“As gestões municipais modernas e abertas, com oposições retrógradas, fazem sempre uma mistura explosiva”

Entrevista com Luís Pinheiro, Presidente da Junta de Canas de Senhorim

Depois de um mandato conturbado, em que teve que enfrentar a oposição dos seus colegas no executivo, que sabor teve reforçar a maioria absoluta alcançada em 2009?

É sempre triste e complicado para quem lidera qualquer processo, e neste caso uma Junta de Freguesia e o Movimento, não conseguir ultrapassar divergências ou encontrar estratégias de entendimento eficazes com quem se trabalha directamente e com quem se tem um historial comum na vida da nossa Freguesia. São divergências políticas que não se podem, de forma alguma, pessoalizar mas que me entristecem e que gostaria que não tivessem acontecido.
Não enfrentei ninguém, nem houve candidatura por qualquer revanchismo, mas sim por projectos e pela prossecução do excelente trabalho que, mesmo neste período conturbado, se conseguiu fazer, não descurando o mérito da excelente equipa que levámos a votação, e que foram reconhecidos pelos eleitores.
Claro que todas as divergências apareceram pelas políticas traçadas que, sem radicalismos ou exageros descabidos, considerei e continuo a considerar as mais ajustadas à especificidade das circunstâncias; assim, atendendo ao período que estamos a atravessar, entendo ser a única actuação possível, para não haver mais prejuízo para a Freguesia; entrando numa nova fase de entendimento e de trabalho em conjunto que, embora com passos curtos, com falhas e alguns fantasmas que ainda pairam no ar, conseguimos junto com a Câmara Municipal ir ultrapassando e tentando construir um clima de paz, amizade e, acima de tudo, de projectos e obras que nos coloquem como uma freguesia onde seja cada vez mais agradável viver.

Reafirma que Canas deve ter por direito próprio o segundo lugar na lista à Câmara da coligação e também a vice-presidência do executivo, em caso de vitória?

Neste contexto político actual, defendo intransigentemente um lugar de Canas no Executivo Camarário, por uma questão de equilíbrio e do retomar de posições que sempre nos pertenceram. Quanto à vice-presidência, não vejo isso como exigência, pois compete à Sr.ª Presidente da Câmara a decisão de com quem quer trabalhar, seleccionar a sua equipa e distribuir cargos para o funcionamento do seu executivo. Mas considero que ainda é demasiadamente cedo para serem feitos jogos de antecipação, tentando ofuscar o trabalho, lançar a confusão, fomentar a instabilidade, criando um clima onde só os malformados politicamente se conseguem movimentar e sobreviver, pois obras, apoio e ideias não fazem parte da maneira de trabalhar deste tipo de pessoas.

Foi eleito vice-presidente da comissão política concelhia do PSD, ao mesmo tempo que dizia no 2 de Agosto que os Canenses poderão tirar este executivo do poder, se as promessas com Canas não forem cumpridas …não vê nestas duas situações um conflito de interesses?

Não – as palavras deturpadas e descontextualizadas são sempre entendidas à conveniência de cada um. Em verdade, o que foi dito é que Canas tem, e já o mostrou, uma palavra forte e decisiva no xadrez político concelhio. Por isso, temos o direito à representatividade nos órgãos e temos, acima de tudo, o direito ao nosso desenvolvimento e ao cumprimento do que é previamente acordado.
Quanto ao PSD, foi uma opção na qual não vejo qualquer incompatibilidade nem constrangimento, pois terei todo o gosto em participar com quem sabe e quer trabalhar de forma honesta em prol do desenvolvimento. Tem havido deturpações sobre este lugar com possíveis opções futuras. Não faz qualquer sentido a sua discussão, pois ainda falta muito tempo e tanta coisa para fazer que todo este ruído é perfeitamente desfasado e descabido. Cada coisa a seu tempo. Essa não é a minha preocupação, não faz parte dos meus planos actuais, nem é prioridade, pois todo o processo é da exclusiva responsabilidade da Srª Presidente da Câmara.

Quais os grandes objectivos e projectos que tem em carteira para concretizar até final do mandato?

