uma grande solidez, que permite olhar para o futuro com otimismo”

Vítor Pereira, presidente da direção da Associação do Folhadal, Francisco Gomes, presidente da Assembleia Geral e Rui Barros, tesoureiro, contaram-nos, à mesa na Taberna do Chef, a história de uma das coletividades mais emblemáticas do concelho, que completou 75 anos de vida no dia 15 de Junho do ano passado e conta atualmente com cerca de 500 associados.


Comemoraram no ano passado 75 anos de vida.  Recuando no tempo, contem-nos como começou esta história bem sucedida…
É verdade, a Associação do Folhadal comemorou em 2014 o seu 75.º aniversário, um acontecimento que celebrou de forma festiva e participada. Não é todos os anos que uma coletividade atinge tão bela idade, com um currículo que deixa orgulhosos os associados e toda a população, e segue, com vontade de continuar a servir a comunidade, cuja obra é sua, nas várias etapas e com variadíssimos intervenientes. Nada se faz com apenas uma pessoa, ainda que algumas marquem, de forma indiscutível, toda a dinâmica associativa.
A Associação do Folhadal foi criada em 1939 a partir de um dos dois ranchos folclóricos existentes na altura: “Os Fenianos” e “Os Valentim” que, aos fins de semana juntavam homens e mulheres para dançar. A partir desses dois ranchos, e com o apoio da população, Abílio Pais Cabral e Augusto Pais dos Santos, de apelido Cartuxo, consolidam um grupo que passou a organizar regularmente bailes e festas tradicionais. Inspirados pelo movimento feniano com origem no Brasil, os dois ranchos deram origem a um único grupo, que passou a designar-se “Grupo Recreativo Os Fenianos”. No sentido de terem um espaço protegido e que servisse de sede provisória, os fundadores alugaram o espaço ocupado por um antigo lagar de vinho, sobre o qual foi montado um palco, com um corredor envolvente com serventia de camarim, um pequeno bar e uma porta lateral com acesso ao exterior. Durante décadas, o local ficou conhecido como sendo o Salão, onde se organizavam bailes, ficando conhecidas as famosas matinés, e para onde, em 1961, foi adquirida a primeira televisão da aldeia. Salienta-se que as emissões regulares da RTP tinham começado em 1957. 
Mas apesar de ter começado no final da década de 30, só em 1979 a Associação foi legalizada, com a aprovação dos estatutos e assinatura da escritura em Cartório Notarial.
Quais as principais atividades na altura?
Inicialmente, a associação era acima de tudo um local de convívio, um ponto de encontro para confraternização. Como já foi referido, a única televisão existente na povoação, conseguia reunir novos elementos, pagando uma quota mensal para verem, sobretudo, os jogos de futebol. Organizavam-se bailes, teatros e festas anuais. O sucesso dos bailes era tão grande que as festas pagãs associadas às festas religiosas da Páscoa e da Santa Eufémia realizavam-se num recinto ao ar livre. Esse recinto improvisado foi durante muito tempo instalado no Largo do Colóquio, antes de ser ligado à Rua do Pombal. Mais tarde, o evento passou a realizar-se num terreno na Rua do Cabeço ou num terreno a meio da Rua Olímpio Albuquerque. Quem não se lembra destes bailes e das festas? Eram afamadas no concelho e na região. Por aqui passaram vários agrupamentos musicais como Ases do Ritmo, autores da música dedicada ao Folhadal, e os seus herdeiros Diapasão, assim como o agrupamento Central Troviscal. Quem não se lembra do terreiro vedado com falheiras de pinho ao alto, com a bilheteira à entrada e o pavimento do dancing construído com tábuas, no meio do recinto? Sem esquecer as luzes de várias cores que criavam um ar de festa e completavam todo o cenário. E o que dizer da tão aguardada “dança da flor”?! Com o decorrer dos anos essa vertente cultural foi diminuindo, aumentando assim, a área recreativa e também desportiva. Foi assim até ao início da década de 80. A partir daqui, os bailes deixaram de estar na moda e a Associação procurou outros rumos. Assim, procedeu-se à compra do espaço limítrofe ocupado pelo antigo lagar de azeite, e a reconstrução do edifício existente. 
