Incêndio de Pedrogão Grande : O que falta saber sobre a tragédia que já ceifou 57 vidas

As condições atmosféricas “atípicas” foram determinantes para a propagação rápida do incêndio em Pedrógão Grande. “Inconsciência” e “curiosidade” podem explicar algumas das mortes.

O incêndio que deflagrou em Pedrógão Grande neste sábado provocou 57 mortos, todos civis, e 59 feridos, de acordo com o balanço oficial divulgado esta manhã pelo secretário de Estado da Administração Interna. Os números têm vindo a subir desde que Jorge Gomes fez a primeira comunicação sobre a tragédia perante a comunicação social, durante o serão deste sábado, num momento em que os primeiros dados disponíveis apontavam para 19 mortos.

Esta manhã, a Polícia Judiciária afastou qualquer cenário de mão criminosa na origem deste incêndio — terá sido a trovoada seca que causou as chamas. “A PJ, em perfeita articulação com a GNR, conseguiu determinar a origem do incêndio e tudo aponta muito claramente para que sejam causas naturais. Inclusivamenteencontrámos a árvore que foi atingida por um raio”, informou o diretor nacional da PJ.

A intensidade das chamas nas quatro frentes de incêndio – três das quais, na noite de sábado, eram consideradas violentas – não permitia otimismo e Jorge Gomes, secretário de Estado, bem como o presidente do município local, não esconderam a perspetiva de que o balanço se tornaria mais dramático à medida que as autoridades fossem fazendo o rescaldo possível nas zonas que o fogo já tivesse abandonado. A cautela revelou-se justificada, assim como as palavras do primeiro-ministro, António Costa, quando afirmou que se estava perante “a maior tragédia de vidas humanas dos últimos anos“.

“Curiosidade” e “inconsciência” explica algumas das mortes

O secretário de Estado Jorge Gomes explicou esta manhã que, entre os mortos, “uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo“. Foram encontrados 30 mortos dentro de viaturas, 17 pessoas fora de viaturas ou nas margens da estrada nacional 236 (que liga ao IC8) e, ainda, 10 pessoas em zonas rurais, explicou Jorge Gomes.

Esta descrição já tinha sido feita esta madrugada por Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros, que falou na “curiosidade” e nalguma “inconsciência” como um dos fatores a explicar as mortes. “O fogo progrediu a uma velocidade diabólica, nunca vista, inimaginável”, afirmou o responsável já esta manhã, ouvido pela RTP, elogiando a “grande capacidade das forças no terreno, que rapidamente chegaram ao local e se organizaram, sentiram-se no limite das suas capacidades. Tudo fizeram, numa luta desigual contra a natureza zangada”.

Faz sentido falar em falta de meios? “A velocidade das chamas, não há velocidade possível de deslocação de meios comparável à velocidade das chamas. Para isso era preciso estarem 1000 ou 1500 homens a postos, no terreno, com 300 ou 400 viaturas, lá instalados. A organização foi rápida e foi a possível. O que podia ter sido feito, foi feito, não tenho a mínima dúvida”, afirmou Jaime Marta Soares.

Foto: PAULO CUNHA/EPA

Como começou o incêndio

O fogo teve ignição às 14h00 deste sábado na povoação de Escalos Fundeiros, no concelho de Pedrógão Grande, norte do distrito de Leiria. As autoridades, desde os bombeiros aos responsáveis da Proteção Civil, têm coincidido na explicação de que foram condições meteorológicas “atípicas” e que se verificaram em simultâneo, com ventos fortes e frequentes mudanças de direção, trovoadas secas, humidade escassa e temperaturas elevadas, que terão feito com que o incêndio se propagasse rapidamente.

As chamas alastraram para localidades de outros dois concelhos: Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Pelo final do dia, havia aldeias cercadas pelo fogo e isoladas, com a situação agravada por falhas no fornecimento de energia elétrica e nas comunicações, e vários habitantes começaram a abandonar as respetivas casas sob a ameaça das chamas. O presidente da Câmara de Pedrógão Grande, alertava, então, haver aldeias “em muito perigo, completamente cercadas” e falta de bombeiros no combate às chamas. “Estamos a tentar evacuar aldeias completamente cercadas e em muito perigo”, sublinhava Valdemar Alves, que apontava as zonas de Mosteiro, Vila Facaia, Coelhal, Escalos Cimeiros, Regadas e Graça como as mais afetadas.

A partir das 19h00 de sábado, o descontrolo das chamas levou a GNR a proceder ao encerramento do IC8, entre o nó da zona industrial de Pedrógão Grande e o nó do Outão, uma via rodoviária situada a sul de Escalos Fundeiros, onde o incêndio se declarou.

Numa primeira contabilização oficial das vítimas, o secretário de Estado da Administração Interna anunciou 19 vítimas mortais. O balanço foi, depois, atualizado para 24 e, posteriormente, para 25 vítimas mortais. Agora, os dados oficiais indicam 43 mortos e 59 feridos. Dezoito pessoas pereceram quando circulavam na estrada que faz a ligação entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra e três sucumbiram na via pública, intoxicadas pelos fumos gerados pelo incêndio.

Quatro das vítimas mortais foram encontradas no IC8 e cinco dos feridos estão em estado grave: quatro bombeiros, transferidos para unidades hospitalares em Coimbra e em Lisboa, neste caso para o hospital de Santa Maria, bem como uma criança. Duas pessoas foram dadas como desaparecidas, mas as autoridades não confirmaram a veracidade desta informação.

Foto: JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Governo declara estado de contingência

Os números da Autoridade Nacional de Proteção Civil revelam que, na manhã deste domingo, estão 682 bombeiros a combater as chamas em Pedrógão Grande, apoiados por 219 viaturas. No teatro de operações estão quatro pelotões do Exército para, durante a manhã deste domingo, procederem a operações de rescaldo e de verificação, e há meios aéreos disponibilizados pelas autoridades espanholas para participarem no combate ao incêndio, especificamente dois aviões Canadair.

O Governo declarou o estado de contingência e equipas da Polícia Judiciária estão no terreno para investigar as circunstâncias em que o fogo começou, uma questão obrigatória visto que ocorreram vítimas mortais. O autarca de Pedrógão Grande manifestou a convicção de que a catástrofe terá sido originada por fogo posto, mas o diretor nacional da PJ declarou que o incêndio não apresenta qualquer indício de origem criminosa.

Apesar dos meios presentes no terreno, nenhum responsável das entidades de segurança e proteção adiantou qualquer previsão sobre quando o incêndio poderá ser considerado extinto, com a situação em Figueiró dos Vinhos a ser qualificada como caótica pelas autoridades locais.

A União Europeia, solidária com Portugal, acionou o Mecanismo de Proteção Civil para ajudar Portugal.

In : Observador