“Existimos para ajudar as pessoas”


– A meritória obra social da Santa Casa de Santar continua a demonstrar uma vitalidade e dinâmica que a tornam uma das principais em toda a região. A provedora Infância Pamplona dá-nos conta dos projectos que dirige, designadamente a magnífica recuperação arquitectónica da igreja de Santar.

Em que consistem as obras de requalificação da Igreja da Misericórdia de Santar, que já iniciaram?

Falar sobre as obras de requalificação da Igreja da Misericórdia, obriga a que se fale sobre o valor Patrimonial que a mesma representa, uma vez que se trata de um imóvel, cuja época de construção faseada, se situa entre os Séculos XVII, XVIII e XIX, com uma arquitectura religiosa maneirista, barroca, rococó e oitocentista.
Realça-se no seu interior o arco triunfal retabular que preenche a totalidade do frontispício, executado em 1779, desconhecendo-se a identidade do mestre responsável pelo risco e pelo entalhe, tendo em 1900 sido aplicada a policromia pelo mestre Pintor Cristóvão Rodrigues Loureiro.
Os retábulos colaterais são devocionais a um único tema, integrando-se o conjunto do frontispício numa tipologia pouco frequente: a dos arcos triunfais retabulares.
Na capela-mor, para além do retábulo principal, interessante exemplar dos meados do século XVII, referem-se as tribunas existentes nas paredes laterais.
Por se tratar de uma Igreja com as características descritas, foi classificada pelo Ministério da Educação Nacional, Direcção Geral do Ensino Superior e das Belas Artes, através do Decreto n.º 47 508, de 24/01/1967, de Interesse Público.
Ao longo dos séculos, o tempo foi deixando marcas e sinais evidentes de degradação, que muito têm preocupado as Mesas Administrativas que passaram por esta Santa Casa. Muitos foram os contactos estabelecidos com o Ministério da Cultura, no sentido de serem feitas avaliações do seu estado de degradação e obter pareceres favoráveis à sua requalificação.
E foi graças a esses contactos, que temos em nosso poder vários pareceres do IPPAR, sendo que o último de 2008, nos dá conta da urgência de uma intervenção prioritária a nível do telhado, uma vez que estamos a falar de obras que envolvem verbas avultadas.
Esta Mesa Administrativa decidiu, mesmo sem apoios, dar início a essa intervenção, consciente de que se o não fizesse, este Inverno poderia colocar em risco o valor Patrimonial que esta Igreja representa para a Santa Casa, para Santar, para o Concelho e para o País.
Os investimentos centram-se principalmente na cobertura integral da Igreja. Estamos a proceder a toda a sua substituição, isto porque queremos que seja uma obra para durar mais de 100 anos. Tivemos o cuidado de usar madeira importada e tratada para os vigamentos. Como medida de modernização mas também de preservação, isolamos todo o vigamento com placas de madeira, isolamento, roofmate e onduline e só depois se procedeu à colocação das telhas, tudo isto de acordo com as recomendações do IGESPPAR.
Os coros interiores que já se encontravam vedados ao público vão também ser objecto de intervenção, bem como o tecto da nave central.
O sistema eléctrico vai ser todo renovado, procedendo-se à electrificação do interior da Igreja e à iluminação da Torre sineira, seguindo escrupulosamente as orientações do referido Instituto.
Os sinos estão a ser objecto de recuperação com o restauro dos cabeçalhos e soldadura e iremos proceder à automatização dos mesmos, bem como do relógio da torre.
Por último, a Igreja da Misericórdia vai ser pintada, respeitando as cores originais e a sua pedra limpa, usando as técnicas indicadas. Todas estas obras foram acompanhadas por um Técnico do IGESPAR que aqui se deslocou para verificar os procedimentos e a execução das mesmas.
Temos consciência que o seu interior carece de outras intervenções, mas é uma obra que se fará de forma faseada e acreditamos que em breve lhe daremos continuidade.