Porquê uma reconstrução?
Porque em 1989, um novo Corpo Diretivo entrou e encontrando as instalações bastante degradadas, decidiu demolir parcialmente um antigo salão e avançar com a construção de uma sede que dignificasse o Folhadal.
O edifício sede sofreu grandes alterações relativamente ao original?
Sim, todo conjunto existente sofreu bastantes alterações. Só o edifício principal mantém, exteriormente, o traço original, à exceção das casas de banho. Um bar servia para angariar alguns fundos e tudo foi funcionando de acordo com as possibilidades. Foram feitas umas pequenas obras só para manter aquilo a funcionar e só depois se fez um projeto. As obras finais demoraram quase 10 anos a serem concluídas.
Esse era o principal objetivo da Associação?
Sim, esse foi o primeiro objetivo, reconstruir o edifício, sempre de acordo com as possibilidades financeiras. Os mandatos da Direção eram anuais. Talvez, por isso, as pessoas eram mais dinâmicas. Sempre era mais fácil, estar lá um ano do que três. A realidade atual é bem diferente… 
De referir que as obras iniciais assentavam numa base de voluntariado. Eram as pessoas da Direção que lá estavam que trabalhavam e a própria povoação colaborava. Depois avançou-se para a reconstrução total e aí já foi elaborado um projeto global. Claro que isto também foi feito por etapas. 
Simultaneamente, a Associação passou a procurar novos objetivos. A partir de 22 de maio de 1990, a coletividade passou a assumir a designação de Associação do Folhadal – Centro Social, Cultural e Recreativo, alargando as suas atividades na área social. Meses depois, a 1 de junho de 1990, a Associação do Folhadal foi declarada Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS) e de utilidade pública. No 7 de novembro de 1992 foi inaugurado o actual Bar e a 1 de junho de 1994 entrou em funcionamento o Centro de Dia para Idosos. As obras da Sede foram inauguradas a 21 de dezembro de 1997. 
A 1 julho de 2000, o Centro de Dia começou a prestar Apoio Domiciliário, consolidando o novo rumo traçado na transição da década de 80 para 90. Adicionando às valências já em curso, a 20 de dezembro de 2001, aderimos ao Programa Internet na Escola, através do Ministério de Ciência e Tecnologia, com a disponibilização de computadores e internet para todos. A 30 de dezembro de 2001, foi inaugurado o recinto polidesportivo e mais tarde, em 2007, os respectivos balneários.
Quantos habitantes tinha o Folhadal na altura dos “Fenianos”?
Cerca de 600 a 700 pessoas e 300 a 400 moradias.
O Folhadal era então já uma povoação relevante…
Sim, o Folhadal era muito mais divulgado e a “nossa” festa anual da Páscoa era a primeira das redondezas. Os preços ali praticados serviam de referência às festas que se seguiriam. Na altura, entre o Carnaval e a Páscoa não havia animação e então a festa do Folhadal era sempre aguardada com muito entusiasmo. “Caía” lá toda a gente. Os próprios grupos musicais queriam estar todos presentes, quase que se ofereciam, porque era um evento muito concorrido e era uma mais-valia para eles.
Pelo que me diz, na altura, o Grupo e posteriormente a Associação já eram uma referência importante na região…
Sim. Já tinha um bom nome. Toda a gente conhecia.
E a nível concelhio, era uma das Associações mais dinâmicas?
Bom, confesso não conhecer a história dos outros grupos/associações. Acontece que a legalização de alguns grupos existentes ocorreu no mesmo ano, em 1979. Mas na área social, nós fomos os segundos a criar um Centro de Dia no concelho, em 1994, a seguir a Canas de Senhorim. 
