Por que a maioria dos brasileiros perdeu interesse na Copa? Opinião por Rosangela Araújo

Cotada como uma das favoritas ao título mundial, o hexa se for campeã, a Seleção Brasileira não entrará em campo na Copa do Mundo da Rússia com 100% dos brasileiros na torcida por mais uma conquista. A economia fragilizada, somada à crise política, afetaram o País do Futebol de tal forma, que mais de metade da nação demonstra total desinteresse no campeonato. Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha, divulgada na terça-feira, 12, Dia dos Namorados, revelou que a paixão do brasileiro pelo tão esperado evento esportivo esfriou e bateu recorde no quesito desânimo.

Às vésperas do Mundial, 53% dos brasileiros afirmam não ter nenhum interesse pela Copa. Os indícios da desafeição são percebidos em toda parte. O comércio sofre com a baixa nas vendas. As tradicionais camisas amarelas disputadas nas copas anteriores, em 2018 enfeitam apenas vitrines de lojas e se amontoam nas barracas ambulantes. As barulhentas vuvuzelas dividem prateleiras empilhadas com chapéus, apitos, bandeiras e outros adereços usados para caracterizar com dignidade qualquer torcedor. A apatia dos consumidores desesperam vendedores. Comerciantes somam prejuízos.

Infelizmente, esta não é a impressão de um torcedor agourento ou adversário. Tais conclusões estão carimbadas na pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), divulgada esta semana. O resultado confirma que apenas 24% das famílias brasileiras estão dispostas a ir às compras durante a Copa e adquirir produtos relacionados ao Mundial. O número é menos da metade do registrado em 2014, com  50,1% de intenções de consumo.

A ausência de consumidores tem mais de uma explicação. Há quem acredite que a goleada de 7 a 1 da Alemanha na última Copa seja o motivo. Engana-se. A seleção perdeu outros mundiais e nem por isso deixou de ser venerada. Afinal, é a única penta campeã. Venceu os campeonatos de 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002. Continua sendo uma das mais temidas. Respeitada. O time de Tite tem chances! É um dos favoritos, na opinião a imprensa internacional e especialistas em futebol. Então, se a seleção está em alta, o que motiva o desinteresse da maioria? A sucessão de acontecimentos negativos no país é uma resposta a ser levada em conta.

O último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovou que mais de 13 milhões de pessoas estão desempregadas no país. A reforma trabalhista, com a retirada de direitos e alterações no sistema de contratações, acentuou o desemprego e a desvalorização da massa trabalhadora. A política de preços adotada pelo governo para os combustíveis provocou uma das piores situações vivenciadas pelos brasileiros nas últimas décadas, com a paralisação dos caminhoneiros. O país praticamente parou durante os 11 dias de greve e as consequências, ainda evidentes, afetaram todas as classes sociais.

O protesto elevou o preço da gasolina e do etanol. Faltou combustível. Faltou alimento e gás de cozinha. Faltou desenvoltura dos governantes para lidar com o caos. Os preços dispararam. A população pagou o ‘pato’. Em um ano de Eleições Presidenciais, com previsão de turbulência, o descrédito nacional assumiu ares gigantes e se espalhou pelo país. A população foi afetada. A maior parte, com desesperança. Para driblar a crise, a maioria tem focado suas forças na sobrevivência, e nessa jornada, o futebol perdeu afeto. Sobram preocupações. Falta coragem para torcer. A Copa  ficou em outro plano. A prioridade é sobreviver. Se o Brasil for campeão, todos vão adorar. Comemorar? Talvez. Se perder, será só mais uma derrota a contabilizar. Pelo menos, para a maioria  desinteressada no Mundial, que pelo visto, parece pouco se importar.

Rosangela Araújo

Jornalista

Brasil

Este portal utiliza cookies. Ao navegar no site estará a consentir a sua utilização Saiba mais sobre privacidade e cookies