Comandante Filipe Guilherme (Nelas) comenta o incêndio de Pedrogão Grande

Desafiado pelo nosso jornal a comentar, como Bombeiro e Comandante, o horror que ainda se vive na região de Pedrogão Grande e concelhos vizinhos, Filipe Guilherme fez chegar a sua análise :

Ao fim de tantos anos ligado à estrutura dos Bombeiros não há memória de tal acontecimento e palavras para descrever o que está a acontecer. Não há no nosso país histórico de idêntica tragédia associada aos incêndios florestais.

Hesitei em escrever, por respeito às vítimas e por correr o risco de ser acusado de querer tirar algum proveito desta tragédia. Contudo, é oportuno falar daquilo que muitos desconhecem e erradamente opinam.

Há muito que nós Bombeiros, nos apercebemos que a dimensão e o comportamento dos incêndios de hoje são bem diferentes de há alguns anos, com diversas razões identificadas e associadas a esta situação. Bastante combustível disponível para arder, condições meteorológicas muitas vezes severas e acima de tudo um trabalho inexistente até que os mesmos surjam. Mais do que as causas ou origens que todos conhecemos e que dificilmente se conseguem eliminar, há um trabalho que teima em não existir, que devia ser feito meses e anos antes dos incêndios.

Há incêndios, haverá incêndios e é utópico pensar que eles vão deixar de existir. Não basta existir melhorias significativas na preparação para o combate, sensibilização de todos para que não ocorram ou mesmo soluções que só incidem no combate. Neste complemento de responsabilidades e naquilo que está associado a floresta, claramente alguém não está a fazer o seu trabalho. Não existindo gestão de combustível, ordenamento, criação de faixas de proteção na envolvente de habitações e tudo aquilo que possa minimizar os efeitos de um incêndio, dificilmente se consegue contrariar esses mesmos efeitos, muitas vezes trágicos.

Revolta-me quando ouço que a culpa são os Bombeiros por parte de quem nada fez até que eles sejam necessários, sejam eles populações ou responsáveis políticos.

Entristece-me quando ouço que não há, não estão, não fazem. Quando estão e tudo fazem para além dos seus limites. Lamentavelmente, e fruto da nossa cultura de costumes, é mais fácil apontar culpados para tudo, quando todos somos culpados.

O Sistema Nacional de Defesa da Floresta contra Incêndios (SNDFCI) assenta em três pilares centrais, o primeiro relativo à prevenção estrutural, o segundo referente à vigilância, deteção e fiscalização e o terceiro respeitante ao combate, rescaldo e vigilância pós-incêndio.

Entenda-se que o terceiro pilar só surge em última linha e claramente porque a montante alguma coisa falhou, principalmente no primeiro. E esta falha só é mais óbvia ou percetível quando nos deparamos com tragédias como esta.

Há cerca de dois anos realizámos em Nelas um seminário com o tema: “Incêndio Florestais: O que mudou? Contributos e debate na reflexão sobre a atualidade” com a participação de especialistas de diversas áreas, o objetivo não era mais que a contribuição de todos para todos, sobre um problema comum. Todos aqueles que diretamente se encontram envolvidos neste Sistema Nacional foram convidados a participarem com contributos, aprendizagens ou necessidades de mudança. Somente se verificou a participação de elementos da GNR e Bombeiros, sem que houvesse interesse ou presença de responsáveis do primeiro pilar, nomeadamente Instituto de Conservação da Natureza e florestas (ICNF) e mesmo da Autoridade Nacional da Proteção Civil (ANPC), responsável pelo terceiro pilar.

E não foi a única situação, verificando-se lamentavelmente a mesma situação em diversos seminários, jornadas ou sessões técnicas, concluindo que só mesmo nós é que temos a responsabilidade de mudar.

Claramente percebo que unicamente o que mudou, foi a agressividade dos incêndios e as condições para que eles existam nestas proporções, tornando-os mais fortes e violentos. Percebo também claramente que os únicos a se preocuparem são os mesmos que ironicamente no fim de tudo acarretam com culpas na desculpabilização de muitos.

Não querendo justificar o que muitas vezes é a nossa impotência ou frustração no combate, atualmente e apesar de todos bem mais preparados, mais bem formados, com mais e melhores ferramentas disponíveis de planeamento e combate, é bastante difícil muitas vezes definir uma estratégia que ajuste os recursos ao cenário existente. Os incêndios cada vez mais são rápidos e violentos de elevada intensidade e com comprimentos de chama de difícil combate, tornando-os muitas vezes imprevisíveis com comportamentos mortíferos. Há neste momento diversos registos e associado aquilo que é o histórico de incêndios no mesmo local, verificando-se hoje que o que arde em poucas horas, há alguns anos atrás levava vários dias.

Acompanhar muitas vezes esta evolução dantesca dos incêndios, não é fácil.

Não é fácil definir estratégias em que ao mesmo tempo se vise a proteção de pessoas e bens, garantindo a segurança de quem combate e simultaneamente um ataque em toda a extensão do incêndio.

Não é fácil estar em todo o lado a todo o momento, por muito que se queira.

Não é fácil lutarmos de forma desigual.

Não é fácil ver e ouvir o que não temos de ver e ouvir.

 

Não que seja possível evitar todas as tragédias, é importante tirar reflexões para o futuro e todos nós, mesmo que com diferentes funções, repensarmos o paradigma dos incêndios florestais.

 

Manifesto a minha solidariedade para todas as famílias e gentes afetadas por esta tragédia e para com todos aqueles que ainda estão em combate, conhecendo bem o seu empenho, profissionalismo e capacidade de não baixar os braços, mesmo prevendo-se ainda situações complicadas e um combate bastante difícil.