É do conhecimento geral que os objectivos deste mandato, além das pequenas obras de proximidade e de manutenção e as respostas possíveis a todos os problemas que nos são diariamente apresentados, são: o apoio às associações – tantas como 14 + alguns sectores da Fábrica da Igreja – que são o orgulho de todos nós e a mola cultural de toda a freguesia e do concelho. A Casa da Cultura, as Rotundas na EN 234, o Centro Escolar, a pavimentação de algumas ruas e passeios, a ampliação do cemitério, o PDM, a rede de esgotos e a construção de uma nova ETAR que resolva definitivamente o problema da malha mais urbanizada de Canas (envolvente da Escola) e a zona Industrial, são as principais prioridades e preocupações que vamos tentar responder dentro da medida possível.

Quais as grandes carências da sua freguesia neste momento? Um dos aspectos mais preocupantes diz respeito à zona industrial da Ribeirinha, que continua num impasse … o que nos pode adiantar sobre este dossier?

As carências são muitas e o abandono de 20 anos está à vista e é difícil de resolver em tempo recorde. No entanto, estamos a trabalhar em conjunto e em perfeita colaboração com a Câmara e penso ser este o caminho certo para colmatar este problema. Claro que todos queríamos mais e mais rápido, mas temos de entender que há muito trabalho a fazer e não se pode fazer tudo de um dia para o outro; não obstante, embora com alguma falhas e coisas menos conseguidas, penso que a Sr.ª Presidente da Câmara e o seu Executivo, e se me permitem a Junta de Freguesia, temos de estar orgulhosos do trabalho feito e da forma como soubemos lidar e resolver os problemas no sentido da construção de uma Vila que tenha as melhores condições de vida para o nosso Povo, reconhecendo as dificuldades económicas que se estão a abater sobre todos nós e que, se calhar, não nos vão permitir concretizar tudo o que desejamos; porém tenho a certeza de que vamos dar o máximo para contornar todas as dificuldades.
Quanto à Zona Industrial da Ribeirinha, é preciso perceber o passado Industrial de Canas e a atrocidade cometida por anteriores executivos camarários ao conceberem uma zona industrial em Nelas para a saída de Mangualde, deixando toda a infra-estrutura dos antigos Fornos Eléctricos – que são ainda hoje um espaço privilegiado para instalação industrial – e toda a zona envolvente, por um capricho revanchista e por falta de visão estratégica do problema que se abateu sobre a Terra mais industrializada do Distrito. Por pouco mais valor do que a compra de uma determinada quinta em Nelas para a Zona Industrial, teria negociado todo o terreno e passivo daquele espaço industrial.
Perante este facto, hoje confrontamo-nos com uma realidade que é a ZI de Nelas, que apresenta uma resposta séria para a implementação de indústrias no concelho; quanto ao flagelo do desemprego e do fecho consecutivo de indústrias, torna-se urgente dar as mãos neste campo, trazendo o maior número de empresários que objectivem a criação de emprego.
No entanto, a ZI da Ribeirinha, além do que já tem, neste momento cedeu 4 lotes para implementação de empresas que se encontram em fase adiantada de licenciamento e continuamos a fazer todos os esforços para a instalação de mais empresas, mas considero que, para além deste espaço, se deve investir mais entre Canas e a Borgstena, numa tentativa de ligação e proximidade do tecido empresarial. Estamos, portanto, a trabalhar no sentido de superar e minimizar todo este problema.
O que se passou com a Beiracer, que supostamente queria construir novas instalações em Canas e acabou por ter que descolar esse investimento para Nelas?
Esse processo é da inteira responsabilidade da empresa que poderia ter construído neste espaço onde se estão a instalar os 4 empresários acima referidos, mas o processo exigia respostas rápidas, e penso que a política empresarial da Beiracer passa por outros planos. Foi um golpe duro para os Canenses que vêem partir uma das maiores empresas da Terra, mas temos de aceitar as decisões e desejar as maiores felicidades, pois, infelizmente a empresa saiu, mas as famílias ficaram porque é bom viver em Canas.

Receia que possam acontecer no futuro situações idênticas, deixando Canas com menos empresas instaladas, em detrimento da sede do concelho?

Já pouco há para sair. A política que atrás mencionei determinou o destino empresarial de Canas e agora alguém tem de “apanhar os cacos”, e o mais constrangedor é que alguns dos que mais falam e deturpam a verdade são os que têm mais responsabilidades neste processo.

