Atílio Nunes em exclusivo ao nosso jornal

24 anos como Presidente da Câmara, sempre
como independente, com uma curta passagem pela Assembleia da República como
deputado, num notável apego às suas raízes, tornam Atílio Nunes uma autêntica
enciclopédia das Terras de Carregal do Sal. Tendo sido eleito na primeira
eleição pelo CDS, foi no PSD que consolidou a sua carreira política,
conseguindo um patamar invejável de relacionamentos nos corredores do poder,
desde os tempos de Cavaco Silva, até hoje. Exemplo disso é ter conseguido para
o Carregal o atual IC12, a chamada “auto estrada do Atílio” e tratar
por tu o atual Primeiro Ministro, Pedro Passos Coelho. É num registo muito
intimista e humano, que damos a conhecer esta autêntica lenda viva do poder
local em Portugal.
Após 6 mandatos à frente dos destinos da
autarquia, quais os momentos mais marcantes da sua carreira política e qual o
principal legado que deixa à população do Carregal?
Em primeiro lugar deixe-me dizer-lhe que
não me vou embora plenamente satisfeito, porque não consegui fazer tudo o que
queria. Embora ouça por todo o lado que sou o melhor presidente do mundo,
julgo-me um “miúdo” porque não consegui fazer o que queria, para dar
mais “pedalada” ao Carregal do Sal. Quero ver se neste pouco mais de
ano que me falta para terminar a minha vida autárquica, ainda faço algumas
coisas importantes. Aproveito para pedir desculpa aos meus munícipes por aquilo
que faltou fazer.
Em relação ao legado que deixei, não
posso deixar de realçar o atual IC12, conhecido como a auto estrada do Atílio,
que libertou a EN 230, que ligava a Serra da Estrela ao Caramulo, foi um marco
na história do concelho. Consegui também construir este edifício magnífico dos
Paços do Concelho, sendo que o edifício antigo ficou para o Julgado de Paz.
Ainda relativamente ao IC12 deixe-me
dizer-lhe que quando tomei posse em 1990, recebi uma ligação de um construtor
de Amarante para fazer uma variante que não iria servir todo o concelho, pois
por exemplo Oliveirinha ficaria de fora, e quando na época não tínhamos
qualquer parque industrial (hoje temos 6). Fui diretamente ao Primeiro Ministro
da época, Cavaco Silva, e num almoço com os 24 autarcas do distrito de Viseu,
no Hotel Grão Vasco, pedi um estudo para uma nova variante para o nosso
concelho. Em Abril de 1990, foi feito um voo para avaliar a situação, tendo o
Secretário de Estado das Obras Públicas da altura dado luz verde para a obra
avançar (infelizmente parou na Lapa do Lobo).Lembro também que nestes 11,8 Km
de estada, tínhamos 24 passagens de nível – a situação não era fácil. Esta obra
contribuiu muito também para a industrialização do concelho – em jeito de
brincadeira com o meu colega autarca de Paços de Ferreira, dizia-lhe que lá
eles fabricavam lenha, porque os móveis de qualidade eram feitos aqui no
Carregal. Obras importantes por todo o concelho foram as estradas. Quando antes
era tudo de terra batida, hoje temos tudo pavimentado. Não posso deixar de me
orgulhar também com a construção do complexo das piscinas, em que lutei muito
para as termos no local onde estão, quando as escolas as pretendiam
“puxar” para si. Neste complexo temos inclusive um campo de areia
para jogos. Em termos de cultura, penso que muito fiz para que o Carregal seja
hoje um concelho de referência nesta área. Destaco o Museu Municipal, que não
tem paralelo no país, pois ali temos obras de grande valor artístico, nomeadamente
quadros de Vieira da Silva e Portinari, num total de 23 quadros, além de
esculturas de Aureliano Lima, por exemplo. O restauro dos quadros foi um
trabalho notável que fizemos, aqui mesmo, com grande minúcia, o que mais
enriquece a história deste museu. Por último refiro mais três obras que muito
contribuíram para o desenvolvimento do concelho – a Biblioteca Municipal, o
Centro Cultural e o Centro Educativo.