A Associação do Folhadal tem uma caraterística de que os seus dirigentes se orgulham: nunca esperou pelos subsídios das entidades para avançar com os seus objetivos. Nunca andámos de mão estendida em relação aos diversos autarcas, ou seja, sempre nos pareceu que era justo serem eles a tomarem a iniciativa de nos concederem apoios. Comparativamente com o valor patrimonial atual, concluímos que os apoios concedidos até hoje “não foram significativos”. Num momento difícil, em que no dia 5 de novembro de 2014, um assalto às instalações desta Associação, resultou num prejuízo de cerca de 16 mil euros, a Câmara Municipal de Nelas, a Junta de Freguesia de Nelas e diversas ações solidárias, permitiram à Associação atenuar o prejuízo total, ao arrecadar cerca de 7 mil euros. “Uma onda de solidariedade sem precedentes que muito agradecemos”, reconhecem os seus dirigentes, que convivem com as dificuldades geradas pelo assalto. 
Atualmente, a Instituição desempenha um papel fundamental em termos de ação social na sua área de abrangência. Dotada de um edifício com uma área de ocupação de 3 072 m2, com um vasto património e instalações funcionais, onde podem decorrer em simultâneo diversas atividades, sem qualquer interferência, o Centro de Dia e o Apoio Domiciliário são as grandes valências na sua intervenção social. Acolhe 20 utentes no Centro de Dia, e 25 no Apoio Domiciliário, dos quais só alguns têm acordo com a Segurança Social. A média de idades é de 84 anos no Centro de Dia e 79 anos no Apoio Domiciliário. Nestas duas valências, os seus utentes são apoiados em múltiplas atividades diárias, que incluem as refeições, higiene pessoal, tratamento de roupas, fisioterapia, acompanhamento médico e atividades de lazer, durante 365 dias por ano. Permanecendo nas suas habitações, os utentes do Apoio Domiciliário, recebem apoio, principalmente na alimentação, mas também na toma dos medicamentos, higiene pessoal e doméstica, e outros assuntos relacionados com a habitação. 
Embora mais vocacionada para prestar apoio social, a Associação não esquece as suas raízes e o seu património, integrando noutras atividades os seus utentes e amigos. Os bailes são agora menos concorridos, mas não é por isso que deixam de ser apreciados. A excelência do Salão de Festas, permite a realização de vários tipos de espetáculos assim como jantares evocativos, juntando lazer, diversão e animação aos convívios. É o que sucede, por exemplo, pelo Natal e na comemoração de cada aniversário do Centro de Dia. Simultaneamente, procuramos recriar celebrações da comunidade, como sejam o Cantar das Janeiras, o Carnaval, o saltar da fogueira pelos Santos Populares, o S. Martinho, noites de fado, passeios pedonais nas encostas do Mondego, passeios de bicicletas pasteleiras, corrida de carros de rolamentos e demais atividades culturais e recreativas.
Em outubro de 2013, a Associação teve oportunidade de alargar ainda mais o seu âmbito, ao publicar o livro “Folhadal – do Lugar e das suas gentes”, do autor José Gomes Ferreira, um conterrâneo, e de inaugurar a exposição de fotografias antigas alusivas à vivência deste povo de Folhadal. Também Maria Lúcia Abreu, outra conterrânea nossa a viver no Brasil, escolheu esta Associação e a sua terra natal, para, durante um Café Literário em agosto de 2014, apresentar o seu livro de memórias “Educar é Travessia: vivências, determinação e superação”.
Em 2014, iniciou-se na Sede desta Associação uma Escola de Música para crianças e uma escola de cavaquinhos, encontrando-se ainda inscrições abertas aos participantes interessados. Desta última resultou a criação do Grupo Musical “Os Fenianos” com a sua primeira atuação no almoço de Natal de 2014 do Centro de Dia desta Instituição. Durante este almoço, foi também inaugurada a exposição fotográfica “Rostos e gestos de ternura”, onde os intervenientes são os nossos utentes. 
Com a história da aldeia a confundir-se por vezes com a história da Associação e vice-versa, estes são marcos dos quais nos orgulhamos, aguardando para breve a publicação do catálogo da exposição que contemplará o espólio apresentado e novas imagens que se juntaram à recolha anteriormente realizada. 

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