Teatro de rua torna-se um HÁBITO que nasceu em Carvalhal Redondo e já percorreu o país

Entrevista com Ricardo Loio, Diretor da Associação Cultural Juvenil Teatro Hábitos
Surgiu numa conversa de café entre duas pessoas desconhecidas, mas com um objetivo em comum: “o teatro”. Foi em 10 de novembro de 2013 que o ainda bebé Grupo de Teatro Hábitos começou a dar os “primeiros passos”, com o espetáculo “Uma viagem pelo tempo”, que promoveu em Carvalhal Redondo. O sucesso foi tal que o Grupo foi “obrigado” a continuar o seu trabalho. Em fevereiro de 2013 cria-se a Associação Cultural Juvenil Teatro Hábitos e desde então apresentou cerca de meia centena de espetáculos por várias zonas do país. Neste momento o HÁBITOS conta com cerca de 90 pessoas, dos 4 aos 80 anos, desde atores amadores, músicos, equipa técnica, a serralheiros, eletricistas, carpinteiros, soldadores e costureiras. É num momento efervescente da sua atividade, que fomos entrevistar o seu diretor, Ricardo Loio, sobre um projeto que nasceu na rua e para rua…
Quais os momentos mais marcantes da vossa, ainda relativamente curta, carreira artística?
É muito difícil marcar os melhores momentos, todos eles se tornaram únicos e especiais para nós, mas talvez arrisque dizer que os momentos mais marcantes passaram por toda a fase inicial do projeto, desde os primeiros ensaios à criação do espetáculo, até a própria construção dos adereços cénicos. Foi marcante também pela surpresa, pouca gente estaria a contar com a “grandeza” do primeiro espetáculo e foi desde aí que as pessoas se começaram a envolver cada vez mais no projeto. 
Até hoje já fizemos perto de meia centena de espetáculos, corremos grande parte do país, e foi graças a esse espírito inicial que tudo se desenrolou.
No entanto, durante dois anos e meio posso dizer que a passagem pelo festival “AgitÀgueda” foi talvez o momento mais alto da nossa existência.
Com que apoios contam para o desenvolvimento das vossas atividades e quais as maiores dificuldades que enfrentam, num país que ainda não dá o devido valor à cultura …
Infelizmente neste momento os apoios ainda são muito reduzidos e sentimo-nos bastante limitados por causa disso. Trabalhamos com um grupo de pessoas que têm uma vontade e dedicação enorme, pessoas que dão o seu voluntariado de forma extraordinária, fazem os possíveis e os impossíveis para que as coisas aconteçam. Mas infelizmente não chega, é preciso que as instituições que apoiam a cultura olhem para nós nesse sentido: um grupo que trabalha e quer trabalhar cada vez mais. Podemos dizer que até hoje a nossa maior dificuldade foi financeira. Houve momentos em que nós próprios tivemos que contribuir com dinheiro do nosso “bolso” para conseguirmos produzir os espetáculos. É extraordinário as pessoas, para além do seu trabalho e da sua dedicação, ainda disponibilizarem financeiramente (a fundo perdido) o pouco que têm.
Outra grande dificuldade é não termos um espaço nosso. Contamos com a boa vontade de outras coletividades que nos emprestam o espaço para ensaiar e das pessoas que a título pessoal nos cedem as casas, as garagens, para armazenar todo o nosso material cénico. Por vezes tudo isso se torna difícil de gerir. Mas claro, agradecemos o apoio que a Câmara Municipal de Nelas nos dá, o apoio incondicional da União de Freguesias de Carvalhal Redondo e Aguieira, a colaboração de todos os nossos parceiros e um agradecimento especial a todas as pessoas que até hoje acreditaram em nós.    
No mundo cénico em que se movem, qual o vosso maior sonho? São os sonhos que comandam a vida e as artes? 
Neste momento o Teatro Hábitos tem vários sonhos, um deles, e possivelmente o maior, é fazer crescer o festival de artes “Habitua-te” e fazer dele um espaço de aprendizagem de descoberta e harmonia, que se torne uma marca na região. Para além de todo o trabalho comunitário que o Teatro Hábitos desenvolve durante todo o ano, com o “Habitua-te” queremos dar mais e melhor às pessoas. Infelizmente a cultura no nosso país torna-se cara, daí falarem em elitismo cultural. Nós jamais queremos ser elitistas, queremos ser acessíveis às pessoas, porque defendemos que a cultura é de todos e para todos e por vezes as entidades culturais esquecem-se disso.
Hoje já muito se fala do teatro de rua, já há uma maior abertura para as pessoas se envolverem, mas quando nós surgimos não existia nada do género no concelho. Tivemos um papel fundamental e crucial para esse desenvolvimento e é pena que as entidades que apoiam a cultura desvalorizem todo esse trabalho inicial. 
Um povo culto é um povo criativo, que desenvolve novas ideias, e nisso sentimos que também estamos a dar o nosso pequeno contributo. Somos um teatro do povo e para o povo, mas também precisamos do apoio necessário para continuar a desenvolver esse trabalho. 
No nosso caso em concreto foi a arte pelo teatro que nos habituou a sonhar e a viver…

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