O SAL e Carregal do Sal … por Armando Fernandes

“A religião quer-se como o sal na comida, nem muito, nem pouco, só o preciso.” 
D. António Alves Martins, Bispo de Viseu

Em matéria de sal na comida perfilho o preconizado pelo Bispo liberal que tanto incómodo causou aos reaccionários miguelistas a ponto de o condenarem à morte. O meu paladar acusa de imediato o seu excesso, no entanto, não o excomungo até porque concede sabor aos produtos e consequentemente à comida. Uma comida sem sal é desenxabida, chocha, enfadonha. Uma sonsa é destituída de salero, assim o afirmam galantes e falantes da língua de Cervantes. Nós precisamos: mulher sem graça, afastada de um laivo de garridice.

Ascendem a sete ou oito centenas as aplicações do sal, das várias categorias de sais e cristais. Para a maioria das pessoas sal é o conjunto de grãos ou flor cuja aplicação maioritária se desenrola na cozinha. No entanto, o sal foi elemento estratégico durante milénios, não por acaso a palavra salário deriva de sal, os legionários romanos recebiam parte do pagamento em sal, povos privados do «outo branco» percorriam centenas de quilómetros a procurá-lo, chegando a matar os animais a fim de beberem o sangue impregnado de sais.

É longa, fascinante e instrutiva a história do sal, pensemos nas localidades que o integram no seu bilhete de identidade – Alcácer do Sal, Carregal do Sal, Salzburgo. Concelho banhado pelo mar de onde se extraia disputado cloreto de sódio, os anais referem a alta qualidade do sal vindo do estuário do Sado e muito disputado pelos povos do Norte da Europa, a vila de Carregal era posto de abastecimento, e a cidade musical austríaca tão famosa por ali ter nascido o genial Mozart, também porque das minas de sal construíram uma importante indústria cultural.

As pessoas carregadas de anos associam o sal à conservação dos alimentos. Sem ele a formidável reserva de gorduras das pessoas de menores recursos não podiam preparar as mantas de toucinho – os presuntos eram vendidos ou trocados pelo dito toucinho essencial na economia doméstica das comunidades rurais portuguesas em épocas de aldeias e vilas prenhas de população.

Os atributos do sal na medicina e farmacopeia medieval são significativos, basta consultar o Tratado de Pedro Hispano (Papa português) e de imediato verificamos a sal valia.

No espaço do simbólico acontece o mesmo, seja nas religiões (cerimónias festivas e fúnebres), seja no círculo dos exércitos e expressividades guerreiras, seja no misterioso e perigoso dos mistérios e ritos de bruxaria e feitiçaria.

O sal é também símbolo de agasalho e hospitalidade, leiam-se os cronicões, dar umas pedras do mesmo aos pobres de pedir integravam o cumprimento de uma obra de Misericórdia, são sete as corporais, a primeira integra-o, por assim ser numerosos lares terem dependurado à entrada da porta uma bolsinha contendo-o na companhia de uma rosca. Eis a ingente dupla: pão e sal.

O seu consumo excessivo produz maleitas a quem o pratica, manda a prudência não abusarmos, manda a astúcia seguirmos o conselho do Bispo exímio jogador de voltarete e sapiente apreciador de pitanças que sem a presença de sal não passavam de comeres enfa

In : http://www.mediotejo.net/o-sal-por-armando-fernandes/

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