Tudo o que faltava saber sobre Aristides de Sousa Mendes

Em 1927, o jovem diplomata Aristides de Sousa Mendes, então com 42 anos, era bem visto pela ditadura militar que governava o País. Fora nomeado cônsul em Vigo, cidade portuária à época de importância crescente em Espanha e na Europa, devido à localização geográfica e ao desenvolvimento de indústrias, sobretudo a pesqueira, de grande potencial para atrair trabalhadores portugueses. Em resumo, Aristides via a indicação para Vigo, um posto de confiança do Governo, como um sinal de que a sua carreira seguia um auspicioso caminho.

A vida decorria sem percalços quando, num dia de 1928, o cônsul foi chamado a Lisboa, para tratar de um assunto “discreto e delicado”. Adivinhava-se uma qualquer “missão secreta”, mas nada que impedisse que a família acompanhasse Aristides, como sempre acontecera. À partida, num carro espaçoso e resistente, lá se enfiaram todos dentro do automóvel, o cônsul e a mulher, Maria Angelina, ou Gigi, os 11 filhos que na altura já tinham e “a Borges”, fiel empregada. Aristides e Maria Angelina conheciam-se desde pequenos. Cedo se apaixonaram e logo se casaram, em 1908. Ele tinha 23 anos e ela apenas 20, e eram duplamente primos em primeiro grau. Ou seja, ambos os sogros de Aristides eram irmãos dos seus pais. Em 1933, o casal chegou aos 14 filhos – nove rapazes e cinco raparigas.

Por agora, estamos com 11 deles, encafuados num automóvel, e os mais velhos a especularem em sussurros sobre o motivo da imprevista viagem a Lisboa. Mas nem a mais fértil imaginação anteciparia a “missão secreta” em que depois participaram. Ainda pernoitaram na moradia da família, a Casa do Passal, na aldeia de Cabanas de Viriato, em Carregal do Sal (Viseu). 
E, manhã cedo, arrancaram (todos…) para a capital. Em Lisboa, no Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE), Aristides de Sousa Mendes, profundamente religioso, recebeu com satisfação a incumbência “discreta e delicada”. Mas manteve os filhos na ignorância até ao último minuto.

UM SUSTO DO DIABO

No regresso à Galiza, o resistente automóvel saiu da estrada principal para entrar em Coimbra. O cônsul conduziu-o em direção ao Convento das Carmelitas, e aí entrou no carro a irmã Lúcia, a mais velha dos três pastorinhos de Fátima, que precisava de ser transportada para o Convento das Doroteias, em Tui. Estava explicado o melindre do assunto. Os filhos mais velhos do casal logo reconheceram Lúcia e trataram de passar o segredo aos mais novos. Um alvoroço. “As crianças cantaram, riram, dormiram e ousaram mesmo falar com a irmã Lúcia”, escreve António Moncada de Sousa Mendes, 68 anos, na sua obra Aristides de Sousa Mendes – Memórias de um neto (ed. Desassossego, 348 págs., €17,70), já nas livrarias. Um dos 39 netos de Aristides e Gigi, Moncada de Sousa Mendes decidiu relatar a intimidade da família, das alegrias às tragédias, num livro cheio de revelações, algumas das quais a VISÃO aqui antecipa em primeira mão – numa obra que é também uma homenagem sentida ao corajoso cônsul de Bordéus, que, na II Guerra Mundial, pagou o seu humanitarismo com a perseguição pelo Estado Novo salazarista até à morte.

Moncada de Sousa Mendes

Moncada de Sousa Mendes

José Carlos Carvalho

“Conforta-me saber”, explica o autor na introdução ao livro, “que o homem que salvou tantas vidas, com a sua assinatura em vistos para quem tentava desesperadamente escapar à morte decretada pelo horror nazi, pôs o seu nome no meu ‘visto para a vida’”(leia-se certidão de nascimento no Registo Civil).

