“Os concelhos do interior só têm uma solução – apostar nos produtos endógenos”

Demografia. Foi este o primeiro tema que abordámos com Nuno Vaz, num agradável almoço no Senta Aí. Por entre diversos petiscos, dos quais destacamos os já famosos cogumelos à bolhão pato, o advogado Canense, que exerce a sua atividade profissional em Nelas e mora em Viseu, candidatou-se pela CDU a presidente da Câmara nas autárquica de 2013 e surpreendeu positivamente, registando a maior votação de sempre em Nelas para a CDU e PCP.
“A saída de jovens e o envelhecimento dos concelhos do interior do país é uma realidade muito problemática, desde logo porque não há uma política de apoio à natalidade”, começa por nos dizer. Mostrando-se adepto dos incentivos à natalidade, cita o exemplo de Mora (Alentejo), que conseguiu inverter a tendência de decréscimo populacional. “No nosso concelho tenho verificado a saída massiva de jovens qualificados, que acabam por não regressar”, nota, isto apesar de reconhecer “os esforços que têm vindo a ser feitos, com a atração de novos investimentos”. “Mesmo o crescimento populacional das maiores cidades do interior, como Viseu, é feito à custa do fluxo dos concelhos vizinhos, que vão definhando”, constata, defendendo a melhoria do rendimento das famílias, para se conseguir um efeito positivo também neste domínio.
Um homem de família, com forte sentido social e humanitário, de tal forma que considera um “dever” a Europa “acolher pessoas que fogem de cenários de guerra e de fome”. “Sendo nós um país de emigrantes, custa-me ouvir quem não queira receber povos que fogem da guerra e da miséria”, afirma, considerando que “não há seres humanos ilegais e todos têm direito à mesma dignidade e a um rendimento que permita ter as condições mínimas de vida – é um contraditório trabalhar e viver na miséria”.
Num novo ciclo, em que o crescimento da economia, embora ainda anémico para as necessidades do país, parece sedimentar-se, Nuno Vaz acredita que o concelho de Nelas tem todas as condições para o aproveitar bem. “Temos que reconhecer o bom trabalho que este executivo tem vindo a fazer”, realça, enaltecendo desde logo “a transparência na gestão municipal, designadamente nos orçamentos que agora são realistas e fáceis de ler”.

“Os concelhos do interior só têm uma solução – a aposta nos seus produtos endógenos”, defende, exemplificando em Nelas “o termalismo, os vinhos e a Vila de Santar”. “Mas há que cuidar da riqueza que temos, não se compreendendo como a Felgueira está naquele estado e não exista, por exemplo, um roteiro turístico e histórico para Santar, dando a conhecer toda a sua história e riqueza”, refere, acreditando em bons projetos no interior, como âncoras para o desenvolvimento, como “o Museu do Pão. em Seia, que já é o segundo mais visitado do país”. “Aqui temos potencialidades para criar um ou dois museus, como um museu industrial em Canas e o do Vinho do Dão”, sugere, mas tudo de forma “articulada e com muito informação e um posto de turismo sempre aberto”.

Convicto que “o turismo é a única alternativa que nos resta”, defende ações de marketing e de promoção, mas que não o Rali Vinho do Dão, que considera “não ter retorno para o concelho, pelo menos em função do investimento que é feito, pois esse público é muito específico e em regra não volta”. “Preferia muito mais que a autarquia aplicasse esse montante num incentivo à natalidade, em que cada criança nascida no concelho poderia receber mil euros, para gastos apenas no concelho”. Já a resolução do grave problema ambiental do concelho, merece o seu apoio incondicional, pela priorização que teve.
Relativamente ao atual governo, vê com bons olhos a política que está a ser levada a cabo, porque “qualquer solução que permitisse colocar um ponto final a um governo que representou o que de mais liberal já vimos em Portugal e que maior retrocesso provocou nos direitos sociais, seria positiva”. Acreditando que o governo PS, com o apoio das forças de esquerda, irá completar a legislatura, mostra-se frontalmente contra o salvamento dos bancos pelos contribuintes. “Se uma empresa privada entra em falência, os portugueses não são chamados a pagar as suas dívidas”, critica. Questão fraturante é a reestruturação da dívida, que PCP e Bloco de Esquerda defendem. O nosso interlocutor corrobora da mesma opinião. “Andámos a gastar o que não tínhamos, fazendo auto estradas coladas umas às outras, nalguns locais distando menos de 1 Km, e assim chegámos a uma dívida que nunca vamos conseguir pagar”, constata. “Devemos ter um perdão de dívida, para que possamos aliviar o peso dos juros e do pagamento dessa dívida em benefício de uma maior proteção social”. 

Para finalizar, e já com a sobremesa como pano de fundo, o também poeta/escritor, com três livros editados, confessa-nos que “com o nascimento do terceiro filho, o tempo é escasso, e apenas tenho conseguido escrever algumas coisas dispersas”, reconhecendo que a área cultural no concelho “tem melhorado muito, principalmente graças à Fundação Lapa do Lobo”. Uma eventual recandidatura em 2017 não está ainda nos seus horizontes, porque “ainda é cedo para falar nisso”.