Uma das obras seguramente mais importante
deste seu percurso, é a requalificação urbana da vila do Carregal, que está
prestes a concluir. Que significado lhe atribui e qual o valor total do
investimento?
Se tudo correr normalmente esta obra
ficará pronta no final deste ano – a data prevista é esta, a menos que o
Inverno não deixe. Esta obra reveste-se de uma grande importância, pois irá
embelezar ainda mais o nosso concelho, que muito merece, embora ele já seja
bonito por natureza. O valor total do investimento é de cerca de 2 milhões de
euros. Esta obra, eu quis fazê-la já há alguns anos, mas os comerciantes sempre
se opuseram. Agora foram eles que me vieram pedir para a fazer.
No Carregal temos excelentes vinhos, uma
notável gastronomia e esta obra irá contribuir para atrair ainda mais gente à
nossa terra. Lembro que aqui está sedeado aquele que é neste momento o maior
engarrafador de vinho em Portugal – Dão Sul/Global Wines, que já ultrapassou os
seus concorrentes mais diretos (Sogrape e Aveleda) com 13 milhões de
garrafas/ano.
Aristides de Sousa Mendes é sem dúvida a
personalidade do concelho mais famosa mundialmente, tendo tido agora mais uma
justa homenagem com a estreia do seu filme biográfico, protagonizado por Vítor
Norte. Sabemos que a Câmara Municipal apoiou esta produção. Qual a importância
que lhe atribui e qual o ponto de situação da recuperação da sua casa em
Cabanas de Viriato, que não se consegue que avance de vez …
É um momento histórico para o concelho,
sem dúvida. No dia 7 de novembro foram à ante estreia a Lisboa, no São Jorge, 4
vereadores, pois não pude ir devido a um pequeno problema de saúde, felizmente
já ultrapassado, que me impediu de me deslocar. Sobre a Casa do Passal em
Cabanas, vai conseguir-se uma solução e estou convencido que ainda será no meu
mandato que será recuperada. Talvez seja a última coisa que irei fazer antes de
terminar o mandato. Eu já fui proprietário da Casa e da Quinta – na altura o
proprietário era de Coimbra e eu comprei-a por mil e seiscentos contos, tendo
oferecido boa parte da Quinta ao povo de Cabanas.
Porque é que até hoje a situação ainda
não foi desbloqueada, depois de tantas promessas?
Aquilo é uma estrutura que custa muito
dinheiro e como sabe “numa casa onde não há pão, todos ralham e ninguém
tem razão”. É o que se passa atualmente. Vou contar-lhe uma história
interessante – as primeiras lâmpadas de vapor de mercúrio instaladas no
concelho, fui eu que as paguei do meu bolso, em Fiais da Telha. Na altura dei
20 contos por elas. Depois quis fazer uma cruz no concelho, desde os Pardieiros
até à Lapa do Lobo, já com lâmpadas de vapor de sódio. Depois veio o IC12 e
coloquei iluminação nos nós do Carregal e Oliveirinha. Um certo dia, já neste
gabinete, um emigrante Português nos Estados Unidos diz-me isto: “Atílio,
Carregal do Sal está muito bonito, estás de parabéns – vi a tua terra do
avião”. Quis dizer com isto, que viu a nossa iluminação do avião. Eu
passei até a usar esta estória, como arma minha, dizendo que “até os
aviões param no ar para ver o Carregal do Sal”. Agora o que vemos? As
Câmaras, infelizmente, a desligarem a iluminação. Tudo isto porque este governo
está a provocar esta situação.
O que está a falhar na governação do
PSD/CDS?