Regressemos ao transporte da irmã Lúcia para Tui, no lotado automóvel. O cônsul calculou a viagem em sete ou oito horas. Tudo correu bem até quase à fronteira luso-galega. Aí, já a escurecer, a “boa estrada” começou a faltar. Sem sinalização adequada, o fatigado condutor perdeu-se e entrou por um caminho de cabras. E, ao virar numa curva estreita, colidiu com um enorme rebanho. Ovelhas voaram pelos ares, balindo alto, os cães ladraram, o pastor protestou, indignado. Dentro do automóvel gritava-se “ai, meu Deus!”. Recuperado o sangue-frio, Aristides abriu a porta para ver os estragos e quantos animais teriam sido atropelados e mortos. Pensava nos danos que causara ao pastor, em quem iria pagar a indemnização, se teria de dar conhecimento do incidente ao MNE, se arriscava alguma advertência por condução perigosa.

MAGIA INEXPLICÁVEL

Dentro do carro, já o silêncio era sepulcral, e as crianças olhavam em súplica para a irmã Lúcia. “E eis que de repente (…) há uma coisa qualquer que começa a mexer no meio daqueles cadáveres todos espalhados pelo caminho”, descreve Moncada de Sousa Mendes. “Sim, há uma ovelha que está viva (pelo menos uma), levanta-se e corre para o pastor, depois mais uma, e mais outra, e outra… (…) Acabaram por se levantar todas. Estavam todas vivas e de boa saúde.” No interior do automóvel, os filhos do cônsul viraram-se para a “santa”, como lhe chamavam: “Milagre, milagre”, exclamavam. “Tinham acabado de assistir a um acontecimento com algo de mágico, de inexplicável, e do qual se iriam lembrar para o resto da vida e transmitir à descendência.”

Retomada a rota em direção à fronteira, a noite já havia caído, cerrada. Às tantas, todos ouvem ao longe um comboio, e Aristides, em vez de abrandar, decidiu acelerar, de modo a atravessar a passagem de nível antes da composição, para não perder mais tempo. Quando entraram na rampa de acesso, porém, a cancela da passagem de nível desabou com força mesmo em frente do motor do automóvel, imobilizando-o. Ruídos de ferros e metais sugeriam estragos na dianteira do carro. O cônsul saiu do automóvel, embrenhado em preocupações. O que diria a polícia espanhola na fronteira, alguns metros mais à frente, ao ver chegar um carro do corpo consular a abarrotar de pessoas e sem luzes? Quem seria o irresponsável condutor? O silêncio glacial instalou-se, outra vez, no interior do carro, com os filhos de Aristides e Gigi a olharem fixamente uma muda e queda irmã Lúcia. O cônsul verificou, abismado, que os para-choques, os farolins e o motor pareciam estar no lugar. Pediu à mulher que acendesse os faróis – que deram luz. “Foi como se nada tivesse acontecido”, relata Moncada de Sousa Mendes. “Afinal, iriam poder prosseguir viagem até Tui. Não iria haver mais nenhum problema, apenas seria necessário conduzir com prudência até ao Convento das Doroteias. E depois: casa!” Mas todos levaram muito que pensar.

CURA DA NOITE PARA O DIA

Na Galiza, Aristides e Gigi decidiram residir em Tui. A cidade era tranquila e havia a prestigiada escola ligada às Irmãs Doroteias, na qual inscreveram as filhas Clotilde, Isabel e Joana. Além do mais, às raparigas era permitido um contacto próximo e frequente com freiras que ensinavam e viviam no convento.