Qual o seu custo total e para quando está prevista a sua conclusão?

Quando se inicia uma obra de requalificação num edifício multissecular como este de que estamos a falar, sabemos o custo estimado da mesma, mas não sabemos que outros custos adicionais advirão, fruto de razões supervenientes e imprevisíveis. Nesta primeira fase de requalificação, prevemos gastar cerca de 100 000 € e desejaríamos que as obras estivessem concluídas por altura da Festa da Santa Eufémia, festa religiosa da responsabilidade desta Santa Casa, o que poderá não acontecer, por necessidade de executar obras no interior da Igreja, que requerem minúcia e tempo.

Que investimentos de beneficiação e modernização têm actualmente em curso e que outros têm projectados, para além das referidas obras na Igreja?

Desde há três anos a esta parte, que apostámos em investimentos de beneficiação e modernização, nomeadamente ao nível da requalificação das instalações do Centro de Dia, cozinha, renovação do parque automóvel com a aquisição de 3 novos veículos, equipamentos móveis e instalação de Painéis Solares.
Graças a uma gestão rigorosa acabámos com o passivo da Santa Casa da Misericórdia de Santar, facto que tornou possível que este ano, as Obras da Igreja tenham sido a nossa prioridade e a sua concretização seja hoje uma realidade.
Quanto a projectos que desejamos materializar, para além dos anteriormente referidos, a Santa Casa possui um vasto e rico acervo. É imprescindível que se faça uma inventariação de todo o seu espólio documental e das peças de arte sacra, tendo em vista a criação de um Arquivo Histórico que será de todo o interesse que se conheça e se possa tornar público, através de exposições temáticas. Estamos apostados na realização deste projecto
Estamos neste momento, também, a trabalhar num projecto na área da saúde de que vos falarei mais tarde.

Que funções desempenha actualmente na União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e que importância lhe atribui?

A UMP é como o nome indica o órgão que representa as cerca de 400 Misericórdias do País. Fui convidada a integrar a lista que iria ser sufragada para a eleição do Secretariado Nacional para o triénio 2010-2012, pelo Dr. Manuel de Lemos, seu Presidente. Foi um convite que me honrou e me responsabiliza de um modo muito particular, uma vez que sou a primeira Mulher a integrar este órgão desde que foi constituído (33 anos), mas também, o reconhecimento do meu trabalho e dedicação a estas Instituições.
Tenho a responsabilidade de coordenar 4 Secretariados Regionais (Viseu, Guarda, Coimbra e Leiria) e ainda assumo o Pelouro do Voluntariado das Misericórdias do País e o Movimento Jovem de Voluntariado – Juvecórdia.
É necessário chamar à atenção dos jovens que devem ser socialmente solidários, como forma de expressão de cidadania plena e assumir um papel interventivo numa sociedade nem sempre participativa. O voluntariado como uma extensão da solidariedade é um factor de coesão social e um poderoso meio para a transformação do Mundo.
Porque acredito que é possível construir uma sociedade mais justa e equitativa, baseada num novo paradigma social e económico, estou empenhada em colaborar e em dar o meu contributo, com humildade mas com determinação para que o Papel das Misericórdias em Portugal continue a ser uma referência, pois desde a sua fundação até aos nossos dias, o voluntariado é uma presença constante na Missão das Misericórdias e merecem ser consideradas como as pioneiras do voluntariado em Portugal.
Os pedidos de auxílio à Vossa Instituição têm aumentado neste período em que a crise económica afecta cada vez mais pessoas, com o surgimento dos chamados “novos pobres”
Temos consciência que este período que atravessamos, tem afectado muitas famílias e embora os pedidos de auxílio se tenham verificado mais ao nível de fornecimento de refeições, também nos chegam muitos pedidos de emprego. Se relativamente ao segundo aspecto não conseguimos dar resposta a todas as solicitações, o mesmo não acontece em relação ao primeiro, uma vez que, nunca deixamos de apoiar quem nos pede auxílio. Fazemo-lo depois de avaliada a situação, umas vezes de forma totalmente gratuita e noutras, abaixo do custo do serviço prestado.
Agimos de acordo com as 14 obras de Misericórdia e em momentos particularmente difíceis, estamos ainda mais atentos a todos os sinais que demonstrem essas dificuldades e prontos a ajudar.