O que lhe posso dizer é que é uma pena
eles não saberem governar. O Passos Coelho é um bom rapaz, um bom trabalhador,
é pena que nem ele, nem nenhum dos que o rodeia, saiba governar a sua própria
casa. Este é o grande problema. Eu nasci um pouco antes da 2ª Grande Guerra
Mundial – a minha mãe cozia pão para vender e nós comíamos aquilo que caía na
borralha. Isso foi uma criação com educação e nunca levei um estalo do meu pai
ou da minha mãe. A verdade é que eu quando tinha 7 anos, já ceifava erva para
dar de comer aos bois. Hoje deitam gasóleo num trator, na altura deitava-se
erva aos bois, para lavrar a terra. Eu fui criado no campo e na agricultura,
por isso ainda hoje digo para os meus filhos e netos, que deveriam saber como
se planta um feijão-verde ou umas batatas para as poderem comer. É isto que
falta a este governo – quer ao Vítor Gaspar, quer ao Passos Coelho. São muito
estudiosos, mas os computadores e a capacidade de inteligência de cada um
deles, não dá batatas com bacalhau para as pessoas comerem ao almoço.
Ou seja, acha inevitável as pessoas terem
que voltar à agricultura?
Desculpe – o povo não tem que voltar à
terra. O povo nunca deveria ter abandonado a terra e o mar. Estes homens que
passaram pelos governos, andaram a desmantelar barcos, quando temos um mar
riquíssimo de peixe, por exemplo, a nossa sardinha é a melhor do mundo. As
minhas raízes são na terra – caminhei muito desde criança, por exemplo, por
estes pinhais a tirar e carregar resina. Posso dizer-lhe que sou amigo do
Passos Coelho. Desde a primeira hora que o apoiei e estive em Lamego na
apresentação da candidatura. Um dia o Joaquim Coimbra até me ligou a dizer que
a Manuela Ferreira Leite me estava a mandar um beijinho – mandei outro para ela
e ele perguntou-me se a apoiava, mas eu disse que iria apoiar Passos Coelho,
que conheço desde os seus 12 anos. Se, por um lado, admiro muito a coragem que
ele tem tido (e lembro que já a minha avó dizia que a esquerda não serve nem para limpar o rabo), a verdade é que as
pessoas cada vez vivem pior. Os governantes deviam todos, antes de ir para o
poder, passar um tempo numa aldeia, para verem como se planta uma batata. Como
eu fui criado na agricultura, vivo bem com batatas e azeite. Cavei muita terra,
plantei muita batata, semeei muito milho. Estes membros do governo e deputados
gostam é muito de computadores. Eu sou o primeiro defensor dos computadores – a
nossa Câmara foi a primeira do país a acabar com o papel. Até aqui esteve a RTP
a registar esse momento. Agora, o que eu pergunto é como é que eles comem as
batatas e o feijão-verde nos computadores.
Eu pergunto-me como é possível este
governo andar a cortar salários? Como é que assim as pessoas vivem? Como é que
podem comprar carne e peixe para comer? Eu já estou reformado e cada vez recebo
menos – vim para a Câmara rico e saio da Câmara pobre.
Deixe-me contar-lhe que o primeiro
Secretário de Estado que veio ao Carregal, foi o atual Chefe da Casa
Civil do Presidente da República, Nunes Liberato, que me convidou para eu ir
trabalhar para o gabinete dele em Lisboa. Eu disse-lhe para não me mandar para
a outra parte, porque ele não tinha idade para isso (rs). Eu perguntei-lhe o
que iria para lá fazer um indivíduo com a 4ª classe atrasada. Ele respondeu
“para fazer o que está a fazer na Câmara do Carregal do Sal”. Foi
bonito ouvir isto.
Pode dizer-se que o Sr. Presidente comeu
o pão que o diabo amassou …
Graças a Deus …. e sinto muito orgulho
nisso.
Passe a provocação, o Sr. Presidente
acaba por na última vez que vai a votos, ganhar por uma unha negra …
Olhe, mas a culpa não foi minha. Houve
pessoas que quiseram vir trabalhar comigo e eu abandonei um bocado este
mandato. A infelicidade toda foi os governantes terem colocado aqui 7
vereadores, quando 3 chegam. Tínhamos 5, passámos para 7. Deixe-me dizer-lhe
que os políticos normalmente mentem para agradar ao Zé Povinho. Eu digo às
pessoas aquilo que sinto e ajudo-as no que posso.