Mas, também em 1928, a filha mais nova do casal, com três anos, Teresinha do Menino Jesus (nome que homenageava Santa Teresinha), adoeceu gravemente. O que então de extraordinário aconteceu levou o cônsul a escrever um artigo para a revista Rosas de Santa Teresinha. Aqui se resume o que o cônsul descreveu. A 9 de janeiro, um furúnculo nasceu no lábio superior de Teresinha. E, ao cabo de meses, todo o corpo da menina estava pejado de tumores. A pequena “tinha sempre uma febre intensa com delírio, sofria dores horríveis, não descansando nem de dia nem de noite”. O médico que a seguia não a operava, ou porque considerava não ser ainda a altura, ou porque saía da cidade para acorrer a outras emergências. Com a família em tremendo sofrimento, deu-se numa noite “um fenómeno inexplicável: (…) tudo desapareceu, a febre, o tumor, a inchação da perna!”, relatou Aristides. “Quando, de manhã, vimos a nossa filha, horas antes tão deformada e cheia de febre, sem vestígios de qualquer dos incómodos que durante três meses tanto a tinham apoquentado, ficámos deveras atónitos! A Teresinha então já se ria e dizia que queria ir para o chão, que estava melhor!” O médico foi ver a menina e “ficou na maior das estupefações”. Para o cônsul, “houve outra medicina a ocupar-se” da pequena: “a proteção de Nossa Senhora e de Santa Teresinha do Menino Jesus”. Em nome da família, agradeceu às Irmãs Doroteias. “Creio que foram elas que tudo conseguiram com as suas orações.” Por sigilo profissional, Aristides não referiu a “intervenção” da irmã Lúcia, da qual estava absolutamente convicto.

BATIZADO NO PALÁCIO DO SULTÃO

O grande amparo de Aristides sempre foi o seu irmão gémeo, César, meia hora mais velho. E vice-versa. Filhos de um circunspecto juiz, José de Sousa Mendes, e de uma aristocrata liberal, Maria Angelina do Amaral e Abranches, ambos de famílias enraizadas na Beira, reuniam todas as características que, ainda hoje, a ciência não consegue explicar. Tinham um entendimento completo em tudo, além da grande parecença física. Adivinhavam o que o outro dizia ou fazia, ainda que houvesse oceanos entre eles. Admiravam os mesmos santos (São Francisco, Santo António e Santo Agostinho) e até “gostavam dos mesmos doces”, nota Moncada de Sousa Mendes, neto dos gémeos: o seu pai, Geraldo, era filho de Aristides, e a mãe, Maria Luísa, filha de César.

Os gémeos tiraram o curso de Direito em Coimbra e, aos 25 anos, o “charme” da carreira diplomática, que ambos escolheram, separou-os fisicamente. A partir de maio de 1910, César começou com missões em Inglaterra e Espanha. Quanto a Aristides, iniciou-se em Demerara, na “insalubre” Guiana Britânica, na América do Sul. Mas, em 1912, foi nomeado para o consulado de Zanzibar, na então África Oriental inglesa. Aí viveria dias felizes.

Embora fosse um protetorado britânico, a ilha era governada por um sultão, o muçulmano Khalifa bin Harub. Jovem e formado em Inglaterra, o sultão simpatizava com a comunidade portuguesa, constituída sobretudo por comerciantes, e depressa se tornou amigo da família de Aristides. Disponibilizou-lhes, por exemplo, o seu estúdio fotográfico, onde o cônsul se fez fotografar com a indumentária da corte de Zanzibar. Depois, bin Harub manifestou o desejo de se unir à família através de um ato espiritual. Aristides e Gigi consultaram o bispo católico e o bispo anglicano daquela ilha, e depois dirigiram-se ao palácio do sultão para o convidarem a ser o padrinho da próxima criança que viesse. Passado pouco mais de um ano, na primavera de 1917, apareceu Geraldo, o sexto filho do casal, e que foi afilhado do sultão muçulmano e dos dois bispos cristãos. O batizado, celebrado no palácio de bin Harub, “foi mais do que uma simples festa”, conta Moncada de Sousa Mendes sobre a celebração cujo epicentro estava naquele que viria a ser o seu pai. “Foi um símbolo da união e amizade entre várias culturas e religiões.” À criança seria posto o nome de Feliciano do Nascimento Artur Geraldo – Arthur pelo bispo católico francês, e Geraldo pelo bispo anglicano. A identificação muçulmana do sultão foi convenientemente omitida…

