“Ladrão das Memórias”. António Leal dá pistas sobre a nova produção “Nem tudo o tempo Levou”

Começa com pequenas coisas. O sal que se troca por açúcar. A cafeteira eléctrica que se põe a aquecer no bico do gás. Ou uma confusão momentânea de nomes. Parecem meras distrações de uma vida cheia de afazeres. Aos poucos, as pequenas distrações assumem a importância de doença. Tornam-se frequentes, teimosas, persistentes e, finalmente, definitivas. E, um dia, o sal deixa de ser sal para sempre. E o açúcar parece que nunca existiu. E os nomes apagam-se, juntamente com as caras que lhes faziam morada.

Fica-se preso a uma memória antiga, diz-se. E o que se lembra, quando ainda se lembra, de repente, faz parte de uma história de meninice que, em tempos de memória saudável, estava esquecida. Tenho medo, confesso. Acho muito triste perder este cordão umbilical à vida que são as memórias dos nossos dias e das nossas pessoas. Deve ser uma solidão imensa. Um buraco escuro, sem ninguém, com tanta gente à nossa volta. Mas a verdade é que pode acontecer. A qualquer um de nós. Porque, apesar de o homem ir à Lua e a Marte, inventar máquinas que falam por nós, andam por nós e pensam por nós e casas inteligentes que nos defendem de ladrões, muito antes mesmo de eles sonharem vir nos assaltar… apesar de tudo isso… ninguém ainda conseguiu defender-nos da solidão de uma memória vazia. Ainda ninguém inventou qualquer coisa que nos defendesse do Ladrão das Memórias.

Talvez o mundo científico e “inteligente” esteja demasiado ocupado a lembrar-se de investir em armas de destruição massiva e em sistemas de defesa antimíssil. Ou a lembrar-se de gerar dinheiro e interesses económicos avessos a curas e mais propensos a doenças crónicas. Talvez o mundo esteja ocupado a lembrar-se que convém que, lá para 2030 – como prevê a Organização Mundial de Saúde – cerca de 75,6 milhões de pessoas se esqueçam quem são e quem têm de seu.

Eu, que gosto de me lembrar da Vida para sempre, gostava de conseguir esquecer-me deste mundo que passa a vida a lembrar-se do que não interessa realmente lembrar.

Nota: “Nem Tudo o Tempo Levou” Dias 29, 30 e 31 de março em Carregal do Sal e dia 10 de abril em Tábua

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