Tem vindo a público casos de famílias que acabam por retirar os idosos das instituições devido a dificuldades por que estão a passar. Registaram já algum caso desse género?

Não temos casos de utentes que tenham abandonado/saído dos nossos serviços, mas como referi, atentos que estamos a todos os sinais de carência, agimos de acordo com as nossas possibilidades, evitando deste modo, que essas situações possam vir a ocorrer, tanto mais que, não podemos deixar que aqueles que são os mais frágeis pela sua condição económica e física, sejam os que mais sofram.
Como é do conhecimento geral, a principal cooperação que as Instituições de Solidariedade Social têm é proveniente da Segurança Social, estabelecida através de Protocolos. Apesar dessa comparticipação rondar somente cerca de 35%, é um apoio fundamental para o desenvolvimento da acção social que se presta à população que dela necessita. Para completar as restantes verbas, a Misericórdia tem que recorrer à comparticipação das famílias e a receitas próprias e aí constatamos que estão com dificuldades em comparticipar

Que mecanismos as instituições poderão accionar, designadamente a cooperação com outros organismos de apoio, para fazer face a esta situação?

A Cooperação que estabelece em rede com diversas entidades e organismos públicos é um dos meios que podemos e devemos potenciar, no sentido de se encontrarem as melhores soluções para os casos que frequentemente surgem com as mais variadas carências.
Precisamos que o Poder Local olhe para as Instituições que prestam serviço social e que exista cooperação efectiva.
Mas o desafio da actualidade é a associação entre Voluntariado e conceitos como Responsabilidade, Compromisso, Direitos e Deveres, já que é uma actividade inerente ao exercício de cidadania que se traduz numa relação solidária para com o próximo, participando de uma forma livre, responsável e organizada, na solução dos problemas que afectam a sociedade em geral. A solidariedade que os voluntários de forma organizada mas consciente podem prestar aos cidadãos em cooperação com as Instituições, poderá ser sem dúvida, um apoio deveras eficaz na ajuda de estabelecimento de redes de proximidade, afecto e uma Missão nos dias de Hoje.
Depois, cada Instituição em função do seu Plano de Acção e no caso da Santa Casa da Misericórdia de Santar, em função da sua capacidade económica presta todo o apoio. Muito desse apoio só é possível ser dado, graças ao trabalho que Provedora e restantes Membros da Mesa Administrativa fazem de forma gratuita e voluntária.

Que carências e maiores dificuldades enfrenta a vossa instituição? Os meios ao vosso dispor considera serem suficientes para suprir as necessidades na vossa área de actuação?