A FRANCESA INOPORTUNA

Em 1934, quando Aristides está colocado em Antuérpia, na Bélgica, abatem-se sobre a família duas tragédias de efeitos devastadores. Manuel Silvério, 23 anos, filho do casal, acabava de se licenciar em Ciências Políticas e Diplomáticas, pela Universidade Católica de Lovaina (cidade onde os Sousa Mendes residiam), e pegou numa das suas irmãs nos braços, para festejar. Deu um tremendo mau jeito e ficou de cama dois dias. “Os meus avós chamaram o médico, que receitou uma injeção, cujo único resultado visível foi a sua morte, sem que nunca se soubesse porquê”, relata Moncada de Sousa Mendes. Meses depois, a filha mais nova, Raquel Hermínia, bebé nascida em Lovaina há pouco mais de um ano, sucumbiu a uma meningite.

Embora muito abalado, Aristides torna-se, em 1936, no decano do corpo diplomático em Antuérpia. Já fora condecorado duas vezes pelo rei dos belgas. Crente no valor dos serviços que prestara ao País, decidiu escrever a Salazar, Presidente do Conselho que acumulava a pasta dos Negócios Estrangeiros. Com fundamentos resumidos em sete pontos, solicitava ao ditador que o promovesse, colocando-o na China ou no Japão. Sem o dizer, queria pôr a família bem longe do conflito apocalíptico, na Europa e no mundo, que Hitler se preparava para iniciar.

Abstendo-se de explicações, o ditador recusou o pedido do cônsul e mandou-o para Bordéus – um posto como o precedente, senão inferior. Com um núcleo familiar mais reduzido, Aristides chegou à cidade francesa 11 meses antes do começo da II Guerra Mundial, que eclodiu em setembro de 1939, quando a Alemanha nazi invadiu a Europa.

Em Bordéus, no início de janeiro de 1940, fez um estranho pedido ao filho Pedro Nuno, que Moncada de Sousa Mendes reproduz. “Há uma senhora que encontrei há dias e que começou a falar muito comigo ‘sobre tudo e mais alguma coisa’, e agora quer ir ao cinema… Imagina!”, dizia Aristides. “Mas ela é muito mais nova do que eu, deve ter uns 30 anos, portanto, pela idade é muito mais próxima de ti”, continuava. “Tens de ajudar-me. Vai encontrá-la tu, diz-lhe que estou muito ocupado, mas que tu tens tempo e podes acompanhá-la ao cinema. Chama-se Andrée Cibial.” Pedro Nuno foi ao encontro da mulher francesa, como previsto. Contudo, explicou-lhe apenas que o pai não podia ir com ela ao cinema. 
E não se ofereceu para a acompanhar.

Alguns familiares voltariam a ter notícias de Andrée Cibial, em outubro do mesmo ano. A 19 desse mês, deu à luz uma menina, a que chamou Marie-Rose, na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, e disse que o pai da filha era o cônsul Aristides de Sousa Mendes. Um imbróglio e tanto.

RESILIENTE COMO POUCOS

Era preciso que Gigi não soubesse do affaire com a francesa e do nascimento da bebé. Disso trataram César, José Paulo, irmão mais novo dos gémeos, e um amigo da família. Tiraram Andrée Cibial e a filha da maternidade, pagaram a conta, e ao fim de algumas semanas a polícia política do regime, à época designada PVDE, pôs a “francesa” na fronteira, interditando-lhe a entrada no País.