A área empresarial está na ordem do dia, com o desemprego a disparar no país. O que poderá fazer como autarca para minimizar este flagelo, que também tem afectado a sua freguesia?

Infelizmente é um flagelo que, pelos menos relação à Junta de Freguesia, a deixa impotente e com poucas soluções, mas temos a determinação e vontade de, em parceria com a Câmara Municipal, fazermos tudo o que é possível para ultrapassar esta difícil situação. Numa política de conjunto e sem deturpação do que é óbvio, este concelho tem um potencial enorme em várias áreas que estão por explorar e podem, efectivamente, fixar pessoas e arranjar postos de trabalho e, claro, Canas é uma Terra onde é bonito viver, onde queremos apostar na qualidade de vida dos cidadãos, na implementação de novas empresas e comércio, na continuidade de uma escola de excelência que temos e na qualidade da oferta cultural que possuímos. Muito se pode fazer se abrirmos os horizontes e não olharmos sempre para o mesmo lado e da mesma forma, pois muitos projectos pequenos podem tornar grandes as ofertas.

A Casa da Cultura irá finalmente arrancar na Casa do Frazão, tendo a Câmara já inscrito no orçamento de 2011 o montante de 175 mil euros para esse projecto. Pensa inaugurar ainda neste mandato este equipamento estruturante para a freguesia?

É essa a perspectiva, embora conhecendo as dificuldades e o longo caminho a percorrer; certo é já que uma das partes – aquisição do terreno – está em fase de conclusão e penso ser o passo principal, para além da vontade e do empenho demonstrados pela Câmara Municipal no andamento desta estruturante obra.
Esta obra pretende albergar vários serviços – 2 associações, biblioteca, sala de espectáculos, museu, mediateca e espaço multicultural, ponderando-se até a hipótese de a própria Junta de Freguesia estabelecer ali a sua sede, para rentabilizar os recursos neste tipo de infra-estruturas e mesmo na sua manutenção. Parece ser indiscutível tratar-se de uma excelente ideia: revitalizar a zona histórica da Rua do Paço que está a ficar esquecida e deserta de pessoas; a própria ligação entre esta e a Escola com um loteamento vai dinamizar e humanizar todo aquele espaço que tanto carinho e atenção nos merecem.
A nossa tradição cultural e a perda de um dos grandes palcos de Canas (instalado no antigo quartel dos Bombeiros), foi uma enorme perda que merece ser reposta num palco com condições e qualidade para a elaboração de espectáculos.

Algumas instituições da freguesia preparam-se para avançar para alguns investimentos estruturantes, como sejam a ampliação do lar e do quartel dos bombeiros. Que importância atribui a estes investimentos e que apoios a Junta lhes poderá conceder?

Todos os investimentos na freguesia são de extrema necessidade, pois o abandono foi de tal ordem que vão ser precisos muitos anos e muito entendimento para se recuperarem.
Nestes casos concretos, a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia estabeleceram protocolos para estas obras. Claro que a ajuda da freguesia é pouca, mas a verdade é que os nossos projectos são afectados e obriga-nos a reestruturar toda a política traçada para estes 4 anos, mas temos de dar as mãos e avançar, pois são também obras de extrema importância para Freguesia, que além da comparticipação do Estado e das Instituições são igualmente obras da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia.

Como vê o previsível adiamento dos IC12 e IC37?

É mais um. Não entendo a razão pela qual, na parte sul do distrito de Viseu, sendo uma das mais desenvolvidas e estando num eixo estratégico de tráfego estas obras são constantemente adiadas, por vezes em detrimento de outras que, tendo também a sua importância, não serão com toda a certeza uma prioridade no desenvolvimento sustentado do distrito.
Claro que, se pensarmos um bocadinho, tudo isto terá a ver com o facto de, há muitos anos consecutivos, não existirem deputados na Assembleia da República deste lado “sul” e isso explica toda esta falta de investimento, esquecimento e consecutivos adiamentos – faça-se as contas às obras e à proveniência dos obreiros. É altura de esta zona se unir e preparar melhor quem os represente e defenda aos mais diversos níveis.
Depois de tanto aproveitamento político em torno desta discussão e de termos chegado a um entendimento que mais servia o Concelho, lá vai outra vez tudo por água abaixo. Será que interessava a alguém que está na oposição esta discussão no tempo em que ela ocorreu? Manobras de diversão…

Aparentemente o concelho está nesta altura totalmente pacificado … é incontornável colocar-lhe esta questão – foram enterrados de vez os machados de guerra?

