Vinhos musculados e de grande longevidade

– Degustação harmonizada com gastronomia tradicional colocou em evidência o grande caráter do Dão, quer do mais tradicional e musculado, quer do mais moderno e vibrante. Em prova estiveram néctares dos seguintes produtores : Quinta da Fata, Fidalgas de Santar, Quinta Mendes Pereira, Quinta das Marias, CM Wines (Allgo) e Quinta do Sobral. 
   Numa prova de vinhos organizada mais uma vez pelo nosso jornal, tivemos a oportunidade de promover novamente o Dão, desta vez em Coimbra, no Restaurante Cahué, situado no Centro Comercial Atrium Solum. António e Lina, proprietários do espaço, acertaram connosco a gastronomia que iria acompanhar a degustação : entradas de queijo, enchidos da Beira e pataniscas de bacalhau, tibornada de bacalhau como prato principal e tigelada para a saída. 
   Bem sabíamos do desafio que iríamos defrontar – provar vinhos recentemente engarrafados (a larga maioria de 2012 e 2013) de alguns dos mais representativos produtores da ancestral região. Isto porque é unânime que os néctares produzidos nesta terra abençoada, ganham vida, corpo, estrutura e elegância, com o passar dos anos. Mas o desafio foi ganho – os vinhos já mostram no presente grande qualidade e vida, com aromas mais exuberantes nos tintos, mas com encruzados monovarietais de grande complexidade e mineralidade. Todos eles, como é habitual, com grande versatilidade gastronómica. A exceção – e é por aqui que vamos começar – foi um Encruzado de 2010, da Quinta Mendes Pereira (Oliveira do Conde). Raquel Mendes Pereira continua a surpreender-nos com vinhos que simbolizam “tout court” a terra de onde provém a sua matéria prima. Os vinhos daquele “terroir” são do mais genuíno que o Dão produz. Clima, solos de eleição e fidelidade à tradição trazem-nos vinhos com muita profundidade, robustez, elegância e uma notável acidez, que ganham muito valor com o tempo de guarda. Munidos da roda dos aromas, pudemos constatar neste néctar, aromas de frutos secos, algum mel, num vinho gordo, que casámos com as entradas. Alguns acharam -no demasiado “velho”. Gostos não se discutem, e daí também esta riqueza do mundo dos vinhos em geral e do Dão em particular : vasta panóplia para todos os gostos. O Rosé de Touriga Nacional, da mesma produtora, também brilhou a grande altura. É este o perfil dos vinhos da mais antiga região demarcada do mundo (de vinhos não licorosos) – fugir ao vulgar e ser marcante. Muitos  dos convivas disseram : “isto sim é um Rosé e não um refresco”, extensivo também ao Rosé Allgo. Com as devidas diferenças, encontrámos semelhanças no perfil dos vinhos da Quinta Mendes Pereira, com os da Quinta da Fata (Encruzado de 2013 e Clássico de 2012) : austeros e minerais q.b.
    Num registo um mais pouco mais moderno, quer o Rosé, quer o Branco, do jovem produtor de Silgueiros, CM Wines, não deixam de conter toda a tipicidade do Dão, mas mais moldado e adaptado a mercados mais jovens . O uso da Uva Cão em blend com o Encruzado, confere-lhe frescura e aromas um pouco mais exuberantes, mantendo a grande elegância, acidez e mineralidade do Encruzado. O perfil dos vinhos do também jovem produtor, Fidalgas de Santar, foi considerado semelhante ao dos vinhos Allgo.
   O vigor e caráter do Dão também se encontra no notável equilíbrio entre acidez, teor alcoólico e concentração de aromas. E aqui chegámos aos Tintos e à Touriga Nacional e Alfrocheiro, que são (sem qualquer menosprezo pelas outras duas castas tradicionais da região – Tinta Roriz e Jaen) verdadeiros ícones no mundo vínico, também além fronteiras, principalmente a Touriga Nacional, considerada a melhor casta tinta Portuguesa, e que os profundos conhecedores da sua origem não duvidam que o seu  berço tenha sido no Dão (muito provavelmente na aldeia de Tourigo, concelho de Tondela). Em Blend ou em versão Monocasta, é simplesmente uma uva de eleição em todos os aspetos – aromas a frutos vermelhos maduros com nuances florais, que dá vinhos redondos, de invulgar elegância e acidez. E claro, a guarda, por longos anos, transmite-lhe ainda mais riqueza e pujança. Desde o vinho de entrada da Quinta do Sobral – vinha da neta, em homenagem à neta do seu fundador, Nelson Simões, aos mais complexos Allgo, Quinta Mendes Pereira, Quinta da Fata e Fidalgas de Santar, o traço indelével da Touriga Nacional está lá, quer no nariz, quer na boca. O fecho da prova foi com chave de ouro, com os novos néctares sempre “premium” da Quinta das Marias (Oliveira do Conde). Peter Eckert continua a oferecer-nos vinhos que têm sido embaixadores de excelência do Dão por esse mundo fora.
    Em mais uma jornada de promoção dos vinhos da região, que o nosso jornal não se cansa de valorizar, os presentes fizeram um balanço da prova com um “acima das expectativas”. Um dos meus amigos, o Viseense Luís Peres Lopes, fez questão de frisar que o nosso jornal lhe iria “dar a conhecer verdadeiramente” a sua região em termos de vinhos, pois há muito ali não reside.  
    E que venha a próxima prova, que ficou já prometida para daqui a poucos meses, mas desta vez a aposta vai ser diferente – vinhos entre 5 e 10 anos, intervalo temporal médio onde o Dão revela toda a sua potência. 

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