Uma das questões mais fraturantes do
momento para o seu concelho é a passagem dos processos judiciais Carregal para
o Tribunal de Nelas. Sabemos que vai tentar tudo para manter os processos em
Santa Comba Dão. Como vê esta situação?
Em primeiro lugar deixe-me dizer que sou
muito amigo da Presidente da Câmara de Nelas e tenho a maior estima pelos
nossos vizinhos. A questão é que nós estamos ligados umbilicalmente há muitos
anos a Santa Comba Dão, onde a população está acostumada a ir, e assim queremos
continuar. Para o efeito já marquei uma audiência com a Sra. Ministra da
Justiça. Nós não podemos é abandonar o Palácio da Justiça de Santa Comba Dão,
onde mandei eu fazer a cabeça do Salazar, para colocar na estátua, quando lha
cortaram. Eu não posso permitir que façam esta mudança. Já solicitei à Ministra
da Justiça uma audiência com caratér de urgência para tratar deste assunto e
evitar esta alteração, pois nem sequer ouviram a população e a Câmara. Mas
também não culpo a Isaura Pedro. A culpa é dos tais políticos de gabinete.
Já agora, quem não é seu amigo no
concelho? Tem alguns inimigos?
Não, sinceramente não acho que tenha. Eu
tive amigos em todos os quadrantes políticos.
O processo de reorganização
administrativa do território pressupõe a extinção de freguesias em todo o país,
sendo que no Carregal do Sal a proposta é para 3 serão agregadas – Papízios,
Sobral e Currelos. Como acha que vai terminar este processo?
Já fiz saber ao Secretário de Estado
Paulo Júlio, que podem fazer as leis como quiserem, mas no meu concelho irão
manter-se as 7 freguesias. As Juntas de Freguesia são o poder que está mais
próximo dos munícipes. Desempenham um papel muito importante – é a limpeza do
cemitério, o pedido de licença, entre outras coisas.
Recentemente foi divulgada a proposta da
Unidade Técnica e, agora que já a conhecemos e que aponta no sentido da
agregação das freguesias de Currelos, Papízios e Sobral, continuamos a entender
que o quadro das freguesias é equilibrado e responde às necessidades das
populações, pelo que serão desencadeadas diligências no sentido de encontrar a
solução que responda melhor aos anseios das nossas gentes.
Uma das personalidades que mais tem
ajudado o concelho, nos últimos 2 anos principalmente, e designadamente ao
nível da cultura e educação, tem sido o Presidente da Fundação Lapa do Lobo,
Carlos Cunha Torres. Que comentário lhe merece, como pessoa e atuação no seu
concelho da Fundação que superiormente dirige?
Sinceramente não tenho palavras para
falar desse homem, em relação ao qual tenho muita estima e admiração, não só
pelo que tem feito no Carregal, mas também o que tem feito na Fundação. Eu
conheci os avós e ele recuperou todo o património da família. Isso é muito
gratificante. Por exemplo, está a dar bolsas de estudo a muitos alunos que
precisam, estando muito ligado ao Carregal do Sal, pois está muito próximo de
nós. A Lapa do Lobo é a fronteira com o Carregal do Sal. Eu próprio vendi muita
telha ao avô do Dr. Cunha Torres.
Para terminar Sr. Presidente – após 24
anos no poder, obviamente vai estar atento ao que se vai passar a seguir. Qual
o perfil que, na sua opinião, deverá ter o seu sucessor?
Em primeiro lugar, deixe-me dizer-lhe que
não sou homem de a partir de agora ir para os cafés e as tabernas sentar-me a
andar a beber copos, mas vou “andar por aí”, sempre a trabalhar e a
dar a minha ajuda a quem precisar dela.
Sobre o
perfil do meu sucessor, deverá gostar da sua terra e ser amigo dos seus
munícipes, tratando todos de igual modo. Eu, por exemplo, nunca
separei ricos de pobres – trato-os todos de igual modo. Também nunca separei
pessoas por causa da sua cor política. Eu próprio nunca fui militante de nenhum
partido – sou do PSD e do Benfica, como simpatizante. Fui também amigo de
pessoas de todos os partidos. 

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