Aristides, 55 anos, aguardava então o “castigo” de Salazar. Quando as forças do III Reich invadiram França, em maio de 1940, o cônsul de Bordéus emitiu vistos que salvaram dezenas de milhares de pessoas, em fuga dos nazis e do horror dos campos de concentração. Com os vistos, essas pessoas transitavam por Espanha e entravam em Portugal, onde, na maior parte dos casos, apanhavam um navio para os EUA. Em consciência, Aristides ignorou uma ordem do ditador, inscrita na “Circular 14”, de 11 de novembro de 1939, que proibia os diplomatas portugueses de concederem vistos “aos estrangeiros que (…) apresentem nos seus passaportes a declaração ou qualquer sinal de não poderem regressar livremente ao país de onde provêm”, e “aos judeus expulsos dos países da sua nacionalidade ou de aqueles de onde provêm”. A defesa do cônsul era simples: “Não participo em chacinas, por isso desobedeço a Salazar.” Acabou condenado a inatividade por um ano, com metade do vencimento da categoria, seguida da aposentação compulsiva, sanção esta que, à época, não se encontrava prevista na lei… 
E, sem qualquer justificação oficial, o gémeo César sofreu por tabela: esteve quase cinco anos inativo.

Em 1943, Sebastião, 20 anos, e Carlos Fernando, 21, os filhos “americanos” de Aristides e Gigi, nascidos em São Francisco, quando o cônsul ocupava esse posto, conseguiram convencer os pais a deixá-los partir para a guerra. Queriam reverter a má sorte de armas na mão, alistando-se nas forças aliadas que se concentravam em Inglaterra sob o comando do general americano Eisenhower. Mas havia um problema – as autoridades diziam que estavam em idade de cumprir o serviço militar, e que a nacionalidade portuguesa prevalecia sobre a americana, que também tinham. A família engendrou um plano. Sebastião e Carlos pretendiam ir para Inglaterra prosseguir os estudos, e a sua primeira nacionalidade, a americana, tinha de ser reconhecida para o efeito. Inscrito na Ordem dos Advogados, Aristides encarregou-se de defender a causa em tribunal – e ganhou. No verão de 1945, deu-se o feliz reencontro dos “americanos” com os seus. Tinham combatido do “Dia D” (desembarque na Normandia, em 1944) até ao “Dia V” (da vitória sobre Hitler, em maio de 1945), e saído imaculados da carnificina.

UMA ‘PENUCHA’ EM CABANAS

A 30 de agosto de 1948, Gigi morreu na sequência de uma trombose. Nesse dia cumpria 60 anos. Após o falecimento da mulher, Aristides, que sofrera um AVC que lhe paralisou a mão direita, pediu a um padre que lhe encontrasse Andrée Cibial e a sua filha francesa. Os filhos emigravam uns atrás dos outros – a carga do apelido era demasiado pesada para conseguirem fazer vida em Portugal. A “francesa” foi descoberta e casou-se, em fins de 1949, com Aristides. Buscava um impossível fausto, pelo que vendeu o que pôde do recheio da Casa do Passal. Anticorpos na família não lhe faltavam.

“A presença de Andrée em Cabanas de Viriato, e na região, foi uma espécie de ‘revolução francesa’”, descreve Moncada de Sousa Mendes. Vestia-se de forma nunca antes vista por aqueles lados, achavam-na estranha, bizarra. Em resumo, uma mulher incompreensível para os cabanenses. Por vezes, provocava desacatos e discussões, era extravagante, fazia rir as pessoas por usar chapéus exuberantes, com plumas. “Deram-lhe mesmo uma alcunha, por essa razão: ‘a penucha’.” Já agora, também arrancava gargalhadas a Aristides.

Em 1950, começou o processo de adoção de Marie-Rose, concluído dois anos depois. A rapariga ficou a viver em França, em casa de uns tios-avós. Aristides conseguiu que a polícia política lhe desse permissão para a conhecer e visitar, por quatro vezes. Foi imediata a empatia entre os dois.

Pelas quatro da tarde de um sábado, 3 de abril de 1954, Aristides de Sousa Mendes morreu, aos 68 anos, num quarto do Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, onde estava internado há três dias. “Talvez só, ou talvez na companhia de Andrée, nunca saberemos”, escreve Moncada de Sousa Mendes. Salazar enviou um cartão de condolências. A família guardou-o, apesar do cinismo desmesurado. E o gémeo César apenas sobreviveu um ano à morte do irmão.

(Artigo publicado na VISÃO 1284, de 12 de outubro de 2017)