Não entendo… numa “luta”, as armas nunca são enterradas, mas sim oleadas, guardadas e fechadas no armeiro, cumpre-se, de ambos os lados, o acordo de paz, fazem-se cedências comuns onde é preciso, entendem-se as posições de cada um, acabam-se com os radicalismos, e, de forma honesta, trabalha-se para um futuro comum melhor para todos, aprendendo com os erros e aproveitando as virtudes e as portas que abrem.

Como avalia a saúde da coligação na actualidade, quando correm rumores de algum mau ambiente no seu seio, e qual a sua relação com o executivo?

As gestões municipais modernas e abertas, com oposições retrógradas e algumas mentes controversas, fazem sempre uma mistura explosiva.
Repare que este concelho esteve governado por uma só cabeça durante quase duas décadas, num regime totalitário, virado para quase só uma localidade, sem consciência do colectivo, e numa concentração doentia do poder que a todos nós custou caro; porém, mais custa ainda compactuar com algumas cabeças que ainda julgam que aquela era e será a única maneira de governar uma câmara e de trazer todos os munícipes de chapéu na mão a solicitar ao “senhor” alguma ajuda ou intervenção.
Claro que esses tempos passaram e este segundo castigo foi perfeitamente esclarecedor, mas a marca e os livros ficaram nalgumas cabeças que teimam em não perceber e tudo fazem para perturbar, denegrir e voltar ao passado.
A gestão moderna exige uma grande atenção, abertura e controlo da Presidente da Câmara pois, o facto de governar com sectores com rosto e autonomia, como forma de dar uma resposta rápida e mais eficaz aos problemas que vão aparecendo aos mais diversos níveis, é uma forma correcta e inteligente de trabalhar, mas cria sempre algumas dificuldades. Estas dificuldades prendem-se com o esforço de cada vereador em fazer o melhor no seu sector e tentar dar o máximo de resposta que, por vezes, pode criar alguns constrangimentos e alguma discussão interna própria de quem sabe e quer trabalhar que, de forma maliciosa, são confundidos cá fora com mau ambiente.
A Srª Presidente da Câmara tem sabido com mestria e inteligência usar esta forma de gestão, sabendo controlar, gerir conflitos, resolver problemas e tomar as decisões do todo camarário pela qual é a principal responsável e, na minha perspectiva, está a fazê-lo muito bem e deve continuar.
Quanto à coligação, no meu modo de ver acho que vai bem e recomenda-se e não vejo de forma alguma a Câmara caminhar sem coligação; tudo isto são rumores que tentam ofuscar o excelente trabalho que foi feito no último mandato, que a todos deve orgulhar, e que coloca a Sr.ª Presidente da Câmara na vanguarda da gestão moderna com um trabalho notável a nível de todas as freguesias.
Claro que muito falta fazer, muita resposta há para dar, muito ficou por fazer, algumas coisas menos bem conseguidas, mas só o trabalho e a excelente relação entre a Câmara Municipal no seu todo com as pessoas onde me incluo é que conseguiram este êxito. Vejo um excelente ambiente entre todos e uma grande abertura para a discussão – por vezes até acalorada e confundida com mau ambiente – na resolução de problemas. Portanto, a minha relação é excelente com o todo camarário e estou disposto a continuar a trabalhar na “re”construção de um futuro melhor para todos.

2 comentários em ““As gestões municipais modernas e abertas, com oposições retrógradas, fazem sempre uma mistura explosiva””

  1. que verborreia demagógica de um ex-futuro candidadto a presidente da câmara de canas e actual ex-futuro presidente da câmara de nelas.
    Alguém que se esqueceu num passado recente tudo fez para acincalhar Nelas e a sua Câmara, hoje, á boa maneira de um mercenário guerrilha a sua ex-terra

  2. A beiracer podia ter construido em Canas se a Câmara (a actual) a pedido do presidente da junta, não tivesse anulado os lotes concedidos em 1996 na Z. Ind. da Ribeirinha Zona III e simultâneamente concedesse os lotes na Zona Industrial de nelas- Zona I

    diga a verdade senhor prexidente da junta

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