Vinho da Talha.Como produzir vinho em casa de forma biológica

As recordações de infância de muitos de nós levam-nos a produções próprias de vinho, feitas por avós e bisavós. Se muitos tinham lagares de pedra, pipas, pipos e tonéis, outros vinificavam na talha. Esta tradição, que já vem dos Romanos, pretende ser perpetuada, principalmente no Alentejo, nas sub-regiões de Borba, Reguengos de Monsaraz, Vidigueira e Granja. A elaboração do vinho por processos artesanais,através do uso de grandes vasilhas de barro (talhas ou ânforas), caracteriza-se por uma grande simplicidade. Estamos na presença do verdadeiro “vinho caseiro”, a que todos podem aceder. “O processo é manual e cheio de riscos, podendo ficar tudo perdido, se não se tiverem os necessários cuidados”, conta José Miguel Almeida, secretário-geral da Vitifrades, associação de desenvolvimento talhas-esporc3a3olocal surgida em 1998 e dedicada à promoção e valorização do vinho da talha. Os seus principais objectivos são o aumento da notoriedade desta prática enológica e a melhoria constante da qualidade do vinho assim produzido. Para isso muito tem contribuído o concurso que organiza, todos os anos, e distingue a melhor produção. Acontece durante as Festas Báquicas Vitifrades – este ano, na sua 14ª edição, realizam-se entre 9 e 11 de Dezembro.

O barro, sendo um material poroso, possibilita uma microxigenação no interior da vasilha. Existe uma grande possibilidade de se realizarem trocas gasosas através das paredes do recipiente, o que beneficia o vinho tinto, sendo que neste processo de vinificação não se usam produtos químicos. “Faz-se tudo de forma tradicional, não lhe adicionamos leveduras, enzimas, taninos e sulfitos, tão somente leveduras naturais das uvas”, assegura o dirigente associativo e técnico de viticultura. Este é o verdadeiro sumo da uva fermentado, ou seja, o vinho mais puro e fiel ao seu “terroir”. Se, um dia, houver uma definição precisa do que é um vinho biológico, este será, sem dúvida, o que mais se lhe aproxima, resultando um produto final muito diverso, colheita após colheita.

O processo de vinificação na talha :

Após a vindima, as uvas são desengaçadas e esmagadas, como sempre acontece. Colocadas nas talhas, nas quais acontecerá o processo fermentativo, medem-se a densidade do mosto e da sua temperatura, para assim saber o teor de açúcares. No período das 48 horas seguintes, inicia-se a fermentação do mosto – o qual é analisado para determinar o grau de acidez e a eventual necessidade de se lhe adicionar ácido tartárico. O vinho terá que ficar em contacto com as massas, até ao São Martinho. Mais ou menos, dois meses. Durante esse período, é necessário mexer diariamente as massas com um rodo de madeira – uma vara com uma “cabeça” -, mergulhando-as na parte líquida. Isto, a “molha da manta”, é feito duas a três vezes, na fase mais tumultuosa da fermentação, que decorre nas primeiras duas a três semanas, e apenas uma, no restante período. No fim do processo, só existe vinho à superfície, com as massas no fundo.