As dificuldades são as normais de Instituições cujo fim não passa pela obtenção de lucros mas, tão somente, na procura do bem estar e na satisfação das necessidades básicas de todos os que precisam de ajuda.
Esta realidade faz com que tenhamos de estar atentos ao nosso orçamento e à evolução económica e financeira a nível nacional, pelo que dedico a esta matéria uma atenção especial, no sentido de poder tomar novas medidas em função dos novos desafios que se nos colocarão.
Nós existimos para ajudar as pessoas mas é preciso que se perceba, que o sector social não é o sector privado, mas um terceiro sector, com regras próprias. Prestamos serviços, criamos postos de trabalho e ajudamos também a criar riqueza.
Quantos utentes e funcionários têm actualmente nas diversas valências?
A Santa Casa da Misericórdia actua na área do Idoso e da Saúde. Presta apoio no Centro de Dia a cerca de 18 utentes e no Apoio Domiciliário a cerca de 65.
Para a área da Saúde possui uma Unidade de Cuidados Continuados Integrados de Longa Duração e Manutenção, com capacidade para 21 utentes, que tem estado lotada desde a sua criação.
Confeccionamos ainda cerca de 300 refeições diárias, em período de aulas, uma vez que cerca de 180, se destinam a alunos de Escolas e Jardins de Infância, conforme protocolo estabelecido com a Câmara Municipal de Nelas.
O nosso quadro de colaboradores directos afectos às valências de Centro de Dia e Apoio Domiciliário é de 22 incluindo Ajudantes de Lar, Centro de Dia, Nutricionista, Cozinheiras, Ajudantes de Cozinha, Administrativa, Técnica Superior de Acção Social e Psicóloga.
Na Unidade de Cuidados Continuados contamos com 12 Auxiliares de Acção Médica e 14 colaboradores entre Médicos, Médica Fisiatra, Enfermeiros, Fisioterapeuta, Terapeuta Ocupacional, Directora Técnica, Psicóloga e Administrativa. Temos ainda três estagiários nas Áreas da Saúde e Acção Social, o que perfaz um total de 50 colaboradores.
Já ponderaram partir para a construção de um lar de idosos inexistente em Santar? Ao que sabemos está actualmente em curso um projecto privado na freguesia…
Temos projecto, temos terreno e temos vontade, pelo que a sua construção está no nosso horizonte, aguardando candidaturas para o efeito.
Estamos também fortemente empenhados num projecto a desenvolver na área da saúde, como já anteriormente referi.
Quanto à construção de um lar privado na Freguesia nada se me oferece dizer sobre o assunto, uma vez que a qualquer cidadão assiste o direito de concretizar os seus projectos, muito embora o lar a ser construído pela Santa Casa, terá como destinatários utentes com outros recursos.

Que balanço faz da organização das festividades da Semana Santa deste Ano e que outros eventos e actividades têm programado realizar ainda este ano?

O balanço foi muito positivo. Desde os cartazes, os flyers, as bandeiras que pela primeira vez foram penduradas nas ruas por onde as Procissões passaram (o que foi do agrado de quantos cá vivem e nos visitaram), o número significativo de irmãos que se integraram nas Cerimónias, o crescente número de inscrições de irmãos jovens, os milhares de visitantes que se deslocaram à Vila de Santar, os fogaréus e as cerimónias litúrgicas com a participação de vários sacerdotes, ajudaram a dar maior visibilidade às cerimónias que são da total responsabilidade desta Santa Casa e o principal evento religioso do Concelho.
É ainda de realçar o elevado sentido de respeito e solenidade de que se revestiram todos estes actos religiosos.
Por tudo isto, penso que temos criadas condições para acreditar num futuro de continuidade na aposta desta iniciativa e nos valores que norteiam a Santa Casa da Misericórdia de Santar.
Temos para além destas, as cerimónias da Nossa Senhora das Misericórdias que se realizam todos os anos no dia 31 de Maio ou no 1.º Domingo de Junho, a Missa Anual por intenção do Donatário D. Lopo da Cunho e Irmãos falecidos, a 11 de Novembro e a da Santa Eufémia a 16 de Setembro.
Este ano, na Festa de Santa Eufémia iremos alargar a sua vertente cultural com um programa que decorrerá até ao dia 19, com um leque variado de actividades e animação. Pensamos com este evento, conseguir angariar fundos, que nos ajudem a minimizar o custo das obras da Igreja.
Contamos com a participação de toda a Comunidade e amigos da Santa Casa da Misericórdia de Santar. Precisamos que nos ajudem para que também nós possamos ajudar. Temos confiança, fé e vontade de querer Bem Servir, pois com humildade mas com determinação, podemos com a doação do nosso tempo a favor das pequenas coisas, transformar pequenos feitos, em grandes feitos.

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