Papa Francisco vai receber carta que Aristides Sousa Mendes enviou em 1946 ao Papa Pio XII

– Foi um neto do famoso cônsul Português
em Bordéus que descobriu uma cópia da missiva e a enviou agora ao Papa
Argentino : um documento de grande valor histórico, onde relata as motivações e
repercussões das suas ações e que na época não teve resposta
É uma história que veio agora a ser
conhecida – Aristides de Sousa Mendes, o diplomata que heroicamente e contra as
ordens de Salazar passou vistos para cerca de 30 mil refugiados durante a 2ª
Guerra Mundial (dos quais 10 mil eram judeus), escreveu na época uma carta ao
Papa Pio XII a explicar os motivos que o levaram a tomar tal atitude.
“Senti uma força estranha e misteriosa que me dava alento”, escreveu
na missiva enviada em 1946, quando o seu estado de saúde estava muito
debilitado. Como homem de fé que era confidenciou que “aquelas vidas
dependiam essencialmente de mim, num momento tão trágico”,
ou seja,
entendia estar a cumprir “a lei de Cristo” apesar de desobedecer às
“leis draconianas de Salazar”. António Moncada de Sousa Mendes foi o
neto que descobriu e enviou agora a carta a Jorge Bergoglio. Enviada pelo
cônsul em 1946 a um Cardeal para a fazer chegar ao Papa Pio XII, nunca teve
resposta, isto numa época em que Sousa Mendes e família viviam grandes
dificuldades económicas, sendo marginalizados pela sociedade da época – até
amigos muito próximos “tinha receio em se aproximar de mim” como
refere na carta. Aristides de Sousa Mendes pagou um preço muito elevado pela
sua atitude altruísta e corajosa, como explica “Salazar reduziu-me a mim e
à minha numerosa família à mais cruciante miséria, como se eu, ao contrário da
digna atitude que tive para com os refugiados, fosse um criminoso de
guerra”.
Daí que tenha pedida ao Papa Pio XII “misericórdia”,
para alguém que quis, como narra “cumprir as palavras divinas e ser assim
favorável aos Judeus, por amor a Jesus Cristo”.
O que pretendia era tão
somente uma palavra de “consolo” do Papa, como refere numa segunda
carta que enviou, depois de verificar a ausência de resposta à primeira.
“Há muito perdi a confiança na justiça terrena, não, porém, na justiça
divina”,
realçou neste segundo escrito, para o qual também não teve
retorno.